Correio B

COMPORTAMENTO

Roberta D'Albuquerque: "Tudo azul – ou quase"

Roberta D'Albuquerque: "Tudo azul – ou quase"

Moramos em um apartamento de 3 quartos. Casal, crianças e escritório. As crianças são duas e estão, desde o fim do ano passado, cogitando um relacionamento aberto em casas/quartos separados. Resistimos. Era tão bom ter um escritório para, por exemplo, escrever esse texto que está sendo digitado, agora mesmo, na mesa de jantar, com o som da tv – que ultimamente só passa vídeos de barulhos 'satisfatórios' e se mistura, neste exato momento, ao da máquina de lavar roupas vindo da área de serviço. Ui, delícia.

"Mas mãe, você pode escrever no consultório!" Verdade, mas é que tenho que pôr a roupa para lavar. "Mas pai, você pode trabalhar no seu trabalho!" Verdade, mas aí ele já não teria desculpas para não assistir a uma série de mãos com unhas compridas esmagando uma geleca qualquer. "Eita, é que preciso trabalhar um pouquinho".

Enfim, resistimos até que… cedemos. E a mais velha arrastou a cama para o escritório. Nós arrastamos uma das mesas, as estantes, os livros e os computadores para a sala. O meu, já que era um laptop, foi escolhido para ficar assim 'em qualquer lugar que você quiser', sem lugar nenhum na verdade. O quarto novo foi festejadíssimo. Havia uma série de planos para ele: vou pintar as janelas de amarelo, a mesa – a minha que ficou, a pedidos – de vermelho, as paredes de azul. Combinamos que, já que a mudança estava fora do planejamento financeiro da família, tudo poderia ser feito, desde que a dona do ambiente a ser reformado arcasse com os custos, inclusive o da mão de obra.

A verdade é que, tomados pela preguiça, arrumamos esse texto para adiar o inconveniente da reforma. Alheia ao truque, a menina passou a economizar a mesada, fez aquarelas pra vender, se prontificou a serviços domésticos em troca de um incentivo, juntou todo o dinheiro que podia. E pintou, pacientemente, à medida que conseguia recursos, primeiro, a mesa, depois, a janela e, no último fim de semana, as paredes. So-zi-nha! Treze anos! So-zi-nha! O desejo é um motor danado de lindo, não é. De olho nele, a vida ganha cor. Boa semana queridos.

 

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