“Sou uma louca, amiga! Uma louca!”, diz-me, morrendo de rir, enquanto toma um cappuccino e come pão de queijo num fim de tarde qualquer... Respondo-lhe que pode até ter razão, mas que sua loucura é das boas, daquelas silenciosamente invejadas por homens de lata que vestem armaduras para se proteger de sentimentos.
Esta mulher é desarmada. Sua loucura não passa da somatória de uma desconcertante autenticidade, profunda perspicácia, personalidade marcante e coragem diante da vida. Muita coragem. Fico embasbacada com seu elevado índice de autoconexão com sua essência avassaladora e intensamente feminina, revelada eticamente, sem vulnerabilidade, sem volubilidade.
Acostumadas que fomos ao longo do tempo a ouvir e até vivenciar realidades sob o tacão de uma sociedade machista (detesto essa expressão. Já cansou, mas não encontro outra), evidentemente que o comportamento desta amiga de nome bíblico deve espantar alguns, divertir outros, causar incompreensões em muitos. Ela não está nem aí. E esclarece:“Esta sou eu”. Pede mais café. Mais pão de queijo. Tem fome. Isto confirma minha desconfiança de que certas pessoas que têm fome, na verdade, são as famintas de vida. E vida em abundância. Não são mesquinhas nem avarentas de sentimentos.
Plena e ousada, esta de quem vos falo chega a ser transgressora dos “bons costumes”. Tenho cá pra mim que Hilda Hilst, uma de suas poetas prediletas, passou a habitar seus espaços internos, pois, quando em vez, sinto seu olhar poetando:“Se te pareço noturna e imperfeita/Olha-me de novo. (...)/Com menos altivez. E mais atento”.“Sou louca, amiga”, me repete. “Tá bom”, concordo. “E qual é a loucura desta vez?”, pergunto apenas para agradá-la, pois não sou curiosa, mas sei que ela quer me contar. “É segredo?”. “Não”, responde, gargalhando. Fico aliviada.
Carregar segredos é uma tarefa honrada, porém, sofrida. E entre mais um pão de queijo, mais uma xícara da quente bebida, escuto uma história surreal. Compartilho: “Tempos atrás, tinha que ir para o aeroporto pegar um voo de madrugada para São Paulo. Estava muito atrasada; chamei um táxi e pedi ao chofer, um japonês, que dirigisse o mais rápido possível. Em meio a uma cerração, o motorista parecia ir a 50 km por hora. Me bateu uma angústia danada! Antevi o avião decolando e eu perdendo aquele voo. Implorei que acelerasse, mas parecia não entender minha língua. Um baita desespero tomou conta de mim.
Pedi pra ele parar. O senhorzinho (acho esta palavra tão simpática!), sem entender direito meu pedido, foi parando o carro. Desci, dei a volta e fui para a porta do lado dele, ordenando: ‘Chega pra lá!’. O pequeno homem não compreendia o que estava se passando. Relutou por minutos até eu gritar no meio da madrugada: ‘Me entregue o volante! Estou armada!’. Assustado, passou para o banco do carona, entrei, peguei o volante e fui dirigindo o táxi a mais de 100 km/h até chegar ao meu destino.
O homem ao meu lado estava absolutamente calado. Eu não via a cara dele. Mas imaginei que estivesse lívida. Para acalmá-lo, fui falando de coisas bobas, de pedaços de minha infância, do meu pai, da minha pequena cidade... Não me dei ao trabalho de saber se estava me ouvindo. Até porque penso que desembestei a monologar apenas para disfarçar minha ansiedade. Ao chegar, vi no taxímetro o valor da conta, paguei merecidamente um pouco mais, tomei as mãos geladas daquele homem, beijando-as num gesto de agradecimento. Acho que balbuciou umas palavras. Virei as costas, peguei minha pequena mala e, instantes depois, estava dentro do avião a caminho de São Paulo...”.
Desandei a rir da sua história, concordando que, de fato, ela era louca mesmo. Fiquei imaginando a cena. Seus colares e pulseiras tilintando ao alvorecer do dia, enquanto um homem, perplexo e trêmulo de medo, se encolhia em longo e sepulcral silêncio. E ouso arriscar que, se o pobre homem tivesse lhe feito alguma pergunta, ouviria, como resposta, mais uns poucos e bons versos de Hilda Hilst: “Se quiserem saber se pedi muito/Ou se nada pedi, nesta minha vida/Saiba, senhor, que sempre me perdi/Na criança que fui, tão confundida/Eu era uma criança delirante” (...) Ou ainda: “Busquei a luz e o amor. Humana, atenta/Como quem busca a boca nos confins da sede”.
Terminado o nosso café, levantou-se, dirigiu-se ao portão e, antes de alcançar a rua, virou-se para trás, olhou-me muito séria e me advertiu,citando Hilda: “Lobos? São muitos. Mas tu podes ainda/A palavra na língua/Aquietá-los”.
* Professora, cronista e poeta