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SERTANEJO

Zezé Di Camargo e Luciano completam três décadas de carreira

Em entrevista ao Correio do Estado, Zezé Di Camargo e Luciano falam da trajetória, do carinho pelo Pantanal e da admiração por Almir Sater e Dino Rocha

Beatriz Magalhães

19/04/2021 - 11h56

Com três décadas de carreira, celebradas hoje, a dupla Zezé Di Camargo e Luciano tem muitas histórias para contar, inclusive em Mato Grosso do Sul. Admiradores conhecidos do Pantanal, os cantores assumem que têm um grande carinho pela região e muito respeito pelos músicos da terra, como Almir Sater, Dino Rocha – que faleceu em 2019 – e Luan Santana, com quem planejavam uma parceria antes da pandemia do coronavírus.  

 

“Eu gosto demais do MS, todo ano vou ao Pantanal. Este ano já fui em fevereiro”, conta Zezé Di Camargo. Segundo o cantor, as lembranças também são da época que tocavam no Estado, antes da pandemia da Covid-19. “Já tocamos no Estado, em Campo Grande, Três Lagoas e Corumbá. A natureza, a fauna e a flora típicas dessa região dão orgulho de ser brasileiro”, complementa.

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O cantor ressalta que tem uma relação estreita com a música de Mato Grosso do Sul. “Eu sempre me inspirei em músicos da terra, como Almir Sater e Dino Rocha, sem falar da minha inspiração e paixão pelo chamamé, que sempre foi a grande influência na vida de todos os sertanejos. É impossível não falar da música sertaneja e da influência”, frisa.  

Esse carinho pelo Estado não foi prejudicado nem mesmo pelos momentos difíceis que a família viveu em 1998, quando um dos irmãos da dupla, Wellington de Camargo, foi sequestrado por uma quadrilha. 

Na época, oito dos envolvidos no sequestro foram detidos em Campo Grande, após a família ter pago o resgate e o irmão ter sido liberado ainda com vida. “Só de estar em um lugar em que você é bem recebido e amado por todos já faz esquecer qualquer problema ou tristeza. O MS tem muito dessa paz, para mim é um local onde me conecto com Deus. Amo pescar, sempre que posso estou por aí”, explica Zezé.  

Uma parte de Mato Grosso do Sul também estava no projeto audiovisual previsto pela dupla, mas que acabou adiado por conta da pandemia. “Nós íamos lançar um projeto audiovisual, com a participação de Luan Santana, Marília Mendonça, Thiaguinho, Alexandre Pires e Ivete Sangalo. 

Mas seguramos por conta do agravamento da pandemia. Além disso, também teria um show comemorativo da data e um cruzeiro em novembro”, conta Luciano.  

Trajetória

Dois dos maiores nomes da música sertaneja, Zezé Di Camargo e Luciano celebram hoje 30 anos de carreira. A trajetória é contada a partir de 1991, quando a música “É o Amor” chegou à Rádio Terra de Goiânia, em Goiás, em uma fita K7 levada por Francisco Camargo, pai da dupla e principal incentivador da carreira musical dos filhos.  

Saudoso, Zezé ainda lembra com detalhes como escreveu a música responsável por mudar a vida de toda a família para sempre. “

É muito interessante como fui tocado ao escrever e compor a música. Desde sempre sou um grande admirador, superfã da Maria Bethânia. A voz dela é como uma oração para mim, a mais linda do mundo. Naquela noite, fui deitar refletindo sobre a vida e as coisas que tinham que acontecer. De repente, veio Negue [música interpretada por Bethânia] na minha cabeça e fiquei pensando nela. Me deu um comichão e comecei a escrever sem parar”, explica. “Foi como se fosse uma resposta para o que estava em minha mente. Assim nasceram os versos ‘Eu não vou negar que sou louco por você...’. Quando cheguei em ‘É o Amor’, parei de escrever, peguei o violão e aí nasceu a melodia. Depois voltei para o início e fui completando a letra e colocando na melodia. Foi assim que nasceu a mudança de tudo na nossa vida e na da nossa família”, frisa.

