Correio B

Crônica

A revolução das coisas

"Minha casa resolveu fazer greve."

Tatyane Gameiro

01/08/2020 - 14h19

Minha casa resolveu fazer greve. Percebo claros sinais de cansaço e mau humor em todos os cômodos e nos objetos. A torneira da cozinha foi a primeira a parar de funcionar. Lá se vão três meses em que sou forçada a lavar toda a louça no tanque da área de serviço. Um vazamento repentino me impede de trabalhar na pia. E a torneira, diga-se de passagem, é praticamente nova. Já tentei de tudo, dentro dos poucos recursos e ferramentas que possuo. Imitei até a avó e amarrei um pano bem torcido e forte. Nada.

O banheiro do meu quarto também entrou na onda. A válvula da descarga dispara toda vez que aperto o dispositivo. Tenho que usar de força e paciência para que ela retorne ao lugar e pare de gastar água. No teto tem um buraco que veio do andar de cima. Resolveram furar o piso e entraram no meu box sem a menor cerimônia. E não, não adianta reclamar. 

Os aparelhos eletrônicos e domésticos também resolveram aderir à greve. O liquidicador foi o primeiro a me deixar na mão. Em seguida vieram os instrumentos de trabalho: celular que só funciona na tomada; a placa-mãe do desktop que resolveu pifar, e o preço de uma nova não é de mãe, mas de madrasta; o laptop que não resistiu ao simples copo de suco derrubado. O escritório mais parece uma oficina eletrônica. Fios, câmeras, telas, gabinete, tudo parado.

Para não parar também vou atrás de alternativas: um laptop emprestado, o teclado antigo e muita paciência. Dois textos foram embora sem aviso prévio. Desapareceram sem deixar vestígios. Haja chá de camomila, rivotril e meditação para não entrar em parafuso. E tem gente que ainda acha home office uma folga do trabalho.

Alguém pode até pensar que a solução esteja a um clique do telefone ou da internet. Mas em isolamento não dá para chamar o conserto, minha filha. Como é que vou pedir para o técnico tirar o sapato, higienizar a roupa, usar a máscara – se ele não quiser? E olha que muita gente se recusa. Ontem, em uma breve descida até a portaria vi pessoas desfilando com máscara no queixo e outros de cara limpa. 

Dá vontade de gritar, tamanha a aflição. Sinto ganas de chamar a atenção. De dizer: moço, no queixo não resolve. Moça, use a máscara. Gente, pare de andar à toa na rua.

Tenho que admitir: está tudo muito esquisito. O mundo, as pessoas, as coisas, a natureza. Tudo está mudando de forma vertiginosa. Ontem assistindo ao filme sobre o primeiro homem que pisou na lua, Neil Asmstrong, confesso que me deu, sim, certo saudosismo. 

Ao final dos anos 1960, a maior preocupação dos homens era quebrar as barreiras e chegar à Lua. A minha, pré-adolescente à época, era apenas comprar uma calça jeans e ouvir todos os discos dos Beatles. E se algo enguiçasse na casa, o que era raro, o conserto era tão prosaico que só precisava das mãos hábeis do avô.

E apenas, tão somente, uma árvore repleta de mexericas, laranjas ou jabuticabas fazia a gente se sentir a mais feliz das criaturas. Hoje nem isso!

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