Nem o incêndio em uma carreta, no bairro Los Angeles, no mês passado foi capaz de apagar a magia que o circo desperta nas últimas quatro gerações da família Perez. Com mais de 60 anos de vida, o picadeiro que já teve o nome de Circo Real Pantanal ainda na década de 1950, hoje é o “Top Circo”, que nasceu com o mexicano, mágico Liochan e, chegou pela fronteira em Mato Grosso do Sul.
Cheio de histórias, o circo abriga 14 pessoas da mesma família - irmãos, cunhados e sobrinhos - que moram ali mesmo, em ônibus e carretas, como aponta a pequena Yasmin, de 4 anos. “Ali que eu moro. No circo”, conta para a gente enquanto toma um iogurte. Ela saiu de casa para ver o que estava acontecendo sob o picadeiro. A mais novinha das participantes do circo é ela, que “faz dançarina assim ó”, gesticula com as mãozinhas e pezinhos.
O fundador dele, mágico Liochan, depois de chegar ao Brasil não gostou do que viu e pediu à família para voltar para o México. Com o circo, ficaram a mãe e os filhos, um deles, Paulo Vitor Perez, pai de quem hoje está à frente do Top Circo, Hugo e Wagner. “E meu pai foi se criando no circo, casou com a minha mãe que também é de família tradicional de circo”, contam os irmãos Hugo e Wagner Perez. Os dois já nasceram entre trapézios, palhaços e malabares. Wagner, literalmente. “Minha mãe estava trabalhando quando diz que sentiu as dores e na época correram para chamar a parteira”, relata a dupla. “Eu nasci na Vila Margarida dentro da barraca do circo, na saída para Cuiabá”, completa Wagner Perez, de 42 anos.
Há décadas em Campo Grande, o circo só não chegou às regiões centrais. Em se tratando de periferia, já passou por todas as regiões da cidade. Nos espetáculos, eles apresentam o globo da morte, trapezistas
tecidos, palhaços e o que tem sido atração de todos os circos, os transformers (robôs de mais de 3 metros de altura).
“FUGIU” COM O CIRCO
Como todo circo, o da família Perez também tem uma história de amor. Numa temporada deles em Terenos, sete anos atrás, de público Elenita virou artista e esposa do circense Hugo. “Na época meu casamento não tinha dado certo, separei e resolvemos ir fazer o teinrior”, recorda Hugo Perez, de 44 anos.
Chegando lá, Hugo e Elenita se conheceram no espetáculo e passaram a conversar. “Eu comecei a ir todos os dias, ou melhor, todas as noites no circo”, conta Elenita Fernandes, hoje com 29 anos. O namoro engatou e ela então resolveu ir embora com o circo. “A última vez que eu tinha a um circo, eu era muito pequenininha, até que eu fui adulta e gostei do mágico”, brinca. Com facilidade para aprender, em pouco tempo ela pediu para subir no tecido e sob o olhar do então namorado, teve a aprovação. Elenita nasceu para o circo e foi lapidada por toda a família.
SOBREVIVÊNCIA
Como arte, o circo abastece a família, mas financeiramente, não. É só por paixão e tradição que os Perez continuam a viver dos números de baixo da lona. “É a nossa profisão, eu gosto dessa vida, vem de família e agora estou passando para os meus filhos”, afirma Hugo.