Correio B

COMPORTAMENTO

Roberta D'Albuquerque: "Cineminha"

Roberta D'Albuquerque: "Cineminha"

Fui poucas vezes ao cinema quando criança. Morávamos no interior de Pernambuco, Garanhuns. Hoje tem até sala 3d por lá – acabo de checar. Cinema Eldorado, na Av. Rui Barbosa. Está passando Homem Aranha, Pets 2 e AnnaBelle, tá punk! Pois era exatamente na Av. Rui Barbosa que ficava o cinema da minha infância. Na verdade, era uma sala comercial, ao lado da lanchonete Ponto 17 – cujo telefone era 761-1717, eu lembro. Uma sala com algumas cadeiras enfileiradas, umas vinte no máximo, uma televisão e um vídeo cassete. Àquela altura, chamávamos o lugar de cineminha; hoje, eu chamaria de local de prática da pirataria, pois os filmes eram alugados em uma vídeo locadora para uso particular e transmitidos para um público pagante. Ilegal.

Ainda assim, o cineminha nos emprestava a sensação de sair de casa para uma aventura, romance ou terror. Era moda ver filme de terror, mesmo que fôssemos todos pequenos. Não tinha bilheteria nem pipoca, a sala não conseguia ficar 100% – nem mesmo 50% – escura, e nunca, nunquinha, presenciei uma sessão lotada. Na verdade, em todas as ocasiões em que estive ali, os espectadores eram somente eu, minha irmã e nossas amigas, com que já tínhamos combinado a programação. Pensando bem mesmo, acho que o cineminha não durou mais que um período de férias. E é bem possível que eu o tenha inventado.

O Ponto 17 era real, embora ficasse na Av. Santo Antônio e não na Rui Barbosa. Fui a um almoço coletivo na escola, uma vez, e minha mãe comprou lá uma série de docinhos em formato de frutas – já que a indicação era que levássemos frutas para a sobremesa, mas eu não queria levá-las. Eram de leite Ninho. Lembram desses docinhos? Pois bem, não consegui comer nenhum. A freira nos pediu para deixar toda a comida na mesa, para que o ato de compartilhar se desse por inteiro, e eu acabei sem sobremesa. Em outra ocasião, presenciei uma guerra de ketchup no interior da lanchonete e fui atingida. Chorei, mas foi legal.

Tudo isso porque assisti ontem a Dor e Glória, do Almodóvar, e senti inveja da frase "O cinema da minha infância". Não o tive. Faz mais de 10 anos que não volto a Garanhuns. Fiz um passeio pelo Google maps agora e vi que a floricultura Flores de Abril segue lá. Redonda e bege, exatamente como eu lembrava. Se eu tivesse vontade de voltar, compraria uma flor. E um docinho de fruta. Mas ando com horror de leite Ninho. Boa semana queridos.

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