As férias escolares podem ser uma oportunidade para acabar com um transtorno que aflige, constrange e muitas vezes até impede a criança de participar de uma noite do pijama ou de fazer uma viagem nos dias livres: o xixi na cama.
Em termos médicos, o problema é designado como enurese noturna e pode ter desde origem genética até ser explicado por causas ligadas às disfunções orgânicas.
Apesar de comumente relacionado aos primeiros anos de vida, pode perdurar por ainda mais tempo – como no caso relatado abaixo.
ATÉ OS 12
Aos 31 anos, Camila (nome fictício, pois a entrevistada preferiu não se identificar) conta o que sofreu até os 12, quando finalmente conseguiu deixar o constrangimento no passado.
“Ficava muito triste por não poder dormir na casa dos amigos, uma vez que todo mundo quer fazer isso na infância, e comigo não era diferente. Também era chato acordar com a roupa de cama molhada e ter de pedir para estenderem o colchão ao sol e lavarem o lençol. Eu tinha muita vergonha. Depois de algum tempo, tive de começar a dormir com um plástico por cima do colchão, para evitar que molhasse quando acontecesse”.
Os escapes noturnos foram ficando menos frequentes conforme ela ia crescendo. “Passaram a ser bem esporádicos. Aconteciam de 10 em 10 dias, mais ou menos. Depois que cheguei perto dos 12 anos, foram ficando ainda mais espaçados, de uma a duas vezes por mês, até pararem completamente”, conta.
A mãe chegou a levá-la ao médico. O profissional deu a receita de um medicamento que ela tomou durante dois meses, mas não funcionou. Camila acredita que seu problema não tenha sido hereditário nem orgânico, mas, sim, emocional. “Lembro de ser uma criança e uma pré-adolescente bem insegura e acho que isso refletia no xixi na cama de alguma forma”, reconhece. “Minha mãe tentava me ajudar a resolver o problema mostrando como ter autoconfiança, mas não conseguiu resultado”.
É consenso que, até os cinco anos de idade, o xixi na cama pode ser considerado normal. Após essa marca, o recomendado é procurar um médico e não negligenciar o tratamento.
CAUSAS
Em relação ao caso de Camila, o urologista pediátrico Atila Rondon, profissional do Rio de Janeiro que faz parte de um grupo de apoio nacional especializado no transtorno, ressalva que as razões emocionais justificaram a enurese noturna durante muito tempo, mas que não têm mais o mesmo peso hoje em dia. “Há 40 ou 50 anos, as perdas urinárias eram associadas principalmente a problemas psicológicos. Hoje sabemos que, na maioria das vezes, são justificáveis por causas orgânicas”.
Desconfia-se que problemas psicológicos estejam associados à enurese quando, segundo Atila, a criança para e depois volta a ter as perdas durante o sono. “Se controla durante seis meses, por exemplo, e algo acontece, a vida muda, daí ela reincide. Normalmente, orientamos que os pais procurem um psicólogo ou psiquiatra para acompanhamento”, complementa.
De acordo com o urologista, são três os principais fatores correlacionados ao xixi na cama. O primeiro é o mau funcionamento da bexiga; o segundo é aprodução de urina em excesso durante a noite; e o terceiro é a dificuldade de despertar do sono.
Outro fator possível, mas menos frequente do que os elencados, é o hereditário. Se um dos pais teve enurese até mais tarde, em 44% dos casos o filho pode ter também. E se tiveram pai e mãe, as chances aumentam para 80%.
DIAGNÓSTICO
Para descobrir as causas da enurese, o médico deverá investigar histórico familiar, além de frequência dos escapes noturnos e fluxo urinário durante a noite e também durante o dia.
Geralmente, segundo o especialista, a frequência da maioria das crianças é de duas a quatro perdas por semana, como também pode haver perdas apenas uma vez por semana ou, também, todas as noites.
SOLUÇÕES
Graças ao avanço dos estudos sobre a enurese noturna, é possível entender melhor o transtorno e saber qual o melhor tratamento para ele. “Atualmente, sabemos, por exemplo, que alguns sinais diurnos estão relacionados a determinadas causas”, cita Atila.
Os tratamentos indicados são diferentes para cada caso diagnosticado. “Podem ser receitadas medicações que vão atuar sobre a bexiga ou sobre a produção de urina. O principal tratamento é o uso de um sensor de umidade que dispara e acorda a criança para ir ao banheiro. Ele ajuda a condicionar o organismo e ‘ensina’ a bexiga a ficar quietinha. Assim, o hormônio que produz urina diminui à noite”, diz o especialista.
Há também orientações mais gerais que podem contribuir com a solução da enurese. Restringir a ingestão de líquidos à noite e criar o hábito de fazer um último xixi antes de dormir para esvaziar a bexiga são duas delas. “Aparentemente, esses métodos, sozinhos, não são capazes de resolver o problema”, observa.
Não tratar a enurese de nenhuma forma pode produzir efeitos negativos para o resto da vida. “Os impactos podem recair sobre a autoestima da criança e afetar seu emocional, seu desempenho escolar”, conclui Atila.
Por um desfralde respeitoso
Retirar a fralda da criança no tempo adequado para ela é uma forma de prevenir as perdas noturnas nos primeiros anos de vida e até de evitar futuros problemas mais sérios. O desfralde precisa respeitar o amadurecimento neurofisiológico, comportamental e emocional de cada uma delas. Geralmente, é entre os dois e três anos de idade que se começa a desenvolver o controle esfincteriano naturalmente. Porém, isso não deve ser encarado como algo pontual, uma regra.
Forçar e acelerar o processo pode levar a um quadro de disfunção, que pode desencadear, por exemplo, prisão de ventre, falta de controle miccional e, mais tarde, a enurese noturna e problemas psicossociais.