Correio B

PONTO DE VISTA

Histórias domésticas

Apresentado por Otaviano Costa, "Extreme Makeover Brasil - Casa dos Sonhos" equilibra emoções e reformas com a realidade brasileira

Tatyane Gameiro

10/04/2020 - 16h51

O sonho de ter um programa solo na Globo acabou virando um “pesadelo” para Otaviano Costa. Em meados do ano passado, pouco depois do final da primeira - e única - temporada do “Tá Brincando!?”, o apresentador ficou sabendo que, além do cancelamento da produção, a emissora não renovaria seu contrato. Bom em autopropaganda e de olho no mercado, Otaviano acenou para todos os lados: visitou os estúdios do SBT, conversou com a Band e ainda analisou propostas da Record. No fim, preferiu continuar, de alguma forma, ligado à Globo e assinou com o GNT para apresentar o “Extreme Makeover Brasil - Casa dos Sonhos”, versão nacional do premiado “Extreme Makeover: Home Edition”, formato da produtora Endemol que já teve diversas adaptações ao redor do mundo. Demolições e reformas podem até dar o tom da produção, mas é a partir dos dramas humanos das famílias selecionadas que o programa cresce de verdade. Aproveitando-se disso, o GNT utiliza, para o bem e para o mal, o estilo exagerado de Otaviano para intensificar as emoções e o apelo popular do programa.

Na companhia de nomes conhecidos da Engenharia Civil, Arquitetura e Design de Interiores, casos de Diogo Oliveira, Duda Porto, Bruna Arruda e Paloma Cipriano, o “Extreme Makeover Brasil - Casa dos Sonhos” trata logo de se diferenciar do programa original por conta de suas ideias robustas e bem realizadas. Nos Estados Unidos, era nítido que a equipe se preocupava mais com a estética dos projetos do que com a qualidade do serviço realizado, algo muito próximo do quadro “Lar, Doce Lar”, que até hoje faz muito sucesso no “Caldeirão do Huck”. Com mais tempo e orçamento para se desenvolver, o programa se alinha bem à proposta de conteúdo do GNT e, levando em consideração seu formato de “reality show”, apresenta ao público as plantas e complexidades do projeto de forma detalhada. Enquanto isso, mergulha no cotidiano, traumas e lembranças dos familiares, como falecimentos, problemas econômicos e as simples desavenças que deixam o ambiente mais pesado ao longo dos anos. É nesse momento que a produção mostra que realmente pensou a adaptação de acordo com a realidade brasileira, com um resultado popular e que, mesmo se tratando de televisão, beira a sinceridade.

Entre gritos, dancinhas e piadas de gosto duvidoso de Otaviano, o programa até tenta ter um resultado uniforme entre um episódio e outro. O roteiro faz sua parte valorizando as histórias, mas é o estado original da casa e as particularidades familiares que fazem um episódio valer a pena ou não. O destaque da temporada fica por conta dos clãs Gonçalves e Oliveira, levantando questões como solidão, aceitação e homossexualidade. Dando credibilidade e tons de voz mais amenos, a equipe técnica escalada pelo GNT ajuda a contar as histórias sem grandes firulas. Visivelmente desconfortáveis em participar de algumas brincadeiras promovidas por Otaviano, a presença da mestra de obras e “youtuber” Paloma Cipriani e a da engenheira Bruna Arruda tiram as reformas do “Extreme Makeover Brasil - Casa dos Sonhos” da obviedade masculina deste tipo de ambiente. E ainda fazem uma bem-vinda conexão do programa com um público mais novo e ligados nas redes sociais. Bem produzido e com roteiro na medida da emoção e do trabalho braçal, o “Extreme Makeover Brasil - Casa dos Sonhos” é uma adaptação de olho no Brasil de hoje. 

 

“Extreme Makeover Brasil - Casa dos Sonhos” - GNT, terças, às 20h30.

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