Por Flávia Viana
Leticia Bufoni é inspiração desde o seu início.
Ela cresceu sem referências...
E essa inspiração (ela) chegou até as Olimpíadas de Tokyo.
Inclusive a pequena Rayssa Leal de apenas 13 anos tem Leticia como seu exemplo desde muito pequena. Bufoni é também pura inspiração para a nova geração. Ela movimenta e abre portas do mercado esportivo com a sua história e estilo de vida. Aos 28 anos ela é uma autoridade do skate feminino no mundo.
“O skate é um esporte, uma profissão, que para ser skatista precisa ter disciplinas e não gênero, que é um esporte sem gênero e que as mulheres podem andar como elas se sentirem confortáveis”, explica Leticia.
Nascida em São Paulo e criada na Vila Matilde, zona Leste da cidade, ela começou a andar de skate aos 9 anos, sem qualquer referência feminina e com o pai dizendo que “não era esporte de menina”. Mas o que poderia ser empecilho para ela foi inspiração para trilhar sua carreira.
Aos 11 anos ela ganhou seu primeiro campeonato paulista e convenceu o pai a ajudá-la a investir em seu sonho.
Dois anos depois se mudou para Los Angeles, na Califórnia, berço do skate e onde foi buscar sua entrada nas principais competições, mesmo ouvindo que era muito nova para se arriscar.
Leticia coleciona troféus, medalhas e premiações.
Ela é referência de atleta e mulher empoderada, o que a tornaram precursora de grandes conquistas femininas no skate.
Ela é a única mulher no mundo que conseguiu 3 medalhas de ouro em apenas um ano; é primeira e única recordista do Guinness Book por ter mais medalhas no X Games, principal campeonato de skate do mundo – com 6 medalhas de ouro, 3 de prata e 3 de bronze – foi a primeira skatista a ganhar de uma marca um shape com seu nome, pela Plan B; e a primeira mulher a entrar para o time da Nike Skateboarding.
Além disso, Leticia também foi campeã do Maloof Money Cup (2009), foi eleita “Personalidade do Ano” pela revista Época (2009), ganhou uma personagem no lendário game Tony Hawk’s Pro Sater 5, foi a única brasileira nomeada pela revista Forbes na lista Under 30, como uma das mulheres mais poderosas do mundo esportivo; e é patrocinada pelas maiores marcas e empresas do mundo: Nike, Red Bull, GoPro, Beats by Dre, além das brasileiras Oi e Petrobras.
Com quatro milhões de seguidores no instagram ela também influencia e muito com sua trajetória de sucesso e seu lifetyle único.
Para quem não sabe, Bufoni possui uma série no Canal Off, o “Leticia Let’s Go”, que se mantém na grade de programação para quem quiser assistir. Ufa!
O B+ falou com exclusividade com o fenômeno Leticia Bufoni entre sua estada em Tokyo e sua chegada em Los Angeles na Califórnia aonde mora, e olha, não foi nada fácil (risos).
A skatista fala de seu início, dificuldades, persistência, de ser inspiração para mulheres em todo o mundo, e claro, das Olimpíadas...
CE - Porque não o futebol? Você chegou a receber até convite profissional...
LB – Eu comecei a jogar futebol na rua com os amigos até que veio a moda do skate e minha turma começou a andar, eu quis experimentar e não larguei mais, me identifiquei e o gosto pelas rodinhas falou mais alto.
CE - E o kart?
LB - O kart foi outra coisa que conheci desde menina também. O meu pai me levava em uma pista na época e cheguei a ganhar a primeira competição que eu participei.
Até hoje sou apaixonada por carros, fiz um curso profissional de drift com o Diego Higa e sempre que consigo pratico esse esporte também.
CE - Em que momento você decidiu morar fora do país e porquê?
LB - Eu me mudei com 13 para 14 anos de idade, quando eu percebi que era necessário para poder seguir a carreira como skatista.
Comecei a ser chamada para participar dos campeonatos nos Estados Unidos, que é o berço do skate e onde acontece o X-Games, o maior campeonato mundial de skate no planeta.
CE - Como foi?
LB – Foi bem difícil, eu era uma criança, não sabia falar inglês, estava começando uma carreira e nunca tinha morado sozinha, que dirá fora do país e sem a presença dos meus pais ou de alguém da família, então foi bem desafiador, mas ao mesmo tempo foi uma escola e a base para eu chegar onde cheguei.
CE – Ficar fora do Brasil como foi e é?
