O tempo como escultor de ruínas
A solidão para o idoso é uma preocupação que precisa ser falada. Uma pesquisa realizada pela Sociedade de Geriatria e Gerontologia de São Paulo, com cerca de dois mil homens e mulheres acima dos 55 anos, revelou que 37% dos entrevistados não pensam sobre como irão envelhecer e que, destes, 54% não se sentem velhos.
A pesquisa revela, ainda, que o medo mais comum nessa idade é o de ficar sozinho à medida que os anos passam, medo da solidão, somado ao temor de depender das pessoas ou ter alguma doença.
Dizem que é comum que as relações sociais se estreitam com o tempo. Quando mais se precisa de contato o ciclo de amigos diminui, vejam só. E um dos fatores que contribui para essa reclusão é a aposentadoria. Longe do trabalho e do contato diário com pessoas, o idoso tende a ficar mais tempo em casa, algo que se, não houver um acompanhamento de perto, pode trazer algumas dificuldades.
Por isto a chamada terceira idade é um grupo mais propenso a algumas patologias, tais como: problemas cardiovasculares, Alzheimer, doença de Parkinson, demência e depressão. A solidão pode potencializar o desenvolvimento de tais doenças e desencadear outras.
Recentemente mais uma amiga trocou o conforto do lar pela segurança em uma casa de repouso, numa linda cidade no interior de São Paulo. Era um plano antigo. Não queria incomodar os filhos com cuidados, visitas a médicos e, sobretudo, não queria ficar sozinha. Mesmo com vida financeira consolidada, várias propriedades à disposição, preferiu recolher-se a depender de ajuda externa, que, vamos combinar, nem sempre são feitas de boa vontade.
Outra amiga, já contei aqui, foi para o retiro dos artistas no Rio de Janeiro.
Contudo, e apesar de saber que a solução é perfeita, inda não me acostumei com a ideia. Sou do tempo que as pessoas cuidavam dos seus pais e avós até o fim. E antes disto conviviam com eles, aproveitavam cada minuto de sabedoria e experiência. Mas parece que o tempo é cada mais exíguo, ninguém tem mais tempo nem para si mesmo, o que dirá para os seus
Certa vez alguém me disse que envelhecer só é tolerável se for com dinheiro. Com ele você pode viajar, passar temporadas em clínicas de saúde, e o melhor de tudo – segundo ela – pode abrir a bolsa para ajudar quem precisa. Não deixa de ser interessante esta visão romantizada da velhice. No entanto, é para poucos.
O resto do mundo real é obrigado a conviver com todas as dores, internas e externas e sem o direito compartilhá-las, é bom destacar. Afinal, quem quer ser aquele “velho chato que vive reclamando? ”. Não por acaso a sociedade nos deu um script a ser seguido: nascer, crescer, formar, casar, ter filhos, netos e arrumar algo para se distrair e não incomodar os outros. E enquanto pudermos consumir somos toleráveis. Do contrário a serventia é limitada.
Quando muito, uma mísera aposentadoria, que muitas vezes é dividida com filhos, quando não tomada integralmente. Para esses velhos não há saídas dignas. Não há casas de repouso, nem viagens, nem visitas, saúde tampouco. Nosso País continua envelhecendo e a maioria dos jovens e dos que estão no Poder, fingem que eles não existem. São apenas geradores de despesa.
Uma das causas mais frequentes da depressão é justamente a sensação de inutilidade, e a sensação de que foi esquecido. Quem não tem uma bolsa recheada fica à mercê da boa vontade ou, parafraseando a personagem Blanche DuBois de Tennesse Williams, na peça “Um bonde chamado desejo”, dependendo da bondade de estranhos.
Quando isto acontece é porque todos os outros falharam. Pessoas e sistema. Tudo o que o idoso precisa é sentir-se amado e, claro, cuidado. Algo tão simples, mas tão difícil num mundo onde se prioriza o dinheiro e a juventude. E como Nelson Rodrigues nunca envelhece, é sempre bom lembrar de uma das suas frases mais emblemáticas: “Jovens, envelheçam”.