Ao longo deste percurso, os músicos acumularam 40 milhões de discos vendidos, 70 regravações, um bilhão de execuções pelo mundo, 20 discos de platina, 15 discos de platina dupla, 27 discos de ouro, 27 discos de prata e 27 discos de diamante. 

A melodia “É o Amor” chegou a ser regravada por 73 artistas nacionais e internacionais, entre eles Fábio Júnior, Henrique e Diego, João Neto e Frederico, Vanessa Camargo, Gusttavo Lima, Lucas Lucco, Raça Negra, Ramiro Delgado & Ruan Moreno (México), Diego & Sebastian (Argentina), Lilach Davidoff (Israel) e Ralf (Itália).

Para completar, a dupla ganhou um filme sobre a sua história. “Dois Filhos de Francisco” foi lançado em 2005, com direção de Breno Silveira e Caetano Veloso na produção da trilha sonora, um verdadeiro sonho para Zezé. “Em 2005, lançamos ‘Dois Filhos de Francisco’, Caetano Veloso assinou a produção da trilha sonora e Bethânia gravou ‘É o Amor’. Os dois filhos de Francisco despontaram para o sucesso com ‘É o Amor’, que compus tocado por uma canção de Bethânia. O destino uniu os dois filhos de Francisco com os dois filhos de Dona Canô. A canção é algo do destino em nossas vidas, mudou tudo para nós e toda a minha família depois dela. O disco já estava pronto, tinha 12 faixas e vinil não podia passar disso, porque dava interferência na qualidade do som. Mas convenci o produtor para incluir essa última”, relembra.  

Para Luciano, todo esse caminho é gratificante. “Seremos eternamente gratos por ver que o sonho do nosso pai, que virou o nosso, fez com que o Brasil e o mundo inteiro pudessem nos conhecer e estar com a gente comemorando estes 30 anos e torcendo sempre por nós”, comenta.

Renovação sertaneja

A dupla Zezé Di Camargo e Luciano foi uma das responsáveis pela ascensão do sertanejo na década de 1990. Mas, ao longo dos últimos anos, o estilo sofreu algumas mudanças, com a crescente influência do pop e de outros estilos musicais.  

“Quando surgimos, no início dos anos 90, aquele fenômeno era maior do que esse, mas com menos gente dentro do movimento e sem o advento da internet. Naquela época, tinha especial na Globo de música sertaneja, o Leandro e o Leonardo tinham um programa na emissora, havia umas cinco rádios FMs de música sertaneja no Rio. Hoje só tem uma. As pessoas têm memória curta, mas o espaço era diferente”, relembra Zezé Di Camargo.

Para o cantor, a música sertaneja faz parte da cultura do País e vai além de qualquer moda temporária. 

“O gênero sertanejo não é modismo. A nossa origem é sertaneja, nunca negamos e não acreditamos que algum dia o nosso gênero tenha morrido ou venha a morrer. Artistas como Luan Santana, Matheus e Kauan, Israel e Rodolffo, Jorge e Mateus, Luiza e Maurílio, Felipe Araújo, Fernando e Sorocaba, Naiara Azevedo, João Bosco e Gabriel fazem sertanejo. Os leigos saem divulgando esse rótulo de sertanejo universitário, como já teve forró universitário e pagode universitário. Esses novos artistas fazem o sertanejo, assim como aconteceu com a gente. Quando começamos, em 1991, fomos intitulados de new sertanejo e recusamos esse rótulo. Houve uma peneira e ficaram os que tiveram o reconhecimento do público. O mesmo vai acontecer agora”, pontua.

Luciano cita Luan Santana, cantor sul-mato-grossense, como um dos representantes da nova geração. 

“Luan Santana canta desde que era criança, é um menino que eu admiro o trabalho. João Bosco e Gabriel, Matheus e Kauan gostam de ZC&L desde pequenos, mas ninguém pode esquecer que eu tinha 17 anos quando comecei. Os novos artistas reforçam o gênero e só fortalecem a música sertaneja, que é a paixão nacional. Tem ainda Jorge e Mateus, que tem feito um excelente trabalho. Enfim, ‘Como um Anjo’ e ‘Você Vai Ver’, por exemplo, que são nossos sucessos, são cantados pelos novos sertanejos”, frisa.

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