Correio B

CRÔNICA

"VERÃO 90"

A trama supera problemas de atualização e evidencia <br>a força de suas personagens femininas

Tatyane Gameiro

11/06/2019 - 13h57

Idealizada como uma grande celebração dos anos 1990, “Verão 90” foi além das referências e soou realmente como uma novela do período ao longo de suas primeiras semanas. Uma trama bem mediana por sinal. Os cenários sem acabamento e as caracterizações pobres evidenciaram ainda mais o texto apenas funcional que marca a formação da dupla de autoras Izabel de Oliveira e Paula Amaral. O resultado inicial era muito aquém do poder de fogo já demonstrado por Jorge Fernando, diretor de grandes sucessos nas últimas três décadas e nome essencial para o projeto ganhar forma. Por sorte, a Direção de Teledramaturgia da Globo foi rápida. Personagens mudaram seus figurinos e cortes de cabelo, a ambientação da trama como um todo foi refeita e o texto subiu de nível a ponto de se tornar um dos mais sedutores da grade da Globo atualmente. Com quatro meses no ar, a produção foi aos poucos deixando de soar como pastiche de uma década e hoje é capaz de divertir o público ao brincar com o passado e mesmo assim soar original.

Embora se apresente como essencialmente cômica, são as complexidades amorosas que regem as ações de “Verão 90”. Distante de qualquer anacronismo, a novela se propõe a avaliar relações inter-raciais e de classes diferentes com as bandeiras e questionamentos de hoje. Com esta movimentação, um personagem sem grandes nuances como Quinzinho, de Caio Paduan, acaba sendo exposto de forma mais interessante. Inicialmente, ele casaria com a “patricinha” Larissa, de Marina Moschen, mas ambos viram que o que tinham era uma grande amizade. Solteiro, o jovem empresário acabou encontrando seu verdadeiro amor na figura da bailarina de lambada Dandara, de Dandara Mariana. Porém, a sintonia acabou sendo gradativamente apagada pelo machismo do personagem, que não aguentava o sucesso de sua amada. Por fim, a novela se movimenta mais uma vez e uma figura feminina acaba por definir a derrocada do jovem, que está de casamento marcado com a oportunista Vanessa, vilã da história interpretada por Camila Queiroz.

O mesmo esquema ocorrido com Quinzinho se repete com outros expoentes masculinos da trama. “Verão 90” chegou a um ponto onde a história começa a se preparar para acertar as pontas e mostrar seus desfechos. E, em todos os núcleos, são as mulheres que dominam a cena. O bom desempenho de Jesuíta Barbosa como o antagonista Jerônimo não seria assim tão sedutor se não contasse com as sequências em parceria com Dira Paes, intérprete de Janaína, a mãe do ambicioso vilão. Alexandre Borges e seu Quinzão não teriam metade da graça sem a companhia de Mercedes e Lidiane, papéis de Totia Meirelles e Claudia Raia. Por fim, a novela conseguiu andar para frente, a ponto de não ter qualquer prejuízo artístico com a saída repentina de Humberto Martins, intérprete do decadente Herculano. A presença do ator até tinha muito a ver com o clima de celebração da novela, visto que seu auge foi ao longo da década retratada. Entretanto, Humberto sempre pareceu protocolar ao viver os sonhos de um ex-astro da pornochanchada que almejava uma carreira séria de diretor. Com um desempenho tão preguiçoso, acabou se apagando de forma natural. Enquanto isso, o desempenho de “Verão 90” na audiência vai muito bem. Com quase dois meses de exibição pela frente, a trama já ultrapassou os números de suas antecessoras, “Deus Salve o Rei” e “O Tempo Não Para”, e ostenta média geral em torno de 27 pontos.

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