Há alguns anos, o Dia Internacional da Mulher tem recuperado o seu tom de luta. Muito além de flores, bombons ou celebrações, a data é um ponto de partida para discutir direitos, objetivos femininos em comum e situações que precisam ser observadas e combatidas pela sociedade, como assédio, sobrecarga e diferença salarial. Nesse universo de debates, a pandemia do coronavírus, que completa um ano da chegada ao Estado este mês, traz à tona uma série de fatores que a tornaram muito mais exaustiva para as mulheres.
A professora, empreendedora e mãe Laís Camargo, 30 anos, viveu o melhor e o pior desde que a pandemia começou.
“Acho que para todo mundo o isolamento teve altos e baixos. No começo, pude me concentrar muito na minha casa e na minha família, depois o trabalho começou a sobrecarregar demais – literalmente do dia para a noite, enquanto professora, tive que aprender a dar aula on-line para crianças de três anos, isso foi um superdesafio. Com o passar dos meses, o mergulho para dentro foi inevitável, revi muitas amizades, muitas atitudes e comecei a organizar meus projetos pessoais”, explica.
Assim como muitas mulheres, Laís vive múltiplas carreiras. É professora de inglês, doula, escritora e empreendedora de uma loja de fraldas ecológicas. Do outro lado, na vida pessoal, é mulher, mãe, filha e esposa. Nesse balanço entre as duas áreas, o que ficou latente durante anos tornou-se muito mais visível.
“Não aprendi a conciliar tudo ainda, mas vou levando. Acho que estamos aprendendo todos os dias. Tem semanas muito boas, em que tudo se encaixa, e tem momentos de desespero. Para as mulheres ficou muito evidente a carga, é aquele serviço invisível de casa... Bem, ele ficou bem visível agora”, acredita.
Para ela, a parte mais difícil foi se transformar enquanto profissional, deixar um emprego e se aventurar em outro.
“A parte mais difícil foi essa nova forma de dar aulas, eu, que sempre fui a professora que deitava no chão com os alunos, tive que me reinventar. O que tem sido maravilhoso é ver minha filha crescer, porque antes eu tinha a sensação de que deixava ela para ir cuidar dos filhos dos outros. Agora eu posso estar ganhando metade do que eu ganhava, mas não abro mais mão desse tempo com ela. É precioso demais para trocar por qualquer coisa”, pontua.
Como doula e empreendedora voltada para o mercado feminino, ela percebeu uma busca por respostas durante a pandemia. “As mulheres têm ficado cada vez mais conscientes dos seus ciclos e dos seus corpos. Nossos ciclos menstruais respondem diretamente a emoções, e muitas mulheres notaram mudanças na pandemia. A busca por produtos relacionados a menstruação sustentável aumentou bastante também, por exemplo”, frisa.
Reflexos
Durante a pandemia da Covid-19, Lis Loureiro, 31 anos, também observou a vida mudar e novas lutas serem incorporadas às já existentes. Defensora da liberdade da pessoa com deficiência, ela viu isso se tornar ainda mais importante ao ficar grávida do filho Henrique. “As pessoas têm uma imagem muito errada e distorcida sobre pessoas com deficiência, sempre sofri preconceito e graças a Deus e à minha mãe eu sempre soube lidar muito bem com isso. Com a gestação vieram mais olhares curiosos e perguntas do tipo: como eu engravidei? Como isso foi possível? Porque, na sociedade em que vivemos, uma mulher com deficiência grávida é quase impossível no mundo imaginário deles”, explica.
Para Lis, no cotidiano ou no Dia Internacional da Mulher, ela sempre está aqui para mostrar que pode ser o que quiser. “Eu lido da melhor forma, não ligo e sempre tenho uma resposta rápida sobre como engravidei, que foi de forma natural. Minha deficiência sempre é vista como prato principal, mas ela é só o aperitivo, eu estou aqui para mostrar que posso ser o que eu quiser, inclusive mãe”, pontua.
Assistente administrativa e modelo fotográfico, Lis viu na pandemia muita coisa mudar, principalmente o contato com o mundo, que precisou ser restrito. “A pandemia está sendo muito difícil, ainda mais por essa questão de biossegurança. Eu sendo cadeirante os cuidados têm que ser redobrados, a higiene tem que ser não só comigo, mas com a cadeira também. Estava trabalhando e fiquei em home office por ser grupo de risco”, elenca.
