Correio B

MÚSICA

Morre o pianista João Carlos Assis Brasil, músico versátil e sem preconceitos

Pianista aproximou a música erudita para a maioria do público

Eduardo Miranda

06/09/2021 - 22h16

Morreu na manhã desta segunda, 6, aos 76 anos, o pianista João Carlos Assis Brasil. Músico versátil e sem preconceitos, ele dedicou-se tanto ao chamado universo erudito quanto à música brasileira. Mostrou, assim, como a fronteira entre esses dois mundos é menos rígida do que se imagina. E deixou gravações de referência de autores como Ernesto Nazareth e Villa-Lobos, centrais na nossa percepção do repertório nacional.

Assis Brasil começou sua trajetória dentro dos moldes do pianista clássico. Em 1965, foi o terceiro colocado no Concurso Internacional Beethoven de Viena, na Áustria, ficando em terceiro lugar. Na cidade, aproveitou para se aperfeiçoar com os professores Richard Hauser e Dieter Weber, tocando ainda com a Filarmônica de Viena.

A experiência na Áustria lhe abriu as portas para um circuito de apresentações em salas importantes, como o Wigmore Hall de Londres, a Sala Brahms de Viena ou o auditório da Família Meneghine em Milão. São apenas três dos teatros em que se estabeleceu como recitalista ao longo dos anos 1970.

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Na década seguinte, no entanto, sua trajetória se tornaria ainda mais ampla. De volta ao Brasil, seu contato com a pianista Clara Sverner, ela também uma musicista afeita à combinação de repertório, fez com que ele começasse a interpretar sistematicamente autores brasileiros que, até então, eram vistos como capítulos menores da música do país.

Entre eles, um destaque importante foi Ernesto Nazareth. O olhar para sua obra na verdade foi uma porta de entrada para uma reavaliação de todo o período da chamada Belle Époque carioca, no início do século 20.

Foi então que autores como Nazareth e Chiquinha Gonzaga não apenas estabeleceram elementos de uma escola de piano brasileira como mostraram as possibilidades de combinação entre o erudito e o popular, que pouco mais tarde influenciara compositores como Heitor Villa-Lobos.

Esse olhar amplo para a criação musical não se limitou à música brasileira. Em 1982, ele e Clara Sverner gravaram um álbum no qual uniam obras de Scott Joplin, compositor norte-americano responsável, entre outras coisas, pelo desenvolvimento do ragtime, e Erik Satie, autor de vanguarda francês cujas miniaturas propunham uma reavaliação do uso do piano dentro do contexto da primeira metade do século 20. Os dois colaboraram também em um álbum com obras de Gershiwn, Ravel e Fauré.

Ao mesmo tempo, Assis Brasil começou seu trabalho com o jazz. Em 1980, fundou, com Zeca Assumpção (baixo) e Cláudio Caribé (bateria), o João Carlos Assis Brasil Trio, que mais tarde contaria com a participação de David Chew (violoncelo) e Idriss Boudrioua (sax).

Passou também a se apresentar com artistas como Maria Bethânia, Zizi Possi, Alaíde Costa, Olívia Byington e Ney Matogrosso. E foi solista em concertos com a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a Orquestra Sinfônica Brasileira, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência de Eleazar de Carvalho e John Neschling, entre outros maestros.

Sua discografia tem peças marcantes, como Todos os pianos, Villa-Lobos por João Carlos Assis Brasil e Self Portrait (com obras de seu irmão, Vitor Assis Brasil).

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