Correio B

série

Fetiches cotidianos em "Hard"

Leve e sem moralismos, este é mais um acerto da HBO no mercado de séries brasileiras

Tatyane Gameiro

10/06/2020 - 14h00

As séries da HBO conquistaram prestígio e fãs ao redor do mundo por conta do alto padrão de qualidade técnica e abordagem corajosa de temas considerados tabu. A sexualidade humana em suas mais variadas apresentações já foram o mote de séries como “Sex and The City”, “Girls” e “Looking”, só para citar três dos principais sucessos do canal fundado nos Estados Unidos, em 1972. Investindo em produções brasileiras desde 2005, ano de estreia da ótima “Mandrake”, a HBO fez valer no mercado nacional o mesmo esquema empregado em outros países: selecionar projetos arrojados - seja no formato ou na linguagem - e reunir profissionais de destaque na realização. E, logicamente, os mesmos questionamentos sexuais da matriz se desenvolvem nas séries feitas por aqui. Nos últimos 15 anos, o público pôde acompanhar os altos e baixos da vida de uma moça do interior que se muda para São Paulo na celebrada “Alice”, a força que o marketing pode exercer no lucrativo mercado do sexo nas quatro temporadas de “O Negócio” e o submundo da pornochanchada paulistana em “Magnífica 70”, entre outros títulos. A aposta da vez é “Hard”, série baseada em uma produção homônima de origem francesa e que faz o contraponto entre a atual indústria pornô e o insistente conservadorismo cotidiano.

Com roteiro de Danilo Gullane, Juliana Rosenthal, Patricia Leme, Mariana Zatz e Laura Villar, a história de “Hard” gira em torno de Sofia, dedicada dona de casa que acaba de ficar viúva, interpretada por Natália Lage. Elegante e discreta, ela renunciou à carreira como advogada para cuidar da família. Após a morte repentina do marido, a protagonista vê sua vida perfeita desmoronar ao descobrir que ele mentiu a vida toda sobre os negócios da família e que sua herança vem na forma de uma produtora de filmes pornô. Com humor ácido e recheado de boas sacadas, a série carrega o mérito de recolocar Natália Lage em um papel principal à altura de seu talento. Aos 41 anos, a atriz que estreou ainda criança no seriado “Tarcísio & Glória”, de 1988, conseguiu fazer a transição para personagens adultos e protagonizou produções na Globo. Entretanto, nos últimos anos, emendou tipos secundários e que não lhe davam tanta munição para brilhar. O trabalho de Lage em “Hard” é preciso e cresce junto com o “desabrochar” da personagem para um olhar mais humano e artístico sobre a indústria pornográfica.

Com produção da Gullane, produtora paulistana conhecida por comédias populares, como a franquia “Até que a Sorte nos Separe”, e dramas premiados como “Que Horas Ela Volta?”, a série exibe o vigor estilístico da HBO, com cenários, locações, produção de arte e fotografia eficientes e que não se sobrepõe ao enredo. O mérito da direção dividida por Rodrigo Meirelles e Luiza Campos é equilibrar o humor com a premissa fúnebre e manter a unidade de atuação entre o elenco da série, que mescla nomes conhecidos do grande público, como Denise Del Vecchio e Fernando Alves Pinto, e atores da cena mais alternativa, casos de Julio Machado e Martha Nowill. Ao abordar os fetiches secretos e cotidianos, a série entretém sem forçar a barra e, por conta dos 30 minutos de duração do episódio, acaba deixando o público curioso sobre o que ainda está por vir. Com três temporadas já produzidas, de seis episódios cada, “Hard” sofre com o esquema ainda ultrapassado de exibições semanais dos canais tradicionais, pois é o tipo perfeito de série inteligente, leve e sem moralismo para maratonar.

“Hard” - HBO, domingos, às 22h.

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