Correio B

NOVELA

Quinze anos de "Alma Gêmea"

Espiritualista e sem ousadia, a novela de 2005, segue como a maior audiência das últimas duas décadas

Tatyane Gameiro

03/06/2020 - 19h00

Histórias simples e de forte apelo popular fizeram de Walcyr Carrasco um dos autores mais prestigiados da Globo. A trajetória de êxito na emissora começou com “O Cravo e A Rosa” e se fortaleceu com “A Padroeira” e “Chocolate Com Pimenta”, novelas que, ao longo da primeira metade dos anos 2000, ajudaram a manter a audiência do horário das seis acima dos 30 pontos no Ibope. A boa relação de Walcyr com o público das 18 horas chegou ao ápice com “Alma Gêmea”, que este mês completa 15 anos de exibição. “Em 2004, antes mesmo de terminar 'Chocolate com Pimenta', a emissora pediu a sinopse de uma nova história. Eu não tinha nada pronto, mas a ideia de fazer uma trama com forte carga espírita já me rondava há algum tempo. Escrevi uma sinopse simples, falei um pouco dos personagens e pronto: foi a primeira novela da Globo aprovada por e-mail”, gaba-se o autor.

Folhetim dos mais tradicionais, “Alma Gêmea” aborda uma história de amor que resiste a tempo, tragédias e diferenças sociais. Ambientada nos anos 1920, a primeira fase da trama mostra o amor à primeira vista do botânico Rafael e da bailarina Luna, de Eduardo Moscovis e Liliana Castro. Em pouco tempo, eles se casam e têm seu primeiro filho. No entanto, tanta felicidade desperta o ódio e a inveja da ambiciosa Cristina, prima de Luna, interpretada por Flávia Alessandra. Além de querer o marido da prima, Cristina também deseja as joias da família, que foram presenteadas à Luna. Disposta a tomar a vida da bailarina, a malvada arma um plano que culmina com a morte da mocinha e o sumiço das joias, tudo com o apoio de sua mãe, a ardilosa Débora, de Ana Lúcia Torre. “As duas vivem de altos e baixos. Cristina sempre foi rejeitada por todos e faz de tudo para ter a vida que acha que merece. Essa obstinação de ser rica, amada e respeitada me rendeu ótimas cenas. Era uma vilã passional e focada”, analisa Flávia Alessandra.

Luna morreu, mas, para o desespero de Cristina, seu espírito reencarna como a doce e simples Serena, de Priscila Fantin. Desde pequena, a menina de origem indígena tem estranhas visões com rosas e com a vida de Luna. No início dos anos 1940, após uma invasão de sua aldeia, a jovem parte rumo a São Paulo, mais precisamente para a pequena e fictícia Roseiral. “A personagem sente uma estranha conexão com essa cidade e tudo se confirma quando ela 'reencontra' o Rafael”, explica Fantin. Serena acaba dividindo a cidade. De um lado, muitos moradores simpatizam com a moça e sua história. Outros, entretanto, torciam para que tudo não passasse de uma fraude. “O Rafael passa por momentos de muito ceticismo. A dor da perda da Luna ainda era forte. Ele temia ser enganado e estava cego pelas armadilhas da Cristina”, conta Moscovis.

Além da densa e lúdica história de amor principal, “Alma Gêmea” ainda abordou a doutrina kardecista com personagens capazes de se conectar com espíritos, como os transtornados Alexandra e Guto, de Nívea Stelmann e Alexandre Barillari. No entanto, seguindo à risca o estilo de Walcyr, a novela contrastou sua densidade com fortes cargas de humor. Nesse quesito, dois núcleos chamaram a atenção: a família do simples Crispim, de Emílio Orciollo Netto, que implicava com qualquer um dos pretendentes de sua irmã Mirna, de Fernanda Souza. E a movimentada pensão de Divina, onde os personagens viviam em pé de guerra e foi berço da paixão entre a desquitada Olívia e o dedicado Vitório, de Drica Moraes e Malvino Salvador. “O Walcyr utiliza o humor com muita propriedade. A Olívia era do tipo que não se deixava abater. Aliás, todo o núcleo cômico tinha seus pesares e o humor era a redenção desses personagens”, analisa Drica.

Dirigida pelo saudoso Jorge Fernando, “Alma Gêmea” contou com 227 capítulos e gravações ambientadas em lugares como Bonito, no Mato Grosso do Sul, e na cidade mineira de Carrancas. Ao longo da exibição, a história foi acusada de plágio por dois autores de livros espíritas, mas Walcyr acabou absolvido de ambos os processos. “É uma novela romântica por natureza e o público adora fantasia. Acho que foram fatores importantes para o sucesso”, exalta o diretor, tentando justificar a ótima audiência, cujo capítulo final alcançou 57 pontos no Ibope. Os números crescentes acabaram por fazer de “Alma Gêmea” o último grande êxito do horário das seis, com média geral de 40 pontos.

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