Em sua terceira novela das sete, Daniel Ortiz sabe que diversos “perrengues” podem acontecer durante os meses de exibição de uma trama.
No entanto, nem em suas piores previsões estaria a pandemia que paralisou os trabalhos de “Salve-se Quem Puder”.
“A novela estava indo bem e de repente tive de escrever um final para o que seria a primeira parte da história. Foi tudo muito complexo, mas necessário. Não existia mais condições de ninguém trabalhar. Minha sorte foi ter elenco e equipe realmente comprometidos. Conseguimos dar a volta por cima”, enaltece o autor, empolgado com a recente reestreia da trama.
Natural de Taubaté, interior Paulista, Ortiz sempre foi um grande fã das novelas das sete.
Não as recentes, mas as concebidas entre os anos 1980 e 1990 por nomes como Cassiano Gabus Mendes, Carlos Lombardi e Silvio de Abreu. Silvio, aliás, é o grande mentor de sua escrita e principal entusiasta de seu crescimento dentro da Globo.
Colaborador de tramas como “Passione” e do remake de “Guerra dos Sexos”, o autor virou titular a partir de um incentivo de Silvio na espiritualizada “Alto-Astral”, de 2014, e fez uma grande homenagem ao “chefe” em “Haja Coração”, folhetim que atualizou o clássico “Sassaricando” e acabou de ser reprisado às 19h.
Bom de audiência e afinado com o estilo do horário, “Salve-se Quem Puder” é a grande oportunidade de Ortiz mostrar tudo o que aprendeu ao longo dos anos.
Apesar dos contratempos, ele garante que está feliz com a experiência.
“Nunca vivi um trabalho por tanto tempo. Estou satisfeito em entregar um produto que consiga fazer o público relaxar, se divertir e esquecer dos problemas”, valoriza.
P - “Salve-se Quem Puder” ficou exatamente um ano fora do ar. Como foi ter de paralisar um trabalho por tanto tempo?
R - Foi muito difícil, mas necessário. Não tinha como fazer de outro jeito.
De uma hora para outra, tive de escrever um final do que seria a primeira temporada da história porque não existia mais condições de gravar em segurança.
Pouco se sabia sobre o Coronavírus e foi uma correria enorme para fechar essa parte inicial da história.
P - Como foi escrever esse desfecho prematuro?
R - Entrei em pânico. A direção da emissora me ligou em um domingo falando que só teríamos dois dias para gravar as sequências finais e que depois os Estúdios Globo seriam fechados.
Sentei na frente do computador e passei seis horas tentando não perder a coerência e criando um ponto de retomada. Adiantei muitas coisas, mas conseguimos um bom resultado.
P - A novela retornou sem colocar a pandemia na história. O que o levou a tomar essa decisão?
R - Foi uma decisão tomada em conjunto com a direção da casa e aconteceu mais ou menos entre maio e junho de 2020.
Estávamos vivendo o pior da crise de saúde naquele momento e pensei que colocar o coronavírus na história iria alterar toda a dinâmica da trama e como os personagens interagem entre si.
Além disso, é uma novela das sete exibida depois de um jornal local e antes do “Jornal Nacional”. Pensamos em dar um “respiro” para o público e investir no plano inicial de comédia, romance e leveza.
P - Como a redução de capítulos afetou a fluidez da trama?
R - Ainda tinha uns 100 capítulos para escrever. Com a pandemia, isso caiu pela metade.
O desenvolvimento ficou comprometido porque tenho uma história complexa nas mãos.
Tenho três mulheres que têm duas vidas e revelações que repercutem em vários núcleos.
Tive de focar na história principal e, infelizmente, não pude desenvolver tão bem as tramas secundárias.
Alguns personagens saíram prejudicados, mas fiz o meu melhor diante da situação.
P - O que você leva dessa experiência de escrever novela em meio ao caos da pandemia?
R - Em um momento de crise, acredito que ter uma equipe boa e unida faz toda a diferença.
Não foi fácil pra ninguém, mas todo mundo estava disposto a fazer as coisas darem certo.
Fred (Mayrink, diretor) teve muito trabalho para refazer cenas, diversos atores tiveram de sair de casa durante a pandemia e isso também exigiu muito da equipe técnica.
A entrega para este trabalho foi enorme. A gente terminaria este trabalho em julho do ano passado, agora vamos terminar em julho deste ano.