Você bate um papo sobre as suas receitas com alguém e, de repente, elas vão parar em uma revista de circulação nacional.
Foi assim que aconteceu com a paulista Maria Naves. Ceramista de mão cheia, Maria assina o conhecido busto da Tia Eva, fruto de seu trabalho de graduação em Artes Visuais na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e inaugurado em 2009 na Comunidade São Benedito.
Famosa por suas habilidades com o açúcar, que tanto podem render sobremesas divinas ou trabalhos artísticos literalmente devoráveis, como na mostra Doce Subversão, a artista de 67 anos topou o convite de compartilhar com os leitores do Correio do Estado uma receita que fugisse do cardápio das guloseimas.
Maria Naves responde ao desafio com um item bem típico do lugar onde vive atualmente: o bolinho de bacalhau.
“Não falam bolinho de bacalhau aqui, é pastel de bacalhau”, corrige a sorridente culinarista de 67 anos, diretamente de Caldas da Rainha, cidade de menos de 60 mil habitantes, famosa pela centenária feira livre que funciona todos os dias na Praça da Fruta.
“Tem umas receitas bem interessantes aqui, como a açorda, uma sopa feita com pão que as pessoas pobres faziam e virou um hábito, ou um pudim feito com bacon”, aguça Maria.
Além de estar em Portugal, ela diz que escolheu os bolinh..., ops!, pasteizinhos, porque trata-se de um quitute típico que “se come muito” por lá e que é bastante solicitado por amigos e familiares. “Faço e as pessoas gostam muito”, conta a artista.
“Sempre que tenho uma reunião, me perguntam ‘você vai trazer seus bolinhos?’. Procurei passar uma receita tradicional portuguesa mesmo, com todas as técnicas”.
Então, tome nota aí: não se esqueça de descascar as batatas somente depois que estiverem cozidas.
“Esse procedimento é importante para a batata ficar sequinha, com uma boa textura, e a batata pode ser cozida na mesma água em que foi cozido o bacalhau”, ensina Maria, cheia de histórias para contar, sempre embaladas por muita arte, gastronomia e reviravoltas, como que mostrando que, quando se trata da vida, não há receitas prontas.
Surpreendente
“A culinária surgiu assim, surpreendente na minha vida. Eu era gerente de banco e me casei, na época da ditadura, com um militar do exército. Acabei ficando grávida e, tempos depois, durante uma conversa em uma festa, a pessoa começou a fazer perguntas e passei técnicas de açúcar, receita de bala de coco, etc. Fui embora e logo comecei a receber ligações de todo o Brasil, o que deixou o meu marido muito ciumento. Até que ele atendeu uma das ligações, de alguém de Manaus, e disseram que tinham visto uma matéria na revista Cláudia”, conta Maria.
“Perguntavam para mim sobre receitas com açúcar, até que a Zuleika Cerqueira perguntou se eu não queria substituí-la no programa [de tevê] dela na Record [São Paulo]”. Eu aceitei e recebia 600 cartas por dia; enlouqueci e precisei contratar uma secretaria”, relata.
Em tempos pré-internet, a artista quituteira chegou a criar uma caixa postal nos Correios. Ela recebia cartas seladas com cheques nominais e enviava receitas para os espectadores. “Naquela época era assim”, afirma.
Depois disso, muita água e muitas receitas correram, e Maria Naves acabou trabalhando para grandes companhias de alimentos.
Fundou uma escola de gastronomia em Campo Grande e ganhou um quadro em uma emissora local.
O sucesso lhe rendeu grandes patrocinadores e convites para deixar mais saborosas festas, buffets e recepções. Até que prestou o vestibular para Artes Visuais e abandonou a gastronomia.
O caminho de volta passa pela memória afro de Campo Grande, com direito a mais de 50 desenhos da Tia Eva antes de chegar a um molde para o busto que emocionou as lideranças mais velhas da Comunidade São Benedito.
Passa também por exposições de obras açucaradas em Mato Grosso do Sul, em São Paulo e em cidades do outro lado do Atlântico, como as lusitanas Aveiro e Cidade do Porto. Até chegar aos bolinhos pasteizinhos de bacalhau. Aproveite!
Bolinho de bacalhau
Ingredientes
800 g de bacalhau (dessalgado e desfiado);
1,5 kg de batatas de casca roxa cozidas com casca;
Salsa picada;
1 cebola picada;
2 dentes de alho moídos;
Pimenta branca a gosto;
2 ovos;
Sal a gosto;
Óleo para fritar.
Modo de preparo
Descasque as batatas já cozidas e amasse uma a uma com um garfo. Dessalgue e cozinhe o bacalhau. Retire completamente os espinhos do bacalhau.
Coloque o bacalhau dentro de um pano de prato e vá esmagando com as mãos para ficar bem esfarelado e sequinho.
Misture todos os ingredientes e tempere com sal. Use duas colheres para modelar cada pastel e frite em óleo quente.
Dessalgando o bacalhau
Para dessalgar o bacalhau, deixar de molho na água com gelo, na geladeira, de um dia para o outro.
Trocar essa água de seis em seis horas (três trocas). Escorrer a água e enxaguar antes de cozinhar.