Nascida em Itaporã, no Mato Grosso do Sul, Luiza Brunet guarda boas lembranças da casa simples de madeira que viveu até os nove anos, quando a família se mudou para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades.
Da roça para a cidade, Luiza trabalhou como babá, empregada doméstica, empacotadora de supermercado e vendedora de uma loja de roupas.
Isso até ela vencer e se tornar uma das maiores modelos da sua geração nas décadas de 1980 e 1990, sendo ícone da moda nacional.
Porém, nunca perdeu o jeito simples e a alegria da menina do interior.
Orgulhosa das suas origens e de ter no sangue a mistura típica do brasileiro com o pai nordestino e avó amazonense, ela, que é mãe de Yasmin e Antônio, tornou-se ativista sobre temas como igualdade de gênero, direitos humanos e violência contra mulher – ela sofreu um abuso sexual aos 13 anos e na idade adulta acabou sendo vítima de violência doméstica na ex-relação com o empresário Lirio Parissoto, em 2016.
Luiza, que entra feliz para a turma das sexagenárias no próximo ano, garante ter orgulho da sua história, dos passos dados até aqui, afirmando que envelhecer com dignidade é maravilhoso.
Você é da cidade de Itaporã, no Mato Grosso do Sul. Guarda boas recordações da sua infância no interior?
Nasci na roça e guardo excelentes lembranças do meu tempo de caipira, da vida orgânica que tive – era tudo tão natural e a gente não valorizava...
Hoje, eu vejo que tive uma infância incrível, com uma educação muito simples, porém, muito valiosa.
Meu pai é cearense e se casou com minha mãe. Eles tiveram vários filhos e nós fomos criados num sítio onde meu pai trabalhou como lavrador.
Aos seis anos nos mudamos para a cidade, em Itaporã – que era um vilarejo pequeno –, que fica perto de Dourados.
Depois de muitos anos, voltei até a cidade e fui rever o local onde eu vivi, em uma casa de madeira muito simples e que ainda existia quando eu estive na cidade, no ano de 2000.
Não sei se ainda existe...
Foi uma delícia essa ida até Itaporã.
Visitei a escola onde estudei e revi algumas professoras da minha época do primário. Guardo lembranças maravilhosas da cidade.
O Mato Grosso do Sul é a sua segunda casa?
Vai ser sempre a minha casa, foi o estado onde eu nasci.
Estou aqui (Rio de Janeiro) há 50 anos, mas o Mato Grosso do Sul é a minha referência.
Amo dizer que sou sul-mato-grossense, que sou do Pantanal.
Falo daquela região com muito amor, assim como tenho muito orgulho pelo meu pai ser nordestino e minha avó amazonense.
Eu sou uma brasileira legítima e muito feliz com as minhas origens.
Você foi nomeada embaixadora do Programa Mãos Empenhadas, criado no Mato Grosso do Sul, e que atua na violência contra a mulher...
Fui convidada, em 2019, para ser a madrinha desse programa que atua na questão da violência contra a mulher.
E o convite veio pela juíza Jaqueline Machado.
Foi um projeto que teve a capacitação de profissionais de salões de beleza, inclusive barbearias, para se multiplicarem as informações e orientações para as vítimas de agressões domésticas.
Foi um projeto que teve uma adesão nacional.
Você acabou de chegar de Roraima, na fronteira com a Venezuela, onde participou do projeto Operação Acolhida. O que é esse trabalho?
Essa foi a primeira vez que tive a oportunidade de visitar pessoas em uma situação difícil, com essa questão da imigração e da crise humanitária.
E pude conhecer in loco a Operação Acolhida, que é comanda pelo Exército.
Nossa, eu conheci histórias de mulheres que além de sofrerem com a difícil situação socioeconômica da Venezuela, para chegar até o Brasil elas passam por humilhações terríveis, algumas constrangedoras – tive contatos com mulheres e meninas violentadas sexualmente.
São histórias tristes de pessoas que saem de um país com muitas necessidades e durante essa travessia ainda são agredidas e passam por situações terríveis.
