A imagem ao lado não faz jus à alegria de Isaías junto do irmão Lucas Gabriel no primeiro desfile de Carnaval dos dois. Na noite de domingo (3), Isaías brilhou na avenida ao sambar no bloco Nada sobre Nós sem Nós. Autista, com deficiência auditiva e distonia, o garoto brincou como se a festa fosse para ele. Tanto é que acordou na manhã do dia seguinte dizendo para a família, em libras, que queria ir para a rua de novo.
“Ele fez sinal de rua, de brincar de novo. Aí eu falei que não, que agora só o ano que vem”, conta o pai do menino, o funcionário público Felisberto Alvellos.
Isaías tem 12 anos, está começando a ser alfabetizado agora. Nunca tinha ido a um Carnaval e sequer ensaiado passos de samba. Assim como o bloco, ele estreou na folia depois de observar o ambiente e todas as pessoas. “Eu fiquei até impressionado. Ele sempre gostou de festa, aí observou como era sambar e sambou do jeito dele”, completa o pai.
A distonia trouxe ao menino um problema de coordenação motora, então, por vezes, ele cai. As terapias feitas semanalmente ajudam e fortalecem os músculos. Sem audição, foi pelo que ouvia de longe e pela vibração da batida que Isaías entrou no ritmo. “Ele não consegue distinguir letra, mas ele sente todo mundo brincando”, explica Felisberto.
A maior alegria da família foi ver a faceirice do filho. “Filmei ele dançando com toda a dificuldade dele. Fiquei muito feliz; pensa a felicidade desse moleque?”, pergunta-me o pai.
Iasmin puxou o bloco. A mais doce foliona que passou pela Avenida Calógeras no desfile do bloco foi Iasmin Ilis. Aos 18 anos, a menina – que distribui abraços e sorrisos – foi logo na frente, arrastando todo mundo. Por ter uma síndrome considerada rara, de Prader-Willi, ela não gostava muito de barulho, até passar a frequentar as atividades da Escola Juliano Varela.
Diferentemente de uma sala de aula ou um pátio, ir para a avenida representava receio à família, que só conseguia aplaudir a desenvoltura da foliona.
A síndrome traz consigo flacidez nos músculos, associada também a uma deficiência mental e à dificuldade de andar. Mas não de sambar. “Ela não pula assim, mas estava dançando numa alegria. Aliás, essa é uma característica dela que contagia”, diz a mãe, Mônica Ilis.
Marelija e a bandeira em alto relevo do bloco. Marelija Zanforlin tem deficiência visual há dois anos.
Aos 34, foi a primeira vez que ela foi para a avenida. Psicóloga, era ela quem levava o estandarte e, para conhecer a bandeira do bloco, foi tateando como quem enxerga com as mãos.
“Eu fiquei muito interessada em participar. Achei que era uma oportunidade única, porque sempre tive essa vontade de desfilar e também para mostrar para o mundo a nossa mobilidade, o que a gente é capaz de fazer”, compartilha. Agora, o Carnaval passa a ter outro significado: o de luta por uma causa. “A gente ainda precisa fazer com que o mundo abra os olhos para a igualdade, para a inclusão”, resume.
E teve folião com mamadeira e tudo. Miguel tem só 2 aninhos; é pequeno, mas protagonista de uma grande história. Ainda no útero da mãe, passou por cirurgia por conta de uma malformação chamada espinha bífida. O pequeno desfilou na cadeira de rodas, no que a mãe chama de “sonho”.
“O Carnaval se tornou um sonho. Tivemos pouco tempo, mas fizemos de tudo para mobilizar crianças e mães. Eu acredito muito na mudança pela conscientização da população e foi emocionante. Do primeiro ao último passo eu fui chorando, vendo a alegria daquelas crianças, das pessoas cegas, andando de cadeira de rodas, gente surda dançando, foi muito bonito”, conta a mãe, Lilidaiane Ricaldi.
O Bloco - Lema da ONU, pela primeira vez, a folia de rua de Campo Grande teve um bloco formado por pessoas com deficiência para chamar a atenção do poder público e da sociedade para que as medidas de inclusão envolvam 100% as pessoas com deficiência nas tomadas de decisões que as impactam. “Nada sobre nós sem nós” foi idealizado por Damião Zacarias, pessoa com deficiência visual, corumbaense, e de família tradicional do Samba, o bloco teve o apoio das instituições: ISMAC, AMDEF CG, PRODTEA, AFAPASMS, SDHU - PMCG. CAPED e Associação de pais e Amigos do Autista.
Bloco nos preparativos para o desfile. (Foto: Valdenir Rezende)