A imagem do mineiro Joaquim José da Silva Xavier passou de agitador a herói nacional nos últimos 228 anos. Tiradentes, como ficou conhecido, é um personagem histórico da época do império, quando os brasileiros ensaiavam tornar-se independentes de Portugal. A sua morte é motivo de feriado e se olharmos a folga como marco de algo realmente importante, ela supera inclusive o descobrimento, que vem no dia seguinte com a vida normal seguindo adiante.
“Na história, nós trabalhamos com a construção da verdade ao longo dos tempos. As memórias desses personagens, especialmente no Brasil, são usadas de acordo com que os poderes necessitam”, explica a historiadora Lenita Calado.
É por isso que em um primeiro momento, Tiradentes é considerado uma espécie de baderneiro contra a ordem social estabelecida, mas com o passar do tempo passa a ser tido como mártir, sendo relacionado ao próprio Cristo, como no quadro de Pedro Américo. Recentemente, porém, conta-se que o personagem não tinha tanto destaque assim no movimento, sendo apenas uma espécie de “bode expiatório” da Inconfidência Mineira.
Lenita afirma que não adianta tentar entender o que de fato aconteceu, mas é preciso olhar justamente para essa evolução.
O mistério, segundo ela, começa a ser desvendado no dia 9 de dezembro de 1965, um ano após o início da ditadura no país, quando o então presidente Castelo Branco declara Tiradentes patrono cívico da Nação Brasileira e proclama 21 de abril como feriado nacional.
Conforme a historiadora, a imagem criada a partir daquele momento foi de um Tiradentes militarizado, integrante do levante brasileiro pela sua soberania. “Isso trouxe um pouco essa questão disciplinar ao eleger pessoas representativas”.
Porém, com o seguir dos anos, passou-se a negar a ditadura, enfraquecendo essa imagem e tentando trazer à tona uma figura de Joaquim José da Silva Xavier como se tivesse assumido a culpa por algo que sequer organizava, como relataram em suas obras Lucas Figueiredo e Eduardo Bueno.
“A imagem dele foi criada como herói e depois diminuída, mas convém lembrar que datas não são criadas à toa. Sempre há um interesse por trás delas”, completa Lenita.
O QUE É VERDADE?
Entre fatos e imagens, sabe-se que ele nasceu em 1746, filho do português Domingos da Silva Santos e da brasileira Maria Antônia da Encarnação Xavier. Foi o quarto filho entre sete irmãos. Com 9 anos, Joaquim José ficou órfão de mãe e aos 11 perdeu o pai.
Tiradentes foi criado pelo padrinho, que trabalhava como dentista. Foi com ele que aprendeu o ofício que mais tarde lhe renderia o apelido. Atuou como mineiro e em 1775 entrou para o Exército Colonial, ocupando o posto de alferes.