Correio B

CORTE ORÇAMENTÁRIO

Estudantes vão às redes sociais para mostrar o trabalho sério da UFMS

Parafraseando o ministro da Educação, Abraham Weintraub, acadêmicos criam o Registros da Balbúrdia no Facebook

“PALHA ASSADA. Realmente o investimento deveria ser só em Medicina, Veterinária e Engenharias, OLHA ISSO, alunos da licenciatura da UFMS em um seminário voltado à discussão da educação especial e a inclusão de deficientes nas universidades, escolas e no mercado de trabalho. Realmente, é lastimável o que esses cursos estão fazendo. ESSES ALUNOS, JÁ CHEGA, A MAMATA TEM QUE ACABAR”. “A acadêmica de Licenciatura em Ciências Biológicas, Nathália Marinheiro de Lima, descobriu uma proteína capaz de controlar seletivamente o crescimento de bactérias relacionadas a infecções de pele, endocardite, osteomielite e pneumonia. SE O CORTE DE VERBAS FOR EFETUADO, TORÇA PARA NÃO PEGAR NENHUMA INFECÇÃO HOSPITALAR”. Estas são duas das respostas irônicas que acadêmicos da UFMS estão dando às declarações como o tweet do presidente Jair Bolsonaro (PSL) – “O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina” – e o anúncio do corte de 30% do orçamento das universidades públicas do País, feito pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, sob a justificativa de que  “universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”.

Na sexta-feira (3), as estudantes de Zootecnia da UFMS, Tais Karoane Marcolino e Adryadine Almeida, criaram uma versão sul-mato-grossense para a ideia que começou na Universidade Federal do Paraná, de expor os “registros das balbúrdias” no Facebook. No momento em que o Correio do Estado entrevistava as administradoras, a página Registros da Balbúrdia na UFMS contava com mais de 800 curtidas. 

“Depois de sair a notícia dos cortes de verbas, ficamos muito preocupados com o que aconteceria com todos os estudantes que necessitam das bolsas. Logo após isso, houve uma reunião e lá o pessoal disse que deveríamos mostrar à população o que realmente acontece lá dentro, pois existem muitas notícias que são espalhadas sem fonte alguma, e a maioria que propaga esse tipo de informação nunca estudou em uma universidade pública”, explica Tais, 19 anos. 

Para dar visibilidade aos projetos de extensão e iniciação científica, as jovens conversaram com amigos de diferentes cursos pedindo contribuições para o conteúdo. A adesão foi imediata, com fotos e descrições das ações realizadas pelos estudantes de todas as áreas da universidade. “Em poucas horas, já tinha vários compartilhamentos, o pessoal falando que foi uma bela iniciativa. Fazemos as publicações em tom de ironia para mostrar as dificuldades existentes na faculdade e que com o corte ficará bem mais difícil”, ressalta Tais. 

UFMS VAI À ESCOLA

Com mais de 20 anos de existência, o projeto de extensão UFMS Vai à Escola é um dos mais fortes exemplos de trabalho sério e comprometido de acadêmicos e voluntários da universidade. Ao longo de duas décadas, foram 80 mil atendimentos realizados por mais de 1,5 mil voluntários de todas as áreas, que já dedicaram tempo e conhecimento nas ações.

Durante sete anos, UFMS Vai à Escola atendeu exclusivamente a população de Campo Grande, depois estendeu as atividades às escolas rurais e atualmente está de volta à Capital. Coordenadora do projeto, Mirian Coura Aveiro destaca que a ação começou e não parou e que, além de se sustentar, foi base para teses de doutorado, dissertações de mestrado e trabalhos de conclusão de curso.

“Para além desse olhar de ‘bagunça’, o que tem acontecido e é o nosso papel é a transformação social e acadêmica. O aluno que participa se volta à humanidade, algo tão necessário”, ressalta.

Este mês de maio, por exemplo, o projeto vai de avião até  comunidades isoladas pelas águas do Pantanal para levar atendimento de saúde para pessoas que não conseguem se locomover. “Realmente precisamos demonstrar que nem tudo o que se está pregando aí é assim, que tem esse desrespeito com o dinheiro público. É um projeto que leva ação preventiva e traz para a UFMS essa responsabilidade sobre a orientação de saúde preventiva”, frisa. 

Em nota oficial, o reitor da UFMS, Marcelo Turine, reforçou que a relevância da universidade pública brasileira é incontestável, assim como sua importância social e econômica, sendo referência local, regional e nacional. “É imperativo reafirmar nossos valores em defesa do ensino público, gratuito, laico, de qualidade e plural, garantida a autonomia didático-científica, em um clima de liberdade intelectual e respeito à diversidade”, afirmou.

Ainda conforme o comunicado, se a situação de bloqueio do orçamento de R$ 29 milhões pelo MEC não for revertida, a UFMS enfrentará sérias dificuldades para honrar seus contratos de manutenção, como pagamentos de energia elétrica, água, telefone, segurança, manutenção e conservação predial. Já o bloqueio de recursos de investimentos prejudicará as atividades de ensino de graduação e pós-graduação, pesquisa e extensão, que dependem dessas verbas para a melhoria da infraestrutura de salas de aulas e laboratórios, bem como para a aquisição de equipamentos e materiais.

POSICIONAMENTO

Em nota, a UFMS informou que, mesmo após o bloqueio de 30% do orçamento, honrará o pagamento de 100% das bolsas e auxílios a estudantes por meio do Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes), recurso destinado à permanência dos alunos em vulnerabilidade matriculados nos cursos de graduação da universidade. Ainda conforme o comunicado oficial, a decisão beneficia diretamente os estudantes com bolsas dos programas de iniciação científica (Pibic), extensão (Paext), ensino (Monitoria), bem como as pesquisas de campo e aulas práticas. Também está mantida a abertura de edital para o programa Pró-Estágio. 

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