Ser atendido por um médico em uma residência e permitir que ele injete uma substância em seu corpo. Não parece perigoso? Muitas das vítimas de procedimentos estéticos deixaram de se fazer essa pergunta e acabaram arriscando ou perdendo a vida.
Aconteceu no dia 15 com a bancária Lilian Calixto, 46 anos, que morreu após realizar uma mioplastia nos glúteos com Denis Furtado, o “Dr. Bumbum” das redes sociais. Embora o caso, ocorrido no Rio de Janeiro (RJ), tenha chamado atenção, complicações após intervenções cirúrgicas e estéticas não são raras.
DEPOIMENTOS
O único filho de Neuza Rodrigues vendeu o carro para realizar um desejo da mãe. “Ficar bela, né? O que querem as mulheres, isso de autoestima”, ele diz. Pagou R$ 15 mil à vista a um médico para que a mãe passasse por cirurgia plástica aqui, em Campo Grande. No dia 5 de agosto, completam-se 14 anos da morte dela. Faleceu aos 38 anos, ainda no hospital, em decorrência de uma embolia pulmonar.
Horas antes, havia passado por uma lipoaspiração, blefaroplastia (que intervém na estética das pálpebras e região dos olhos), entre outros procedimentos.
“Acordou no pós-operatório, mas não conseguia levantar da maca. O médico entrou em desespero”, conta o filho, que presenciou o momento em que o coração da mãe parou de bater. Tentativas de reverter o quadro foram feitas. Faltou haver um desfibrilador cardíaco no hospital, que poderia ter salvado a paciente.
Uma amiga bastante próxima da mulher se submeteu à cirurgia com o mesmo profissional – depois de chorar o ocorrido com a amiga falecida. “Elas estavam combinando de fazer juntas. A da minha mãe foi antes e da amiga, depois. Ela soube, sim, que minha mãe faleceu, mas não quis desmarcar porque já estava pago. Quase morreu também. A sorte dela é que estava em um hospital com mais suporte. Só trocou de andar e foi salva”.
O filho se arrepende. Chegou a procurar órgãos competentes para denunciar o profissional responsável pelos procedimentos, mas resolveu não levar nada mais adiante, em certo ponto. “Porque me disseram que não daria em nada”, justifica.
Uma mulher de 46 anos, que preferiu não se identificar, teve prejuízo após uma cirurgia também feita na Capital. Quis reduzir o tamanho dos seios porque o peso deles, além de desconforto estético, causava dores constantes nas costas e cefaleia. Tudo correu bem durante a cirurgia, segundo a paciente. Os problemas apareceram após ela receber alta e entrar no período de recuperação. “A previsão era eu me sentir melhor em, no máximo, 15 dias. Aquilo se arrastou por três meses, sentia dores horríveis”, relata.
Chegou a procurar pelo médico que fez a cirurgia e ouviu dele uma explicação nada profissional para o problema. “Ele disse que não cicatrizou no tempo esperado porque eu poderia estar com problemas espirituais. Que, quem sabe, eu não havia perdoado alguém no passado e, por causa da mágoa, aquilo estava acontecendo comigo”, afirma. Sem ver escolha, voltou a se consultar com ele para reverter o problema.
Enquanto ainda precisava de acompanhamento, procurou o médico novamente. Só que ele estava afastado por motivo de doença e indicou um colega para atendê-la. “Me atendeu bem, na medida do possível. Continuei usando pomada, tomando remédio e fazendo o que eles pediram”. Seis meses depois, as dores cessaram e a mulher, que estava impossibilitada de trabalhar no período, pôde voltar à vida normal. No entanto, um ano após a cirurgia, ficou com cicatrizes que não a agradam. “Hoje eu já me pergunto: as dores que eu sentia por causa do peso ou essa cicatriz, o que é pior? Foram gastos R$ 10 mil, que juntei com muito custo”.
ALERTAS DE ESPECIALISTA
Os cirurgiões plásticos e os dermatologistas são os médicos especialistas indicados para realizar intervenções estéticas – no segundo caso, tanto cirúrgicas quanto clínicas, mas que se aplicam somente à pele.
O dermatologista e presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia regional em Mato Grosso do Sul, Alexandre Moretti, explica que o principal critério que habilita um médico a fazer uma cirurgia na área plástica e dermatológica é o Registro de Qualificação de Especialidade (RQE). “O ‘Dr. Bumbum’ tinha o registro de médico, mas não tinha o RQE. E é ele que diferencia um médico que fez uma residência durante três a cinco anos do que fez um ‘curso de fim de semana’”.
Moretti orienta quanto aos locais onde cirurgias devem ser realizadas. “Procedimentos minimamente invasivos não precisam ser feitos em centros cirúrgicos, mas todo procedimento que tem risco precisa ser feito em um deles, com todo o suporte”. E alerta: “Profissionais não médicos que fazem procedimentos considerados de risco, como fisioterapeutas e dentistas, que, segundo a lei, são proibidos de fazer, continuam fazendo. O grande problema é que a população busca o mais barato, e o barato pode sair caro”.
Sobre confiar em profissionais que abusam da propaganda nas redes sociais, ele pede: “Não escolham médicos pelo número de seguidores e curtidas nas redes sociais. Isso não reflete se ele é bom ou não. O CRM condena isso. É preciso investigar o histórico deles e se certificar de que são habilitados”.
O dermatologista tem recebido, em seu próprio consultório, muitas vítimas de procedimentos estéticos malsucedidos. “É muito comum. Cicatrizes irreversíveis, complicações como mancha, vermelhidão, queimaduras com laser, com jato de plasma, preenchedores. Pessoas que se dizem profissionais e desconhecem a técnica causam esses problemas”, finaliza.
COMO PREVENIR
Antes de fazer qualquer procedimento estético com um médico, o paciente precisa se certificar de que estará nas mãos de um profissional habilitado. Três passos seguros para verificar isso são:
1) Consultar o nome do profissional em lista disponibilizada no site do Conselho Federal de Medicina (CRM);
2) Buscar pelo seu nome no site da Sociedade Médica que representa o especialista no País; 3) Procurar se seu nome aparece na relação de médicos credenciados na Sociedade Médica que o representa em seu estado de atuação.Antes de fazer qualquer procedimento estético com um médico, o paciente precisa se certificar de que estará nas mãos de um profissional habilitado.
Três passos seguros para verificar isso são:
1) Consultar o nome do profissional em lista disponibilizada no site do Conselho Federal de Medicina (CRM);
2) Buscar pelo seu nome no site da Sociedade Médica que representa o especialista no País; 3) Procurar se seu nome aparece na relação de médicos credenciados na Sociedade Médica que o representa em seu estado de atuação.