Daniel Ortiz é um grande fã das novelas das sete. Não as recentes, mas as concebidas entre os anos 1980 e 1990 por nomes como Cassiano Gabus Mendes, Carlos Lombardi e Silvio de Abreu. Silvio, aliás, é o grande mentor de sua escrita e principal entusiasta de seu crescimento dentro da Globo. Colaborador de tramas como “Passione” e o “remake” de “Guerra dos Sexos”, o autor virou titular a partir de um incentivo de Silvio na espiritualizada “Alto Astral” e fez uma grande homenagem ao “chefe” em “Haja Coração”, folhetim que atualizou a trama de “Sassaricando”, de 1988. Bom de audiência e afinado com o estilo das sete, chegou o momento para Ortiz mostrar tudo o que aprendeu ao longo dos anos com a criação original “Salve-se Quem Puder”, estreia da semana que tem a difícil missão de substituir a exitosa “Bom Sucesso”. Com “Verão 90” ainda tão fresca na memória do público, fica difícil cair no mesmo “besteirol” que une arquétipos do gênero, como o malvado bonitão, a mocinha desastrada, o galã romântico e a vilã rica e inescrupulosa, entre outros.
Na confusa trama, após se conhecerem em Cancún, no México, e presenciarem o assassinato de um poderoso juiz, a pragmática Alexia, a romântica Luna e desastrada Kyra, papéis de Deborah Secco, Juliana Paiva e Vitória Strada, entram no Programa de Proteção à Testemunha e são enviadas para Judas do Norte, interior de São Paulo, mudando os nomes para Josimara, Fiona e Cleyde, respectivamente, e sendo dadas como mortas. Todo esse cuidado é necessário para protegê-las de um grupo de assassinos. Quem deseja a morte delas é inescrupulosa Dominique, de Guilhermina Guinle, uma das líderes de uma facção envolvida em negócios escusos. A vilã é tia de Renzo, de Rafael Cardoso, que teve um tórrido romance com Alexia em território mexicano e vive um dilema ético por não compactuar com as ilegalidades da família. Só na sinopse já é possível identificar a história a “thrillers” policiais como “Deus Nos Acuda” e “Quatro por Quatro”, além do “Girl Power” de “Elas por Elas” e “Perigosas Peruas”. Em comum, o humor pueril que já fez muito sucesso no passado, mas que hoje só resulta irritante e o principal motivo para a trama não fluir de forma natural.
Aliás, tudo em “Salve-se Quem Puder” parece forçado. Nem mesmo a direção do eficiente Fred Mayrink consegue dar valorizar um texto que carece de sutilezas e inteligência. Aliás, mesmo sendo pupilo do recém-falecido Jorge Fernando, o diretor não demonstra domínio cômico e, especialmente, parece que não está totalmente pronto para uma novela que exija tantas cenas ação. Mesmo se esmerando nos efeitos visuais, a atual trama das sete tem um resultado estético parecido com as novelas contemporâneas da Record. As chuvas e tempestades que dominaram as primeiras sequências nem de longe parecem ter o acabamento que a Globo institucionalizou em suas produções. Com um elenco dois tons acima do apropriado, Deborah Secco salva o trio de protagonistas do fiasco e faz de sua Alexia um ponto fora da curva em meio à doçura enjoativa da atuação de Juliana Paiva e revezamento de gritos e caretas que surgem de Vitória Strada. Com estética de “ontem”, mas sem o mesmo vigor em diálogos e situações, “Salve-se Quem Puder” é uma homenagem às avessas aos clássicos das 19 horas.