Desde que a pandemia do novo coronavírus alterou o cronograma de gravações da teledramaturgia, a Globo vem apostando em uma estratégia no horário das 18h um pouco diferente da adotada nas outras faixas.
Primeiro, reprisaram “Novo Mundo”, na esperança de substituírem a trama justamente pelo folhetim que seria a continuação da história de Thereza Falcão e Alessandro Marson, “Nos Tempos do Imperador”.
O plano deu errado e, com o avanço da covid-19 no Brasil e no mundo, a decisão foi colocar no horário uma história leve, que tirasse do público os maus pensamentos trazidos pela atual situação.
Veio o clima solar de “Flor do Caribe” e, agora, a temática familiar e narrativa simples de “A Vida da Gente”.
Se a intenção é mesmo tirar o foco da pandemia, pelo menos nesse momento de lazer dos telespectadores, a escolha foi certeira.
“A Vida da Gente” foi a estreia de Lícia Manzo como autora principal de novelas, em 2011, depois de uma experiência bem-sucedida com a série “Tudo Novo de Novo”, dois anos antes.
Na época, era nítida a inspiração dela no estilo adotado por Manoel Carlos, mostrando o cotidiano e com diálogos leves e corriqueiros.
O próprio nome do folhetim já cria um paralelo com sucessos do autor, assim como a escolha do elenco, recheado de nomes que já se destacaram em tramas de Maneco, como ele é carinhosamente chamado no meio artístico.
A começar pelas duas protagonistas, Fernanda Vasconcellos e Marjorie Estiano, que interpretam as irmãs Ana e Manuela e atuaram em “Páginas da Vida” cinco anos antes de encabeçarem o elenco de “A Vida da Gente”.
Alguns pontos em “A Vida da Gente”, porém, diferenciam bastante os trabalhos de Lícia e Manoel Carlos.
A começar pelo elenco enxuto, com poucos e bons nomes. Não há tantos núcleos e são poucos os papéis que, nesses primeiros capítulos, pareçam um tanto sem função na história.
O foco na vida cotidiana não tira a agilidade da trama, ao contrário. Foi justamente ao investir nas emoções mais pessoais de seus personagens que Lícia garantiu conflitos instigantes e cheios de reviravoltas.
Tanto que não há a necessidade de dar spoilers para que quem não assistiu à novela em sua primeira exibição perceba os casais que ainda vão se formar e alguns dramas que serão trabalhados ali.
Porém, verdade seja dita: é impossível esquecer completamente a pandemia do novo coronavírus ao se deparar com a atuação marcante de Nicette Bruno, a doce e amorosa Iná da história.
Nicette foi uma das vítimas fatais da pandemia – ela morreu no dia 20 de dezembro do ano passado, aos 87 anos, por complicações decorrentes da covid-19.
Aquele foi um dos momentos mais notáveis dos últimos anos na carreira da veterana.
Mesmo em cenas simples de café da manhã, a atriz conseguia emocionar e cativar.
“A Vida da Gente” é também uma bela e merecida homenagem à atriz.