Correio B

CIÊNCIA

Projeto resgata saberes sobre o céu

Projeto da Uems reúne o conhecimento dos índios Guaranis sobre astronomia e o exibe num planetário

Para os povos tradicionais, tudo o que existe no céu existe também na Terra. Essa percepção influi em seu modo de vida, permitindo maior domínio sobre a natureza desde muito antes da astronomia ser uma ciência formal.

Os guaranis foram os primeiros astrônomos no Brasil. Observando a posição dos astros, orientaram plantio e colheita, decisões sobre moradia e costumes – como festejos, por exemplo. Grupos descendentes que permanecem em Mato Grosso do Sul ainda guardam os mesmos saberes sobre o céu e, a partir deles, contribuíram com a produção de uma pesquisa da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (Uems) que valoriza e dissemina a compreensão guarani da relação entre fenômenos celestes e fenômenos da natureza, desde 2006.

O professor e coordenador do curso de Física do campus Dourados da instituição, Pedro Souza da Silva, foi quem iniciou o trabalho, com o apoio do astrônomo e também professor Germano Bruno Afonso, hoje aposentado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), que, à época, esteve na Uems como convidado. Ele acompanhou o andamento da pesquisa e compartilhou o que sabe sobre a etnoastronomia indígena – uma ciência baseada no conhecimento astronômico de determinado grupo étnico, repassado por meio da tradição dos mitos e pela oralidade. Natural de Ponta Porã, Germano tem raízes indígenas e é reconhecido no exterior por seu trabalho com o tema.

RESGATE

Em uma das etapas da pesquisa, moradores das aldeias indígenas de Dourados foram entrevistados por Pedro e pela equipe do projeto. “Verificamos que pessoas mais idosas ainda mantinham o conhecimento sobre o céu e sobre os mitos, mas que ele não estava sendo repassado para as novas gerações. E o nosso intuito é justamente resgatar isso na identidade deles e falar sobre uma mitologia que é nossa”, comenta o coordenador. 

Levar palestras e desenvolver ao Observatório Solar e o Planetário indígenas – estruturas físicas que permitem a leitura do céu  – era algo previsto dentro da proposta, que foi concretizada em 2009.
Desde que o projeto começou a investir nessas ações, cerca de 100 mil pessoas, entre moradores de comunidades indígenas, pesquisadores e estudantes, já assistiram às palestras. Em Mato Grosso do Sul, quase todos os municípios já a receberam. Atingir estudantes do Ensino Fundamental, especialmente com as estruturas de observação, também é uma das propostas e tem o objetivo de complementar o ensino das ciências exatas. 

PARA ENTENDER O CÉU

Com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foram construídos três Observatórios Solares Indígenas e um Planetário Indígena em Dourados. Um dos locais escolhidos para instalá-los foi a sede da Uems no município e os outros dois foram escolas indígenas que ficam dentro das aldeias Jaguapiru e Panambizinho.

A primeira estrutura é uma espécie de relógio, capaz de mostrar as estações do ano e de calcular a latitude local, entre outras coisas. “É feito a exemplo do que os indígenas faziam: um círculo onde se tem um monumento de pedra ao meio, além das raias Leste, Oeste e laterais. É a sombra produzida a partir dessa estrutura que vai ‘interagir’ com a pedra e percorrer uma determinada área. A posição da sombra permite que os indígenas tenham noções sobre as estações do ano”, explica Pedro. É possível utilizá-la durante o dia.

Já o planetário desenvolvido como suporte da pesquisa, é uma estrutura inflável de cerca de 4 metros que forma uma abóbada que comporta 30 pessoas. Dentro, há um ventilador e um retroprojetor que permite a visualização de planetas e constelações. O visitante pode ver conjuntos de estrelas definidos pelos guaranis como Ema, por exemplo. Ela indica a estação vigente, inverno.

Para cada constelação, o povo criou um mito. O professor de Física detalha cada um nas palestras. Ele estará hoje em Campo Grande para falar sobre.

Oportunidade de conhecer na Capital

– O Sesc Cultura, em Campo Grande, vai trazer o professor Pedro Souza para falar sobre o tema Etnoastronomia e os conhecimentos indígenas sobre o céu. Ele fará palestra gratuita na unidade, que ocorre hoje, às 19h.

– De 25 a 28 de julho, estará instalado no mesmo local o Planetário Indígena desenvolvido pelo curso de Física da Uems. As visitas estarão abertas das 10h às 12h e das 14h às 20h. O Sesc Cultura fica na Avenida Afonso Pena, 2.270.
 

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