Correio B

CRÔNICA

O futuro nas mãos das crianças

"A esperança está na consciência e no aprendizado que darão às nossas crianças."

Tatyane Gameiro

16/05/2020 - 07h00

“Quando é que este “colona” vai embola, mamãe”? A pergunta é do Frederico, garotinho de três anos, cabelos encaracolados e olhos grandes que volta e meia derramam águas nestes tempos de Pandemia. Fred, como todos na sua idade, não entende as limitações na sua vidinha, colocadas de um dia para o outro. “Eu odeio o colona”, repete todas as manhãs, quando geralmente a mãe ou o pai o impedem de descer para o playground do condomínio.

A frase também é dita quando lhe negam o direito de ver a avó que ele tanto ama. E não adianta explicar que é para proteger os mais velhos. “Mas a Pepa vai na casa da vovó dela e não acontece nada”, argumenta ele, referindo-se ao desenho animado que adora. Claro que não adianta desenhar o vírus, contar a pandemia através de historinhas, colocar bonecos a sua volta e encenar a possível contaminação das pessoas quando elas não ficam em casa. Às vezes ele escuta com atenção, fica pensativo e os pais acreditam numa trégua que dura apenas até a hora de ir para a cama ou até a manhã seguinte.  

Fred é o primeiro – e único – neto de amiga querida.  E ela, claro, como todas nós que somos avós, fica com o coração apertado cada vez que vê e fala com o gurizinho, graças à tecnologia de vídeo ligação. O avô, evita o quanto pode essas ocasiões. Diz que não suporta ver o netinho sem poder abraçar. Fica muito, mas muito, nervoso com a situação e os filhos temem que ele sofra um ataque. Ele, o avô, também odeia o Covid 19. E quem não?

Quem não ficou triste no Dia das Mães porque não pôde reunir a família? Certo que alguns burlaram as regras, mas não é desses que quero falar nesta crônica. Quero falar aqui daquela saudade que de vez em quando se transforma em indignação, em raiva mesmo.

Quando alegres brindamos o ano de 2020, que foi outro dia ou noutro século, e pensamos em nossos desejos e projetos a realizar, nunca imaginaríamos que tudo teria que ser adiado, interrompido, até perdido. Embora enfrentar mudanças seja um processo da vida, é lógico e até necessário sentir-se mal com a perda desses planos de vida. É natural e até saudável que a gente sinta tristeza e/ou ansiedade com as perdas.

Estamos em uma situação imposta, à qual tivemos que nos adaptar da noite para o dia, e isso acarretou muitas circunstâncias repletas de estresse, incertezas, medo, depressão. Nós adultos, de uma maneira ou de outra, estamos fazendo o melhor que podemos. Mas convenhamos, não estávamos minimamente preparados para isto. O brasileiro nunca imaginou que algo tão dramático aportaria neste País tropical abençoado por Deus.

Sofremos um duro golpe de realidade. E estamos vendo ou aprendendo, a depender de cada um, que a vida é muito mais incerta do que a nossa mente gostaria, que não temos tanto controle sobre o nosso futuro quanto acreditávamos e que o percentual de incerteza é infinitamente maior que o controle que pensamos ter.

Como dizer a uma criança que a vida está temporariamente suspensa, que a convivência familiar foi interrompida? Vamos mentir? Fingir que nada está acontecendo, que dias melhores virão e que no final do arco-íris tem um pote de ouro?  

Alguém me perguntou dia desses o que será do mundo pós-pandemia. Duvido que alguém saiba. Mas há quem teorize sobre o assunto. Muitos falam sobre mudança de paradigmas sociais, econômicos e principalmente ambientais e que será imprescindível desenvolver uma consciência ecológica extremamente abrangente, local e mundial, sob pena de sermos obrigados a viver sob a ameaça de novos vírus. Sim, os vírus se espalham também por conta da nossa indiferença e descaso com a natureza.

A esperança, se ela existe, talvez esteja nas mãos do Frederico, cujos pais já estão lhe ensinando noções de ecologia. Mesmo pequeno, ele já aprendeu que não se joga lixo fora da lixeira e que o prato de comida precisa ser “raspado”, porque não devemos desperdiçar água nem alimento, principalmente quando sabemos que há milhões de pessoas passando sede e fome no mundo. A esperança está na consciência e no aprendizado que darão às nossas crianças.

Crianças como Fred, Luca, Theo, Luísa, Joaquim, Antônio, Marcela, Pedro, ainda vão dar muito trabalho aos pais durante esta crise. Continuarão fazendo birra querendo sair de casa ou visitar os avós, brincar com os amigos.  Dói, mas vai passar. E quando tudo passar, eles estarão mais fortes, mais conscientes e bem mais preparados para novos desafios. Ao contrário de nós, eles podem mudar o mundo para melhor.  

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