Por Ana Claudia Paixão
A volta de um evento onde as estrelas estavam presentes, depois de um ano e meio entrando na casa delas ou nos quartos de hotéis, garantiu um clima feliz e animado.
Ainda por questões de segurança e distanciamento, o cenário do Emmy 2021 foi bem diferente dessa vez, mas funcionou.
Trouxe um ar mais intimista à festa e ter Kate Winslet como cenário involuntário não é algo ruim.
O mestre de cerimônias foi Cedric, the Entertainer, que fez um bom trabalho, moderado e sem incômodo para os convidados. Como era de se esperar, Ted Lasso e The Crown foram os grandes vencedores de uma noite com poucas surpresas.
Tobias Menzies foi uma novidade e um reconhecimento por seu trabalho em outras séries até aqui, como Outlander, Roma e até uma ponta em Game of Thrones.
Sua visão de príncipe Philip na casa dos 50 anos é bem distinta da que Matt Smith tinha apresentado nas duas primeiras temporadas de The Crown.
Havia uma expectativa que nessa categoria o ator Michael K. Williams, que faleceu há poucas semanas, fosse o vencedor por Lovecraft Country.
Eu particularmente gostei mais de Giancarlo Esposito em The Mandalorian. Ambas opções teriam balanceado o que já está sendo chamado de #emmyssowhite e teriam sido mais justificadas.
Mas, era a noite de The Crown, ninguém tinha dúvida.
A vitória de um emocionado Josh O’Connor foi fofa de testemunhar. Josh tinha um desafio, trazer simpatia e humanidade à uma personalidade impopular como a do príncipe Charles.
Na terceira temporada da série, absorvendo com perfeição os maneirismos e fala do príncipe, Josh conseguiu fazer com que o público até se emocionasse com Charles, mas era uma armadilha.
Na 4ª temporada, adotando a narrativa de Diana, em que ele é um homem insensível e inseguro, Josh conseguiu transformá-lo em uma figura mais próxima da que era que conhecíamos e até pior, pois após no solidarizarmos com sua dor, foi mais difícil ver sua evolução.
Em outras palavras, Josh mereceu o reconhecimento. Por outro lado, havia uma expectativa de que nessa categoria Billy Porter (Pose) ou Jonathan Majors (Lovecraft Country) equilibrassem o #emmysowhite.
Sterling K. Brown já tinha levado por This is Us, mas também era uma aposta ainda maior que Josh. É assim que a gente, que gosta de prêmios, se frustra quando a festa acaba.
Outra surpresa da noite, que até a própria atriz ficou genuinamente chocada, foi a escolha de Olivia Colman (Rainha Elizabeth II) em vez de Emma Corrin (princesa Diana).
Olivia é uma atriz espetacular e uma estrela na Inglaterra há décadas, mas desde que o resto do mundo a descobriu por seu Oscar em A Favorita, passou a ser, bem “favorita” em tudo que aparece.
Emma tinha levado todos os prêmios até aqui, justamente porque raramente estava na mesma categoria que a veterana. Achei injusto pois a atuação de Olivia em The Crown não é unanimidade.
Ela não consegue errar, mas me pareceu um pouco exagerado premiá-la aqui. Se era para evitar o óbvio, a história poderia ter sido feita com o reconhecimento de MJ Rodriguez, a primeira atriz trans indicada e que merecia o prêmio por sua sensível e emocionante atuação em Pose.
Ewan McGregor ter levado o prêmio por Halston não foi surpresa.
A categoria tinha forte representantes britânicos, como Hugh Grant por The Undoing e Paul Bettany por WandaVision, mas dois atores concorrendo por Hamilton (Leslie Odom Jr e Lin-Manuel Miranda), o que dificultava a escolha.
A atuação de Ewan não foi unanimidade de crítica ou amigos do estilista, mas ele captou bem as características de fala e gestuais de Halston, então não foi exatamente uma “zebra”.
E Gillian Anderson, como Margaret Tatcher em The Crown, era uma vitória anunciada também.
Ted Lasso, por outro lado, não há o que dizer. As vitórias foram merecidas.
Todas. O desafio agora é sobreviver à febre que colocou a série no patamar de fenômeno porque com a popularidade vem também rejeição.
Até o momento todo hype está justificado e a série foge do obvio em toda narrativa, mantendo a positividade e um clima alegre, inspirador e emocionante.
Agora que já falaram da terceira temporada, terá a grande prova.
Nas minisséries, a HBO mantém seu favoritismo sobre Netflix.
As vitórias de Hacks e Mare of Easttown solidificam a marca da plataforma. Hacks é uma pérola escondida no HBO Max com uma genial Jean Smart em um papel difícil, de uma comediante septagenária tendo que se adaptar aos millenials.
É sagaz, é inteligente e mereceu os prêmios que levou.
Mare of Easttown era a grande favorita, mas The Queen’s Gambit deu o cheque-mate na categoria de Melhor Minissérie, para fechar a noite em suspense.
Embora seja uma grande série, com ótimas atuações e viradas, nenhuma das duas está no patamar de WandaVision, que saiu sem nenhum prêmio quando merecia pelo menos esse.
Dentro do possível, a premiação foi justa em reconhecer os grandes sucessos de 2020, um ano difícil para todos.
A discussão da falta de inclusão nos resultados se mantém a cada festa. Insecure, de Issa Rae, por exemplo, passou batido com o atropelo de Ted Lasso.
Talvez seja indicada em 2022, pela temporada final que está para estrear. Seria lindo ver vencedores de todas as raças e cores, mas o mundo ainda não está lá.
O que de fato fica claro é que “a invasão britânica” – reforçada com Ted Lasso e The Crown, é uma realidade nas plataformas atualmente.
Mas não é algo ruim, é que não se consegue premiar a todos.
O Emmy é o último prêmio do ano, meio fora da temporada. A partir de agora, começa a discussão de Oscar, SAG, BAFTA e Golden Globes, entre outros. E isso significa que será sobre 2022. Uau, mais um ano que se encerra!