Relendo Clarice Lispector, me deparo com um título que sempre me pareceu instigante: “Se eu fosse eu”.
As poucas e profundas coisas que ela faria se fosse ela, também eu gostaria de fazer. Mas a cada um os seus eus, o seu tempo, o seu espaço. Conhece-te a ti mesmo é lição antiga e, certamente, impossível.
Consigo pensar também em Cecilia Meireles como uma possível resposta: uma parte de mim é todo mundo, outra parte ninguém, mundo sem fundo… traduzir uma parte na outra parte, será vida? será arte? O cansaço vem junto com a preguiça de pensar, quanto mais de responder. Mas.
Ando pensando em tirar férias. Muitas férias. Férias do trabalho que, depois de minha aposentadoria ficou menor, mas em compensação menos organizado e, quando dou por mim, é como se estivesse trabalhando dobrado. E a burocracia aumentou, algo inexplicável em tempos de internet. Tudo está na rede, mas continuamos imprimindo folhas e mais folhas de papel.
Ando pensando em tirar férias da função de informar, formar e educar. Muitas férias. Sei que vou morrer professora e acho digno, mas parece que a concorrência aumentou demais.
Há cada vez mais gente sabida, ainda que nem sempre mais capaz de argumentar. O pensamento, ah! o pensamento, que coisa mais antiga! O que vale é a informação, altas doses de informação. Das poucas coisas do passado, essa é das que lamento.
Ando pensando em tirar férias dos jornais e das revistas. Muitas férias. Os jornalistas analíticos desapareceram. Só ficaram os de opinião. Inócuos, porque argumentam mal.
Sobre determinados temas, não adianta alguém tentar convencer o outro de que está com a razão se o outro não quiser/não puder apresentar a sua visão a respeito. Daí a formação de leitores de consenso. Ando lendo só o horóscopo, e olha que não me diz nada!
Ando pensando em tirar férias das pessoas que me procuram para perguntar o que fazer. Muitas férias. Nem a Mulher Maravilha, nem a Supermãe dariam conta, que dirá eu! Dou conta da minha vida, da minha família, das minhas amizades e do meu trabalho. O mais, se não fizer parte disso, sinto muito. Tenho mais de 60 anos, sou baixinha e despreparada.
Ando pensando em tirar férias de mim. Muitas férias. Epa! Parece que escorreguei! Mas se eu tirasse férias de mim, talvez eu perdesse os afetos, as amizades e o trabalho. Outro dia uma amiga muito querida me perguntou: qual o sentido da vida? por que viemos ao mundo?
Óbvio que não fui capaz de responder, mas talvez sejam essas perguntas que nos movem a todos na vida que levamos.
Clarice dá uma pista diante do problema: “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo.
Bem sei, experimentaríamos enfim, em pleno, a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais...
Vou adiar minhas férias.