Entre o masculino e feminino, José Matheus dos Santos usa calça flare, brinco de argola e se maquia quando tem vontade. Pelos corredores do Ministério Público Federal, o 1,80m de altura não deixa ele passar despercebido, principalmente por fazer questão de cumprimentar todo mundo. Acadêmico do 8º semestre de Direito, ele se denomina “não-binário”. “É o termo usado por pessoas que não se identificam nem 100% com o gênero masculino nem 100% com o gênero feminino”, explica.
Na prática, viver de forma não-binária é ter a liberdade de usar a roupa que bem entender e se expressar como quiser. Aos 21 anos, desde 2017 José Matheus passou a se enxergar assim. “Depende do dia, vou sem maquiagem para a faculdade, tem dia que quero usar bermudona, moletom, no outro, calça flare” exemplifica. Produzido, pelo empoderamento, fala e feição, é praticamente automático querer chamá-lo por pronomes femininos. “É indiferente. Pode me chamar de ele ou ela. Eu sou José Matheus porque eu gosto do meu nome masculino”, enfatiza. O que não faltam são pedidos para que ele ter um nome feminino. Se um dia isso lhe ocorrer, a escolha já está feita. “Alanis, é o nome da minha filha”, diz ele sobre a menina de quem um dia quer ser pai.
Desde muito novo José Matheus sabia que era homossexual. Por ter sido de igreja evangélica, reprimiu a sexualidade e a própria identidade. “Porque é difícil de se expressar e, mesmo assim, eu não conseguia esconder, porque sou muito afeminado”, conta. Sobre a não-binariedade, ele entendia o que era por conta de um amigo que também se identificar assim, mas ainda não conseguia se ver como não-binário. Foi só depois de sair de debaixo da doutrina que José passou a se expressar mais pelas vestimentas. O cabelo já vinha crescendo desde 2016 e foi o primeiro passo assumido. “E você assumir seu black é um ato político e revolucionário”.
Cada frase ressalta a luta que José Matheus carrega nos ombros. A de ser “bixa preta”, e a grafia é mesmo com “x”. “Acho que toda bixa preta fica deslocada. No movimento negro, por ser gay e no movimento gay, por ser negro”. O termo não soa preconceituoso pela boca de quem convive com ele há anos. “As pessoas entendem bicha como pejorativo. Mas eu sou, não sou? Então qual é o problema? Bixa preta é uma forma da gente se colocar, é você ressignificar um conceito por muito tempo visto como forma de agressão e hoje é empoderamento”.
Em casa, José sempre teve o apoio da mãe. Empregada doméstica que criou sozinha quatro filhos e esteve do lado dele em todo episódio racista e homofóbico da infância e adolescência. Criado no bairro Guanandi II, viu muitos dos meninos com quem jogava bola quando criança serem presos. “Quando chegou a fase da faculdade, escolhi o Direito por ser instrumento de mudança social. Eu sempre tive essa força de querer mudar a minha realidade e eu acho que ele é um curso que mais próximo está de você fazer uma mudança social”.
Entre episódios homofóbicos e o empoderamento, José prefere falar do segundo. Tanto que escolheu fazer Direito para mostrar às outras bixas pretas que elas não precisam ser marginalizadas e que há espaços a serem ocupados além da prostituição e de ser cabeleireira. “A gente não precisa ocupar funções que as pessoas pré-estabelecem para nós. Quando eu pensei em fazer Direito, foi uma forma de motivar outras bixas pretas, eu posso ser advogada, procuradora, juíza. Não precisamos viver da forma como a sociedade nos condicionou”, levanta.
O curso e a carreira no Direito são um tanto quanto elitistas. Foi isso que nos chamou atenção ao ver José Matheus pelos corredores do MPF. Na academia mesmo, ele conta que, dos homossexuais que encontra, a maioria não é assumida. Negros, então, são mais difíceis ainda de encontrar como colegas. “Só que eu sempre tive determinação, sempre coloquei para mim o que eu queria fazer e ninguém vai me impedir”, pontua.
Na faculdade, até hoje, ninguém disse nada descaradamente sobre a escolha de roupas que se dizem femininas. Até porque quem convive sabe que o estudante não deixa quieto nenhum caso de homofobia nem racismo. “Eu sou escandalosa, coloco a boca no trombone. Qualquer episódio que chega ao meu conhecimento, me posiciono e cobro medidas efetivas”.
José estagiou no Tribunal de Justiça e no MPF, estagia no Núcleo de Combate à Corrupção e na Procuradoria Regional Eleitoral, depois de ter sido aprovado em concurso e na entrevista. “Vim de bolsa e maquiada, foi uma entrevista com três procuradores”, conta. Ele passou por cotas raciais, mas pela pontuação teria conseguido entrar de qualquer forma.
“A gente tem que ocupar nossos espaços. Infelizmente, sabemos que bicha não tem tanto espaço, existe um preconceito forte. Quando eu cheguei na instituição, eu disse que não me sinto representado pelo poder legislativo nem judiciário como bixa preta. E ocupar é uma forma de dar voz para outras. Hoje sou eu aqui falando, mas anseio muito para que ano que vem sejam outras bichas estagiárias no meu lugar. Porque nós precisamos ocupar os setores de poder”.