Essa visita até a fronteira com a Venezuela foi uma experiência única e quero muito aprender mais sobre essa nova questão migratória.
Como se sente colaborando com a sua imagem em prol desses projetos?
Toda pessoa que tem uma projeção na imagem deveria atrelar a imagem a projetos em prol das pessoas.
Porém, é uma pena que muitos ainda não têm esse pensamento.
Você é ativista sobre temas como igualdade de gênero, direitos humanos e violência contra mulher. Como é lutar pela vida de tantas pessoas?
Ativismo não tem só um nicho.
Eu comecei falando sobre a violência contra a mulher, até porque assisti a violência na minha própria casa.
Eu sofri violência na pré-adolescência, passei por um episódio de um abuso sexual aos 13 anos.
Comecei a trabalhar cedo, casei-me com 16 anos, fui emancipada e sofri abusos também no trabalho – algo que acontece com muitas mulheres que acabam se submetendo a esses assédios por terem que sustentar sua casa.
Temos que denunciar esses homens abusadores e, sim, receber pelo nosso trabalho com dignidade.
A sociedade tem que respeitar o profissional, seja gay, homem, mulher, isso não importa.
Lembro que em uma entrevista você disse que gostava de cuidar da casa e fazer delícias na cozinha. Ainda é ótima no comando do forno e fogão?
Eu me considero uma excelente dona de casa.
Comecei a trabalhar muito menina na minha casa. Adoro cozinhar, não tenho uma especialidade, mas faço qualquer coisa.
Estou sempre inventando algo para ir para a cozinha porque me amima, é um passatempo.
A vaidade muda aos 59 anos?
Tenho as minhas referências com as idades avançadas, como a Fernanda Montenegro, que é uma mulher que tem uma dignidade absurda, que soube envelhecer bem, ativa, independente e é dona de uma fala incrível.
É um exemplo de mulher que quero ser na idade dela. A Hebe Camargo também era uma mulher que eu tinha uma profunda admiração.
Mas eu acho que a gente tem mesmo é que se preocupar em se informar, em ter conteúdo. Hoje, é o que eu valorizo.
Meus amigos são todos mais velhos, mas é muito bom estar ao lado dos jovens para observar como eles são inocentes (risos), e como é linda essa inocência permitida.
Porém, envelhecer com dignidade é maravilhoso.
Hoje, aos 59 anos, quando olha para trás, fica feliz com o que construiu? Mudaria algo nessa caminhada?
Quando eu fizer 60 anos vou ser uma sexagenária muito feliz, com tudo o que eu vivi.
Tenho muito orgulho da minha história.
Olhando para trás, eu tenho orgulho da mulher que me tornei e dessa minha trajetória.
Sua última participação em novelas foi em “Velho Chico”. Não tem planos de voltar à TV?
Não tenho mais essa pretensão.
Trabalhei com pessoas maravilhosas.
E agora estou envolvida em outras coisas que, hoje, me completam muito mais.
Atravessamos um período terrível da pandemia do coronavírus no Brasil. Com toda essa realidade que estamos vivendo, muda a maneira de ver a vida?
A gente não imaginava que tantas vidas seriam perdidas por conta da pandemia do coronavírus, que é uma realidade terrível.
A única forma de melhorar isso é ter a nossa conscientização de se preservar, ajudar os outros com trabalhos voluntários, com doações.
A violência doméstica aumentou por conta do confinamento.
E é preciso estar atento para salvar, ajudar as pessoas.
Este momento trouxe perdas, porém, se a gente olhar por outro lado, acho que todo mundo pode desenvolver um sentimento mais humanitário, em conjunto, e ajudar a muitas pessoas.
Sou uma brasileira orgulhosa do meu país, que é extraordinário, mas que tem defeitos.
Não podemos confiar só nos governos, nas instituições, precisamos fazer o nosso papel.
Não adianta apontar o dedo para o outro, dizer que isso não serve e não fazermos o nosso melhor.