Correio B

COLUNA CRÔNICA

Questões atuais em "Homens?"

Equilibrando dramas e risadas, Fábio Porchat exibe momento de grande inspiração na segunda temporada

Tatyane Gameiro

27/04/2020 - 14h27

Fábio Porchat teve de promover uma grande “virada” em sua carreira para, enfim, voltar a ter autonomia artística. Depois de passar quase dois anos falando abobrinhas e entrevistando subcelebridades em um programa totalmente sem personalidade na Record, o comediante decidiu por não renovar seu contrato e partir para projetos mais autorais, como o divertido “Que História É Essa Porchat?”, sucesso do GNT, e a série “Homens?”, que acaba de estrear a segunda temporada no Comedy Central - também disponível no catálogo da Amazon Prime Video. Fazendo jus a tudo o que o espectador espera de uma produção do canal coproduzida com a grife Porta dos Fundos, a série, a princípio, parece mais uma reunião de clichês masculinos feita para o público que aprecia os shows de “stand-up” que impregnam a programação do Comedy Central. Entretanto, assim como na primeira temporada, o humor da produção cresce a partir dos dilemas reais do protagonista, Alexandre, papel de Porchat, além dos amigos coadjuvantes Gustavo, Pedrinho e Pedro, de Gabriel Godoy, Raphael Logam e Gabriel Louchard. Se no primeiro ano a série girava em torno dos conflitos cotidianos provocados pela disfunção erétil, a densidade agora é intensificada por temas como aborto e novas formas de relacionamentos, em diálogos e situações que evidenciam o bom momento de inspiração de Porchat.

Questões sexuais e amorosas são o mote de produções que abordam o universo feminino, como “Sex and The City” ou “Lipstick Jungle”. Porchat se utiliza dessa premissa para não apenas satirizar, mas também homenagear produções do tipo. A nova temporada flagra o protagonista em plena transição, deixando a carreira na publicidade para trás e investindo em uma relação séria depois de diversos pequenos casos. No geral, assim como nas séries femininas, muito mais que amor ou sexo, os personagens estão é realmente em busca de si mesmos e Alexandre continua a contar com a ajuda seu próprio pênis como conselheiro, personagem do sempre divertido Rafael Portugal. Sem dinheiro para manter a mansão onde vive, o protagonista acaba tendo de dividir os boletos com outros amigos. É aí que entra a figura de Gael, personagem de Yuri Marçal. A chegada de um homem mais novo no grupo causa uma verdadeira revolução de costumes e opiniões. Em contrapartida ao machismo enraizado do grupo de amigos principal, Gael se mostra livre dos conceitos e padrões de sexualidade ao afirmar que se apaixona por “pessoas” e propõe uma nova perspectiva para as velhas certezas masculinas.

Assim como o texto, a direção cheia de criatividade de Johnny Araújo também amadureceu nos novos episódios. Conhecido diretor de videoclipes que enveredou pelo cinema, Araújo já tinha ousado bastante na temporada passada, exibindo vigor em diversas sequências com personagens em segundo plano. Agora, além de um divertido jogo de edição com as redes sociais, “Homens?” quebra a quarta parede com propriedade ao falar direto com o espectador. Em sintonia com séries novatas e premiadas como “Euphoria”, da HBO, e “Fleabag”, da BBC, a direção investe em cenas surrealistas e efeitos especiais que valorizam ainda mais os devaneios dos personagens. Mais confortáveis em seus papéis, Gabriel Godoy e Gabriel Louchard mostram uma versão mais sofisticada e trabalhada de suas verves cômicas, em desempenhos bem mais interessantes do que ambos já mostraram nas novelas. Com ótimas participações de Lorena Comparato, Miá Mello, Michelle Batista e Cintia Rosa, “Homens?” mostra que a tevê nacional pode fazer humor comercial de qualidade.

 

“Homens?” - Comedy Central - terças, às 21h.

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