As trajetórias são parecidas. Tanto Rogger Castro, 26 anos, quanto Diewry Patrick, 29, eram adolescentes quando agarraram, com unhas e dentes, a oportunidade de aprender a dançar. O primeiro, em Campo Grande, no Bairro Zé Pereira, no então projeto público Arte Sim, Violência Não; o outro, na cidade de Coxim, durante um festival. Em ambos os casos, foi a street dance (ou dança urbana) que os atraiu e abriu as portas para trilharem um caminho que os levou, tempos depois, ao eixo Rio-São Paulo.
Os dois, agora profissionais da dança, estarão em Campo Grande a partir de hoje, participando do MS Street Dance Fest, que chega à 10ª edição, levando espetáculos, workshops e competição de danças urbanas a diferentes espaços da Capital, com dançarinos locais, de outros estados e do Paraguai (leia no box ao lado). As apresentações têm entrada gratuita para o público; já as aulas têm custo.
Quando se vê participando do espetáculo musical “O Frenético Dancing Days”, em cartaz no Rio (texto de Nelson Motta e direção teatral de Deborah Colker), o campo-grandense Rogger Castro percebe o quanto teve de batalhar para realizar o sonho de estar naquele palco. “Eu era um menino de 10 anos, no Bairro Zé Pereira, em Campo Grande, que só pensava em ser um bom jogador de futebol. Até que conheci um projeto social de dança urbana iniciado ali. Em seguida, conheci os grupos Funk-se e Dançurbana e me apaixonei por tudo aquilo. Foi quando decidi trocar a chuteira pela sapatilha”, conta.
Os anos seguintes foram de muita dedicação, aprendizado e, principalmente, de combate ao preconceito que este tipo de dança da periferia provocava. “Quando participei do primeiro MS Street Dance, abriram-se as cortinas para tudo. Conheci o mundo da dança, vi que era aquilo que desejava fazer para sempre. Mas também sentia muito o preconceito, as pessoas criticando pelo hip hop não ser uma dança mais clássica, porque a gente andava de boné, com roupa mais larga, éramos tachados de ‘maloqueiros’”.
Hoje, Rogger diz que sua vitória é o resultado de sua persistência, diante até da família. “Investi nisso, era uma palavra que vinha de dentro; por que não continuar, insistir na dança? Quando viajei pela primeira vez para fora daqui, me deslumbrei, vi que o mundo não era só o Zé Pereira”.
Atualmente morando no Rio de Janeiro, Rogger Castro dá aulas em academia e participa de clipes de vários famosos, como Pablo Vittar, Jojo Todynho, e programas como “Mr Brown”, entre outros. “Vejo a transformação em vitórias de uma pessoa que nunca desistiu; as pessoas acham que a dança não dá nada, mas me sinto vitorioso, aqui é um lugar pequeno, mas corri atrás de meus sonhos”.
Nascido em Sonora, foi em Coxim que o dançarino e professor Diewry Patrick conheceu a dança urbana, ainda garoto. “Conheci a street dance num festival em Coxim. Em Sonora, fazia parte do Movimento Dance, que procurei para fazer amizades, ser menos introvertido e aquilo me interessou”.
Participar da dança trouxe o jovem para Campo Grande, onde participou de grupos como o Street Pop e o Funk-se para, em 2013, alçar voo para o Rio de Janeiro. “Meu interesse era expandir meus conhecimentos sobre este tipo de dança e, na época, recebi convite para trabalhar com uma cover de Anitta”. Depois disso, vieram participações em shows de Nego do Borel, da Valeska Popozuda, na turnê “Divas”, no clipe “Decote”, com Pablo Vittar e Preta Gil, entre outros.
COMEMORAÇÃO
Criador e organizador do MS Street Dance Fest, o professor e coreógrafo Edson Clair contou com alguns apoios para viabilizar a edição que comemora os 10 anos de trajetória do projeto. “Quando começamos, lá trás, existia um certo desconhecimento do que a gente fazia. Até entendo o preconceito, mas com o tempo, foi se formando o universo do hip hop, que foi para a mídia, para a TV, para as novelas e grandes eventos. E as pessoas passaram a se identificar com a dança urbana. O pessoal grita, aplaude, se envolve, porque nossa dança tem energia, é rápida, forte. Conseguimos fazer as pessoas conhecerem e se interessarem”, diz ele.
Praticada no mundo todo, a dança urbana é uma das mais representativas em eventos, competições e espetáculos. Surgiu e evoluiu em um contexto geral e conquistou palcos no Brasil e no mundo, tornando-se uma das danças mais praticadas hoje. “Atualmente, ela está se apropriando da linguagem da dança contemporânea, tornou-se uma coisa meio padrão para poder participar de editais, por exemplo”.
PROGRAMAÇÃO
Hoje, às 20h, no Teatro Prosa, do Sesc Horto – Espetáculo “O Magnífico”. Solo de André Rockmaster; direção e dramaturgia de Victor Ribeiro (cineasta e dramaturgo).
15/11, no Armazém Cultural
8h às 9h – Coach para dançarinos. Facilitador: André Rockmaster;
13h30min às 18h – Aulas práticas de danças urbanas. Ministrantes: Rogger Castro (MS/RJ), Diewry (MS/RJ), Tinho Sherman (MS/SP) e Chino Rojas (Paraguai);
18h30min – Espetáculo “Deslimites, o Quintal de Manoel”, com o Grupo Funk-se (foto abaixo). Sinopse: “Deslimites”, do Grupo Funk-se, adentra o universo poético de Manoel de Barros e observa como seu trabalho incessante com os vocábulos e sua tentativa de alcançar a palavra nua, mais primitiva, contribuem para a construção de uma movimentação que rompe os padrões, que recusa regras e que ousa se desconstruir, se reinventando.
16/11
8h às 9h – Armazém Cultural. Coach para dançarinos. Facilitador: André Rockmaster;
10h às 12h – No Sesc Cultura, Roda de Conversa: Elaboração de projetos culturais, com a facilitadora Iara Vieira.
13h30min às 18h – Armazém Cultural. Aulas práticas de danças urbanas. Ministrantes: Rogger Castro (MS/RJ), Diewry (MS/RJ), Tinho Sherman (MS/SP) e Chino Rojas (Paraguai);
20h – Na Concha Acústica da Praça do Rádio Clube. Mostra Variada de Danças: desde árabe, balé classico, contemporâneo, entre outros.
17/11
10 às 12h – No Sesc Cultura. Roda de conversa: Elaboração de projetos culturais. Facilitadora: Iara Vieira;
11h – Calçadão da Barão. Intervenção Urbana: Dança por Correio – Dançarinos vestidos de carteiro entregam cartas para pessoas no local e, a partir do que diz o texto, eles fazem uma intervenção.
14h – Armazém Cultural. Batalha de danças urbanas;
20h – Concha Acústica Praça do Rádio Clube. Competição de danças urbanas.
As informações podem ser obtidas nas redes sociais do evento: facebook.com/msstreetdancefest e Instagram: @mssdf_10.