Elas não precisavam votar, mas fazem questão de honrar o direito que as mulheres conquistaram 86 anos atrás. Eleitoras acima dos 70 anos, a ida delas às urnas neste domingo (7) seria facultativa pela legislação eleitoral, no entanto, há um grupo grande de senhorinhas que pretende tirar o título da carteira.
Dona Dativa Batista do Santos, de 83 anos, que o diga. Nascida em Ribas do Rio Pardo, nas décadas em que não era só “do lar” como se define hoje, foi merendeira e cuidadora de crianças em creches.
“Precisar, não precisa não, mas eu vou votar. Eu acho que a mulher está precisando brigar pelo direito dela. A mulher tem que ter voz para exigir”, enfatiza.
Como eleitora, dona Dativa já perdeu as contas de quantos anos tem, mas consegue usar o que as décadas de experiência lhe mostram para comparar esta com as outras eleições. “Só vejo briga e discussão”.
Sobre a escolha do voto, ela diz que vai pela intuição e com quem simpatiza ou não. “Tem aqueles que já fez e estão fazendo e os que nunca fizeram foi nada”, alerta.
Em casa, ela leva a sério candidato que aparecem pedindo voto. Dia desses mesmo, bateu à porta de casa um oferecendo material de campanha para que ela distribuísse pelo bairro onde mora, Coophatrabalho. “Só aparece de quatro em quatro anos e ainda pergunta: ‘lembra de mim?’ Eu lembro, mas eles que não lembram da gente”, conta. A fala deixa claro que o discurso da velha política não cola mais.
Aos 75 anos, a confeiteira, cozinheira e costureira, Mercedes Flores Vieira, marcou no relógio: neste domingo sai às 7h30 para votar, quer ser uma das primeiras a exercer o direito que também já é facultativo pela idade.
Em casa, ela, que já é bisavó, foi a primeira a se prontificar e fazer a biometria. “Ah, minha filha, tem que ajudar. Eu estou bem lúcida, sadia, bem disposta, dançando”, ri. Ao lado do bom humor, caminha também o senso crítico.
“Esta eleição é decisiva para as mulheres, porque somos maioria e estamos lutando, tem muita coisa para melhorar para a gente: salário igual ao dos homens, aposentadoria”, descreve.
O país que ela sonha para a bisneta é de Brasil melhor em relação a educação, saúde e respeito. “Quero a harmonia entre o País, se fala tanto de democracia, mas só aparece eles mandando em tudo e não nos deixando fazer nada”, desabafa.
Em tratamento contra um câncer, a professora aposentada Dayako Matsunaka, de 82 anos, tem na bagagem trabalho ao lado do educador Paulo Freire e também de sem-terras em assentamentos.
Mesmo doente, a senhorinha já havia deixado avisado aos médicos que neste domingo, não teria repouso que a prendesse em casa. “O País, no estado em que está... É o exercício da cidadania e eu me sinto na obrigação de votar”, explica.
No pleito em que o Brasil elegeu a presidência, dona Ayako também esteve nas urnas e agora quer retomar o poder do voto. “Nós, mulheres, já estamos por cima. Já somos o poder, já fizemos o poder e nos roubaram e a gente retoma agora com toda essa força”.
Voto facultativo:
Em MS, 135 mil eleitores estão dentro da faixa de 70 anos para quem o voto já é considerado facultativo. Conforme prevê a Constituição Federal, o voto é obrigatório para os cidadãos alfabetizados maiores de 18 anos e menores de 70 anos. Apesar ser facultativo, para votar, os idosos que moram em cidades onde os eleitores serão identificados por meio das impressões digitais, precisavam fazer o recadastramento biométrico.