LB – Eu moro nos Estados Unidos até hoje. Amo o Brasil, vou com frequência, mas construí minha vida nos EUA e não me imagino saindo daqui.
CE - Como é a sua relação com a família?
LB – É ótima! Minha família mora no Brasil e a gente sempre se encontra quando vou para lá.
CE - Você quebra tabus, virou uma característica? (risos)
LB – Eu trouxe uma nova cara para o skate feminino que ainda não existia.
Fui uma das primeiras meninas a andar de skate vestindo calça legging, depois comecei a pintar o cabelo de rosa, e esse estilo marcado, serviu de inspiração para mais meninas entrarem para o skate.
Espero que eu continue inspirando as próximas gerações, e que o skate feminino continue crescendo e sem ser um tabu, mas sim com muito respeito entre os atletas.
CE - Quando os campeonatos foram suspensos devido a pandemia como era a sua rotina?
LB - Para mim como atleta foi bom ter essa pausa causada pela pandemia.
No meu caso foi um momento em que eu vinha me recuperando de algumas lesões, então consegui usar esse tempo maior a meu favor para me recuperar melhor, além de passar mais tempo com a minha família ficando no Brasil.
Os meus treinos não foram afetados, o que aconteceu foi mais o processo de adaptação para eu poder continuar trabalhando em casa, fazendo os treinos físicos, skate, fisioterapia, tudo.
CE - Você é uma mulher que abriu o caminho para outras no skate, como é ocupar essa posição e ter essa responsabilidade?
LB – É incrível, e tudo o que eu sempre quis, ser a referência feminina que eu não tive quando comecei a andar de skate.
Recebo muitas mensagens de crianças me perguntando como convencer os pais a deixa-las andar de skate, e até de pais querendo ajuda para ensinar os filhos.
CE – Olimpíadas... Conta para gente?
LB – Foram os momentos de maior ansiedade, com certeza. Mas foi muito divertido, eu dividi o quarto com a Rayssa, procurei aproveitar cada momento com o time e a gente se divertiu muito, treinou muito e torceu muito também.
CE - Ser a inspiração da pequena Rayssa, o que significa pra você?
LB – Significa muito para mim e para o skate feminino também.
Ela chorou quando me conheceu com 5 anos de idade porque já se inspirava em mim, hoje ela é uma atleta olímpica, que competiu junto comigo e levou a medalha para o Brasil, então hoje ela que é uma inspiração para mim. Isso é incrível e muito importante para o crescimento do skate feminino.
CE - Você não só inspira como influencia, como você enxerga esse papel?
LB - Eu sempre fui muito decidida em continuar no skate e superar os preconceitos que eu passei no começo de tudo, quando eu não tinha referências femininas para me espelhar, meu pai também não aceitava porque achava que não era coisa pra menina e que era coisa de “maloqueiro”, e os meninos que andavam nos mesmos lugares que eu botavam pressão pra eu não estar ali, ameaçavam me bater, falavam pra eu ir pro fogão e por aí vai....
Aí eu comecei a andar de skate do meu jeito e querendo ser a referência que eu não tive, principalmente para as meninas.
Comecei a andar de skate de um jeito que ninguém andava, usando legging, maquiagem, com as unhas e o cabelo pintados de rosa, além de ganhar dos meninos nas competições também.
Então hoje eu vejo meu papel muito forte nesse sentido, de mostrar que o skate é um esporte, uma profissão, que para ser skatista precisa ter disciplinas e não gênero, que é um esporte sem gênero e que as mulheres podem andar como elas se sentirem confortáveis.
Fico muito feliz de poder influenciar mulheres a entrarem para o skate e de tornar o skate um esporte e diversão para todos.
CE - A importância do skate nas Olimpíadas na sua opinião?
LB - A entrada do skate nas Olimpíadas traz a confirmação de ser um esporte. Eu vejo como uma nova conquista para o skate, porque é uma modalidade que ainda está no processo de ser vista como esporte, como algo sério, como uma profissão, e também como esporte que não é só para homens.
O skate profissional exige muito treino físico, dentro e fora da pista, muitos exercícios de força, agilidade, resistência, além de fisioterapia, terapia...
É um esporte que está crescendo principalmente entre as mulheres.
CE - Chegar em uma Olimpíadas o que significou para você?
LB – Foi a realização de um sonho. Eu ando de skate há 20 anos e quando comecei nem imaginava que seria uma atleta olímpica.
CE - Um mensagem...
LB - Nunca deixei que te impeçam de fazer e ir atrás do que você sonha.