Lis explica que, apesar de precisar diminuir a locomoção em razão da pandemia, aproveita o tempo para cuidar da gravidez. “Eu fico com medo por conta da pandemia, mas para mim não está tão ruim, porque me sinto mais segura em casa. Tomo todos os cuidados e, como minha gestação está bem conturbada, ficar em casa está sendo um alívio, meu bebê é grande e não aguento ficar muito tempo sentada”.
Por ser pequena e o bebê grande, a criança corre o risco de nascer antes, por isso Lis precisa de cuidado redobrado. “A pandemia me fez valorizar mais minha família, minha vida, e ainda me fez mãe. Por mais que o medo tome conta, ainda mais com essas variantes, eu temo ainda pelo meu filho, que vai nascer mês que vem, mas como a fé move montanhas, creio que dará tudo certo”, ressalta.
Enquanto mulher com deficiência e mãe, Lis precisa lutar contra o preconceito e os olhares curiosos por onde vai. Sobre o futuro e as lutas que ainda virão, ela é taxativa. “Espero um mundo mais justo e amoroso, o que falta no nosso mundo é empatia e respeito com o próximo”, acredita.
Reinvenção
“A gente precisa se reinventar” é a frase que talvez mais defina a sul-mato-grossense Gilda Lima Godoy, 62 anos. Grupo de risco para o coronavírus, ela precisou deixar o lado festeira por um bom tempo, primeiro ao cair em casa fazendo um reparo e posteriormente ao contrair o vírus.
“Acredito que os últimos meses foram desafiadores para mim, na verdade para toda mulher, principalmente. Para mim não poderia ser diferente, porque minha vida é cheia de desafios”, afirma Gilda. Há 10 anos a aposentada venceu um câncer agressivo, com apenas 20% de chance de recuperação. “Mas eu sempre fui uma pessoa otimista, alto-astral, e a gente conseguiu vencer”, ressalta.
No ano passado, antes mesmo da pandemia surgir em território brasileiro, Gilda sofreu uma queda ao realizar um reparo no telhado de casa, no dia 4 de janeiro. “Tive uma fratura muito feia no calcâneo, fui para uma cadeira de rodas e precisei ficar em repouso durante dois meses. Quando recebi a alta médica e achei que poderia voltar a ter minha vida normal, porque eu gosto de sair, de dançar, o que aconteceu? Chegou a Covid-19”, conta.
Antes da pandemia, apesar de ser aposentada, Gilda costurava algumas roupas para ter uma renda extra, e, quando menos esperou, o número de pedidos caiu. “Com a vinda da pandemia, as costuras pararam, porque ninguém vai mandar fazer roupa se não tem para onde ir. Tudo bem, a gente precisa se reinventar”, acredita.
Na reinvenção, Gilda viu na companhia dos netos um tempo precioso. “Eu tenho três netos. Com a pandemia, a creche dos meninos fechou e, como meus filhos trabalham, eu me ofereci para cuidar das crianças três vezes na semana. Eu sou daquelas avós que aprontam com a gurizada, deito no chão, rolo, brinco, a gente faz e acontece”, relata.
Quando as coisas pareciam melhores e Gilda ensaiava uma celebração de aniversário apenas para ela, os filhos e os netos, a Covid-19 chegou. “No dia 13 de novembro eu comecei a ter alguns sintomas estranhos, no dia 14 só foi piorando e no dia 15, que foi o dia da eleição, eu senti que a coisa não estava legal”, conta.
Gilda acabou sendo internada no Hospital Regional para o tratamento da Covid-19 e lá ficou até o seu aniversário, dia 18 de novembro. “Acabei melhorando e finalizei meu tratamento em casa, em isolamento até o dia 2 de dezembro. Da Covid-19, fiquei com uma sequela na garganta, já fui ao médico duas vezes, trato com antibióticos fortíssimos, mas a sequela da garganta está difícil de me deixar”, explica.
Inspirada com a vitória depois de tantos desafios, Gilda até estreou um ensaio fotográfico para um shopping de Campo Grande. Para ela, tudo que aconteceu durante a pandemia só mostra o quanto a mulher é forte. “Enquanto mulheres nós somos fortes e, quando a gente não é, temos que ser fortes para vencer todas as barreiras que vem pela frente, não só de doença como todas as outras que a mulher passa. A mulher é discriminada de muitas formas, sofre com o salário desigual, mas a gente consegue vencer, porque, como eu disse esses dias, mulher é poder e mulher tem que ser o poder. É ser e é ter o poder”, frisa.