Há tempos não me ocorria dormir acordado, largado no pensamento, num trotar de imagens. A moça à minha frente tem um piercing no septo. Peço um chope, ela nem olha para mim, pergunta a marca, digo Brahma, “não tem”, responde num jeito quase hostil; peço outra qualquer, ela prossegue sem olhar para mim. Aquelas argolas no nariz me fazem lembrar o mitológico minotauro.
Quando por fim me passa a caneca, ergue os olhos e pergunta: “o senhor deseja mais alguma coisa?” Então larguei os meus olhos abertos e a boca sorrindo enquanto o mundo apagava. Diante daqueles olhos miúdos e tristes, permiti milhares de desejos no pequeno segundo transformado em horas de pensamentos, sonhando com os olhos abertos, absorto na última pergunta: “deseja mais alguma coisa?”. Sim, querida desconhecida do nariz furado, desejo viajar para Paris, conhecer os Pirineus, entrar de manhã numa livraria e só sair de lá tarde da noite, sem me preocupar com o horário.
Desejo também nunca mais ter que dirigir, o trânsito me enlouquece, nem votar, desperdício de tempo, e que essa maldita dor nas costas desapareça para sempre. Permita-me ainda desejar ganhar alguns milhares de dinheiro, dos quais ficaria com a metade, o resto distribuiria entre os mais pobres (será?) e daria as migalhas aos pombos. Um desejo pessoal me ocorre, não que me faça falta (será?), mas gostaria se meus cabelos tornassem a nascer. Sim, eu desejo ser cabeludo. Também gostaria de ser invisível, não para sumir, mas para bisbilhotar as outras pessoas sem ser visto. Outro desejo me consome, aquele de ver o sorriso da pessoa lendo essa crônica e pensando: “nossa, eu também desejo isso”.
Faço sinal com o dedo e a moça do piercing já sabe que desejo mais um chope. E os pensamentos prosseguem num trotar; eu desejo assistir ao show do Paul MacCartney, também do Chico Buarque, já que o do Belchior não vai dar mais. Desejo ainda o deslumbre com outros ídolos, apenas um abraço ligeiro: olá Caetano, Ney que bom você existir, eu te adoro Gil, não faz ideia, Djavan, o quanto me faz bem, desde quando aprendi a sonhar o seu sonho.
Continuei sorrindo calado para a moça do piercing no septo e ela já começava a se inquietar. A espuma do chope escorrega pelos cantos dos meus lábios no exato momento que a ideia da eterna juventude explode nos meus miolos. Ah, seu eu pudesse voltar aos vinte anos com a maturidade que hoje tenho... Imaginar desejos é beber um balde de água salgada: a sede nunca é saciada.
Comidas venham, eu as desejo, costela de porco assada, pudim, sorvete de coco. Sonhar é preciso e precioso. Prossigo naquele tropel de pensamentos, ameaço um novo sorriso, mas recuo ao perceber que a moça arregala os olhos, convencida de vez que eu não regulo bem das ideias, talvez imaginando meu pensamento: será dolorido colocar um piercing no septo? Bebo tudo de uma vez. “Deseja mais um chope, senhor?” Não, por hoje chega, respondi preocupado: quanto tempo irá durar esse tropel de desejos a desfilar na minha cabeça? No fim, desejo deixar de desejar...