Correio B

APÓS CINCO ANOS

Conheça o projeto que usa a dança para unir mulheres de várias idades

Por falta de pagamento, projeto ficou suspenso por cinco anos

Cinco anos depois de as cortinas terem se fechado, as luzes do palco se acendem novamente para o projeto Dançar, mas desta vez serão bailarinos das mais variadas idades em cena. O tempo em que esteve suspenso por falta de pagamento de projetos submetidos e aprovados pelo Fundo Municipal de Investimento Cultural (Fmic) fez com que os alunos antes atendidos encontrassem novos espaços. Com vagas abertas, o coreógrafo e criador do projeto, Chico Neller, deu início a uma nova era. Dançar agora é para todos, dos 5 aos 90 anos.

“Eu já estava cansado. Já fazia 15 anos e todo ano pedindo, implorando por algo para retornar para essas crianças o que é de direito delas”, declara Chico Neller, que é bailarino e, mais do que isso, militante a favor da transformação pela arte. Para 2017, inscreveu “Rememorar – Projeto Dançar” e foi contemplado pelo fundo.

Na dificuldade para conseguir gente, uma vez que o projeto previa incluir 200 crianças, o “Dançar” passou a aceitar adultos e até avós. “Dos 5 aos 90 anos. E eu descobri que é maravilhoso, a gente acha que só adolescente e criança precisam de incentivo e atenção, mas não”, conta. Hoje, Chico recebe pais das crianças que ensinou no passado e jovens que foram aprendizes da dança e agora encaram a faculdade. 

Dos 200 inscritos, efetivamente 170 são ativos que frequentam as aulas sem falta e, desse número, nem 5% já tinham tido algum contato com a arte. “Você colocar em cena é bastante complicado, mas a energia, os depoimentos que chegaram até mim nesses meses, de pessoas que descobriram o próprio corpo, que estavam vivas, emociona”, compartilha. 

Em março, começaram as inscrições e, em abril, os ensaios. Eram três professores ensinando jazz, balé clássico e contemporâneo, em turmas nas quais não foi possível a separação por idades e níveis, mas isso não foi empecilho para que a dança acontecesse. Dona Lúcia Santos de Albuquerque é uma dessas pessoas.

Aos 59 anos e moradora recente do Bairro Taquarussu, a cuidadora de idosos um dia passou pela frente da sede do projeto e perguntou o que era ali. Primeiro, inscreveu a neta, Beatriz, de 5 anos, para depois saber que também poderia fazer parte das aulas.

“Você sabe que na minha idade, se a gente fica parada, começa a dar depressão. Desde que eu comecei a dançar, voltei a ser o que eu era antes de chegar perto dos 60. Eu sentia dores e, olha, agora até meu serviço de casa está rendendo e eu emagreci, além de fazer novas amizades”, relata. A netinha faz balé e adora.

Quando o ensaio de uma é seguido da outra, Beatriz espera a avó sair da aula feliz da vida. E é essa sinceridade de dona Lúcia que traz fôlego para que o projeto continue. 

Os resultados tanto de Beatriz quanto da avó Lúcia serão apresentados no teatro. O que era para ser desfecho terá continuidade. Chico procura parceiros para que a dança do projeto não pare. 

O coreógrafo já antecipa que vê-las no palco será uma grande emoção. “Minha e delas, porque, independentemente da técnica e do ensaio, você tem uma energia ali que é inacreditável. Nossa missão não é formar bailarino, é formar artista, alguém que tenha um olhar mais sensível para o mundo”. 

PARA A COMUNIDADE

O projeto foi criado por Chico Neller, como iniciativa da Ginga Cia. de Dança, em 1997, no Bairro Taquarussu, em Campo Grande. Primeiro, com o objetivo de atender alunos de escolas municipais, o programa foi ampliado para a rede estadual e particular e, posteriormente, para toda a comunidade. Havia até fila de espera para dançar.

Amanhã, às 20h, o espetáculo “Nós Daqui – Mulungu” marca a volta do projeto aos palcos, no Teatro Glauce Rocha. De forma lúdica, será apresentado o imaginário das manifestações culturais do cerrado brasileiro, por meio de um repertório musical composto de tambores, poesias e canções de domínio público. Falar de nós, de um bioma do qual fazemos uso e nem sequer conhecemos. Onde a tradição aparece fortalecida com conceitos artísticos da contemporaneidade, com ritmos que reincidem em outra dimensão, outra velocidade, outro tempo.

A entrada é gratuita e os convites são distribuídos no projeto Dançar, na Rua Brigadeiro Tobias, 956.

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