Luís tem 19 anos e um sorriso capaz de iluminar todo e qualquer caminho. O rosto estampa a felicidade de quem reconhece que os laços da fraternidade não precisam ser sanguíneos. Irmãos por parte de mãe, ele tem sete; pelo mundo, sem vínculo de sangue, são milhões. Órfão de pai em Moçambique, país onde nasceu, foi em Campo Grande que ele encontrou dois pais.
Mais de 9 mil quilômetros o separam da família brasileira. Por aqui pela segunda vez, o jovem é o espelho do que significa fraternidade e também de todo o movimento por trás dela. "Ser fraterno é, como o nome já diz, irmão, amor ao próximo. Entre irmãos, não existe fronteira", explica Luís Amosse Mucavel.
Pelas redes sociais, não é uma surpresa vê-lo em fotografias com vários destes irmãos. O costume da aldeia de onde veio, Barragem - Macarretane, é este. "Chamar pelo nome que é difícil. Eu estou acostumado a chamar 'Oi, irmão, Oi, irmã'. Somos unidos por um só sentimento".
Luís parece flertar com a poesia em um português com sotaque bem diferente do nosso. Ao contar sua história, ele volta no tempo em que era menino, tinha 11 anos e conheceu os pais brasileiros no outro continente. "Eles estiveram lá participando neste trabalho humanitário da Fraternidade sem Fronteiras, nos ajudando em Moçambique. Eu angariei eles com toda simpatia e sempre tive uma ligação muito forte. Eles prometeram: 'a gente vai te levar para conhecer nossa casa, nossa família, nossa cultura e o Brasil'", recorda sobre uma das idas dos dois à África.
A surpresa da noite de Natal foi a troca de presentes. (Foto: Arquivo Pessoal)Em abril de 2017, Luís esteve aqui durante o encontro da Fraternidade sem Fronteiras e, quando voltou para casa, recebeu o convite que o trouxe aqui em dezembro, dos pais Adriano Oliveira e Estevom Molica. "E eu chamo eles de pais. São meus pais, independetemente da distância que tem entre a gente, a Fraternidade nos une. Vejo eles como espelho e não existe nenhuma diferença entre meu pai e eles", conta. O amor é o mesmo também para com o irmão, Antônio.
A ansiedade de chegar ao Brasil era do tamanho das vontades que ele tem e que se realizam aqui. "Na primeira vez eu tinha três desejos: piscina, pizza e um cinema. Era uma simplicidade mesmo. Quando cheguei desta vez, me deparei muito mais com pizza e estou comendo coisas novas que lá eu não como", compara.
Na região onde ele vive, a alimentação base é a chima, uma mistura de milho e farinha. "Da primeira vez foi difícil de me acostumar sem chima, mas agora já estou acostumado com sanduíche, hambúrguer...", brinca.
Luís veio passar as festas de fim de ano e as férias da faculdade. Da bagagem trouxe a dúvida e agora leva a experiência de ter passado um Natal fora de casa, com costumes bem diferentes. "Para mim foi uma alegria imensa. Lá em Moçambique, em termos de Natal, a família se reúne para festejar o dia 25. Aqui a gente festeja o 24. E lá sem roupa nova você não sai, porque todo mundo está de roupa nova neste dia", diz. A surpresa da noite foi a troca de presentes, que em Moçambique não acontece. "O seu presente lá é comer frango, arroz... Aqui eu ganhei camiseta, chocolate também".
O rapaz foi o primeiro jovem a ser acolhido pela Fraternidade sem Fronteiras, uma organização de ajuda humanitária que nasceu em 2009, aqui na Capital, para realizar sonhos que os pequenos nem sabiam que tinham lá na África. "Antes da Fraternidade sem Fronteiras, a gente ia para a machamba, que aqui vocês chamam de roça, para poder ganhar dinheiro. Quando a Fraternidade chegou, cortou aquelas raízes e eu pude estudar. Na minha vida nunca sonhei em cursar Ensino Médio e faculdade, porque lá a gente só termina a 4ª série", narra.
Luís e os irmãos da Fraternidade sem Fronteiras. (Foto: Arquivo Pessoal)Luís saiu da aldeia para a cidade de Lionde para fazer Administração Pública. "Quando prestei vestibular, foi uma sensação incrível. Nunca sonhei em entrar numa faculdade, mas eu agradeço esta corrente de amor, estes padrinhos que vão se unindo", reconhece.
Como nunca sonhou chegar aonde está, ele agora quer retribuir tudo. "Gostaria muito de ajudar os outros irmãos, ao concluir minha faculdade, gostaria de ter emprego, de estar perto da família e, ajudando ao próximo assim como eu fui ajudado. Que eu possa fazer o bem, sem olhar a quem".
Luís volta para a África em poucos dias, com as redes sociais e o coração repleto de registros dos mometos em família. "Sempre digo que nenhuma é perfeita, mas esta família Molica e a Fraternidade sem Fronteiras é o mais próximo e o ideal para mim".