Dentro da própria casa, do jeito que dava, dona Jaque começou o projeto que atenderia, ao longo de 20 anos, mais de 5 mil crianças no Bairro Dom Antônio Barbosa, em Campo Grande. Em uma das regiões mais pobres, na qual famílias sobreviviam da coleta de lixo e que tem como atividade principal o tráfico de drogas, o projeto Asas do Futuro nasceu quando a família de Jaqueline Teixeira da Silva se mudou para a região do lixão, e o filho mais velho, Diego, à época com 10 anos, não tinha com quem jogar bola na rua. “Não tinha nenhum tipo de lazer para as crianças, aí comecei a pedir para as mães deixarem os filhos irem para o campinho”, conta Jaqueline, de 50 anos.
As primeiras formalidades foram escrever nome e endereço dos participantes e, em seguida, confeccionar as camisetas. “Eu me lembro até hoje do primeiro campeonato de futebol, valendo seis tubaínas”, ri, dona Jaque. As mães começaram a pedir também por reforço escolar, como uma forma de ocupar as crianças enquanto os pais trabalhavam na coleta de recicláveis no lixão. “Então fizemos primeiro essa parceria com as famílias. Eu procurava saber se as crianças estavam estudando”.
O bairro, que anos depois abrigaria a maior escola municipal de Campo Grande, Padre Thomaz Girardelli, não tinha sequer colégio próximo nem posto de saúde. Com o passar dos anos, mais e mais crianças apareciam. O projeto caminhava graças às doações e também às ações de voluntários.
Somente em 2012, a primeira parceria foi firmada e, futuramente, abriu as portas até para o “Criança Esperança”. No ano seguinte, dona Jaque deixou sua casa para todo o projeto, já que eram mais de 200 crianças, e mudou-se para o Jardim Colorado, numa edícula em terreno cedido pelo pai. “A maioria dessas crianças tinha os pais no lixão, viam muita violência, alcoolismo, drogas, muita coisa na região que não era legal, e a gente sempre procurou mostrar o outro lado”, explica Jaqueline.
O nome “Asas do Futuro” resumia bem o que ela queria passar. “A gente só dá asas a partir do momento que oferece para as crianças oportunidade de conhecimento”. Hoje, são pouco mais de 180 crianças e adolescentes que têm à disposição, no contraturno das aulas, oficinas de balé, capoeira, hip hop, arte/cidadania, futebol, recreação, tae-kwon-do, artesanato e tambor de lata.
OLHAR DO FUTURO
Braço do projeto Asas do Futuro, o programa Olhar do Futuro nasceu em 2017, para pôr fim à venda descarada de drogas na frente da sede do Asas. “As famílias estavam acuadas, não vinham para cá que é lugar da comunidade. Então fizemos uma parceria com a Caixa Econômica Federal e construímos um playground”, relata dona Jaque. O Olhar do Futuro trabalha as mesmas questões, mas com o objetivo de resgatar a comunidade. Assistente social, Glauber Frederico de Miranda é quem coordena esta parte. “A questão da criminalidade é muito forte, o tráfico de drogas está do outro lado da rua. Criamos o projeto para que a gente consiga mudar o olhar daquelas crianças e da comunidade”, explica. Por meio de parceiras e emendas, os participantes já chegaram até a viajar e ver que há muita coisa além do Dom Antônio Barbosa. “Vai polícia e fica tentando combater o tráfico, mas a gente percebeu que tem que mudar o olhar deles, que acham que ali não tem mais saída”, enxerga Glauber.
Entre os 30 finalistas
O projeto hoje se mantém por meio de convênios firmados com a prefeitura e o governo do Estado e, até agosto, também contava com verba da Caixa Econômica Federal.
O projeto Olhar do Futuro está entre os 30 finalistas do Prêmio Itaú-Unicef, em sua 13ª edição. O projeto é realizado pela Associação de Amigos do Bairro Dom Antônio Barbosa e foi selecionado na categoria OSC em Ação.
Nesta fase, a OSC recebe R$ 40 mil, que se soma aos R$ 20 mil já conquistados na etapa semifinal. Segundo dona Jaque, este dinheiro dos prêmios até aqui será usado para a construção de uma sede para o projeto, cujo terreno está em processo de doação.