De origem genética, a doença celíaca pode ser definida como uma reação exagerada do sistema imunológico ao glúten, um tipo de proteína encontrada em cereais como trigo, centeio, malte e cevada. Sem o diagnóstico adequado, a doença pode causar diarreia, anemia, perda de peso, osteoporose e até deficit de crescimento em crianças.
“É uma desordem sistêmica autoimune desencadeada pela ingestão de alimentos que contém glúten. O consumo da proteína causa uma inflamação crônica da mucosa do intestino delgado, atrofiando as vilosidades intestinais e resultando na má absorção intestinal de macronutrientes – como carboidratos, gorduras e proteínas – e micronutrientes – vitaminas e minerais –, além das suas manifestações clínicas”, afirma a nutricionista Luciane Gonzalez.
A doença costuma aparecer na infância, logo nos primeiros anos de vida. Foi o caso de Thais Leite Vianna, de 8 anos, que descobriu a doença aos 3 anos. “Minha filha de 8 anos é celíaca. Tem a minha sobrinha, que tem apenas seis meses de diferença dela, que também é e recentemente meu irmão, com 50 anos, que descobriu no ano passado que é celíaco. A primeira a ser diagnosticada foi a minha sobrinha, ela tinha apenas 2 anos”, explica a mãe de Thais, Luciene Ribeiro Leite.
O diagnóstico da prima foi decisivo para os médicos desconfiarem que Thais era celíaca. “A médica automaticamente pediu todos os exames, porque é uma doença genética. Quando eu relatei que já tinha um caso, o diagóstico da minha filha foi mais rápido”, explica Luciene.
O principal sintoma de Thais era a diarreia. “Ela ia ao banheiro três ou quatro vezes ao dia e chegou a apresentar sangue nas fezes. E quando a gente não sabe, acaba oferecendo o alimento que ela aceitava, e nisso ia pão, macarrão – não sabia que estava piorando as coisas”, conta a mãe.
Segundo a nutricionista, o diagnóstico normalmente é feito por meio de exames de sangue. “Os exames do anticorpo antitransglutaminase tecidular (AAT) e do anticorpo antiendomísio (AAE) são altamente precisos e confiáveis, mas insuficientes para um diagnóstico. A doença celíaca deve ser confirmada encontrando-se certas mudanças nos vilos que revestem a parede do intestino delgado”, frisa Luciane. O diagnóstico deve ser feito por um médico gastroenterologista.
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Sem glúten
O tratamento para a doença é a retirada de todo o glúten da alimentação.
“O tratamento é não consumir nada que contenha glúten.
Desde que a Thais foi diagnosticada, nós eliminamos da alimentação dela tudo que tem glúten.
Se ela quer um biscoito, por exemplo, eu compro um específico, sem glúten. Nessas casas mais orgânicas é vendido, e também em alguns supermercados agora”, frisa Luciene.
Mesmo as receitas mais diferentes atualmente podem ser feitas ou compradas na versão sem glúten.
“Esses dias ela viu um calzone de chocolate, ela queria porque queria provar, e a gente sempre acha um jeito, ou de fazer ou de encontrar alguém que faça para ela”, comenta a mãe, Luciene.
Segundo a nutricionista, o ideal é realizar a adaptação da dieta com a ajuda de um profissional.
“A retirada do glúten deve, idealmente, ser seguida por nutricionista, devendo-se ter o cuidado para orientar a introdução de alimentos seguros, sem glúten, de forma a manter a alimentação equilibrada e causar menos impacto nutricional e emocional na vida da criança”, pontua.
VIDA ADULTA
Aos 30 anos, Aline Xavier Greccho Castilho já se acostumou com suas restrições ao glúten, mas durante muito tempo não compreendeu por que sentia tantas dores abdominais.
“Em 2010 eu fiquei três dias hospitalizada, pois, segundo o médico, eu estava com intoxicação alimentar.
Eu sempre tive enxaqueca e labirintite e em 2017 fui diagnosticado com fibromialgia.
Eu sentia desconfortos abdominais com frequência e uma dor muito forte do lado direito da barriga, os médicos sempre acreditavam que era apendicite, mas nunca soube o motivo, então não sei exatamente quando começou.
Em 2017 fui fazer exames porque estava com dores no estômago, e a médica que fez suspeitou que eu poderia ser celíaca pela aparência do meu intestino. Ela fez a biópsia e deu positivo”, relembra.
Aline frisa que demorou para compreender a importância do alimento ser totalmente livre de glúten. “No começo eu não entendia sobre contaminação cruzada, então demorou um pouco para eu deixar de ter os sintomas: a contaminação cruzada para mim foi e é a parte mais difícil da doença celíaca.
A contaminação cruzada é quando um alimento naturalmente não teria glúten, mas entra em contato com o glúten e se contamina, alguns na colheita, no armazenamento, na hora de embalar, pois usam o mesmo maquinário para vários produtos.
Outro exemplo é o simples fato de cortar um pão com glúten e depois usar a mesma faca para cortar algo sem glúten”, explica.
“Após a retirada total do glúten e da contaminação cruzada, meus sintomas foram sumindo aos poucos”, complementa Aline.
CUIDADOS
A contaminação é uma das maiores preocupações da estudante Karoline Santana Fernandes, 29 anos, que abriu recentemente o Carola, panificação sem glúten e sem leite.
“O Carola está aberto há menos de um mês.
Eu comecei a vender para o público no dia 15 de janeiro.
Eu já produzia pãezinhos e outros salgados e experiências culinárias para mim”, explica. Há dois anos, Karoline e o namorado tiveram um problema de saúde e precisaram retirar o glúten da alimentação. “Nesse caminho eu senti muita falta de comer pão e massas assadas. Fui atrás de receitas, experimentando e fazendo”, frisa.
Quando o contrato de estágio que Karoline fazia foi encerrado, ela percebeu que precisaria encontrar uma outra forma de renda, mas que fosse segura em relação à pandemia do novo coronavírus.
“Eu não queria procurar um emprego no comércio em geral por causa da pandemia, então surgiu a ideia de tentar vender as massas e os pãezinhos.
A proposta do Carola é que sejam alimentos sem glúten e sem lácteos, prioritariamente sem contaminação cruzada”, explica.
Para evitar a contaminação, Karoline comprou forno e utensílios de cozinha novos, justamente para que eles não tivessem nenhum tipo de contaminação.
“Depois que eu comprei, tive a preocupação de fazer a limpeza química em todos os utensílios.
Essa limpeza química quebra a partícula do glúten. Existem três etapas dessa limpeza: a primeira é limpar com água e sabão, a segunda é limpar com vinagre e a terceira é limpar com álcool 70º. E depois você retira esses produtos”, pontua.