O ator e diretor teatral Zbigniew Ziembinski (1908-1978) foge da Polônia em 1941, após encenar a peça Genebra, do irlandês Bernard Shaw (1856-1950).
Em pleno transcurso da Segunda Guerra, um texto zombando de Hitler, Mussolini e Franco em território polonês, que já havia sido invadido pelos nazistas desde 1939. Resultado: Ziembinski, mesmo não sendo judeu, foge de navio e chega ao Brasil dois depois.
A partir da montagem de Vestido de Noiva (1943), de Nelson Rodrigues, sob a direção do polonês, Ziembinski torna-se o diretor que inaugura o teatro moderno no Brasil, por conta de uma série de aspectos revolucionários com que equaciona, em cena, um texto por si só já bastante ousado do ponto de vista da forma e do conteúdo.
E por onde passa - teatro, cinema (Brasil Ano 2000) televisão (teleteatros e novelas como Bandeira 2 e O Rebu) - ele segue fazendo revolução, tornando-se um verdadeiro mestre da dramaturgia para muitos dos grandes artistas que definiriam o termo, no país, desde o primeiro momento de sua atuação.
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O longa-metragem Zimba, 16° filme do diretor Joel Pizzini, aborda a impressionante trajetória do artista polonês. O filme estreou na mostra competitiva do festival de documentários É Tudo Verdade ontem e conta com mais uma sessão nesta quinta-feira (15), às 15 horas, com acesso gratuito pela plataforma www.looke.com.br mediante cadastro.
Quem quiser garantir uma “poltrona” na sala de cinema virtual deve se cadastrar com antecedência. Após a sessão, haverá um debate, com transmissão ao vivo, com presença do diretor, Idê Lacreta (montadora do filme), Aleksandra Pluta (biógrafa de Ziembinski) e o encenador teatral Amir Haddad.
Se a pandemia permitir, o filme ganha as salas de cinema no próximo dia 29. E, em seguida, ainda sem data definida, será exibido no canal pago GloboNews.
Além de apaixonado pelo teatro, Joel Pizzini possui ascendência polonesa. E, como um bom rato de cinemateca, não perdeu a chance de assistir aos primeiros filmes de diretores como Andrzej Wajda, Jerzy Kawalerowicz e Roman Polanski, expoentes do cinema de autor da Polônia, durante o período em que estudou em Curitiba.
Essa fome de pesquisa, marca visível em muitos trabalhos dirigidos por Pizzini, repercute em preciosos achados que aparecem ao longo da narrativa, a exemplo de imagens dos filmes em que Ziembinski trabalhou como ator antes de partir da Europa e do filme que ele dirigiu em 1936 - Fredek.
Zimba é narrado em primeira pessoa e, além do vasto material de arquivo, cobrindo a performance do ator e diretor no cinema, na televisão e nos palcos, apresenta depoimentos inéditos das atrizes Nathalia Timberg, Camila Amado e Nicette Bruno (1933-2020), essa em sua última participação em um filme.
Mas quem conhece o cinema praticado por Pizzini sabe o quanto ele rejeita o formato quadradão do chamado documentário tradicional, em que muitas vezes uma voz em off orienta, e sufoca, a fruição do espectador.
Aqui, mais uma vez, avisa o diretor, a opção é pelo filme-ensaio, ou seja, por mais que haja pesquisa e comprometimento com fatos biográficos, a informação nunca deve condicionar as possibilidades expressivas que fazem do documentário um discurso poético.
“No caso de Zimba, a articulação do filme, através dos materiais de arquivo, se assemelha a um auto-retrato do artista, como uma pós-reflexão, em que a vida-arte é revisitada, sob a lógica dos sentidos, do tempo da memória, que nunca é linear e tampouco cronológica”, conta Pizzini, diversas vezes premiado por trabalhos que perseguem justamente um cinema de poesia.
“Há buscas no filme que transcendem ao estritamente biográfico. Há questões que se sobrepõem, e me interessam como autor, como a discussão do sentido da arte, os limites e poder dela, na recriação da memória.”
Ao público de Mato Grosso do Sul, o diretor ressalta que a atuação de Ziembinski marca a trajetória de ao menos três dos grandes intérpretes nascidos no estado.
O ator Rubens Correa, natural de Aquidauana, foi aluno do polonês. E montagens teatrais, sob a direção de Ziembinski, que se tornariam antológicas, tiveram a presença no elenco de Glauce Rocha (As Três Irmãs, de Tchekov, 1959) e Aracy Balabanian (Toda Nudez Será Castigada, Nelson Rodrigues, 1965). As duas atrizes nasceram em Campo Grande.
“Portanto, Ziembinski pertence de certa forma ao imaginário sul-matogrossense”, aposta Pizzini. “Quando criança me impressionava aquela figura alta e leve ao mesmo tempo, na novela Rebu (1975), cujas imagens consegui incluir em Zimba, o que me dá uma sensação cíclica em busca de um tempo guardado na memória.”
Produzido por Vera Haddad e Urszula Groska, que faleceu antes da finalização de Zimba, o filme foi roteirizado por Pizzini, Henry Grazinoli e Reinaldo Mesquita, sob a consultoria biográfica de Aleksandra Pluta. Antônio Venâncio fez a pesquisa de imagens. Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil co-produziram.
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