Nos últimos meses, têm aparecido com mais frequência, principalmente nas redes sociais, as chamadas canetas emagrecedoras, ou seja, medicamentos injetáveis que têm a capacidade de ajudar no combate à obesidade.
Nem sempre é fácil perder peso. Por saúde ou por estética, algumas pessoas buscam diminuir a gordura corporal, mas por diversas questões acabam não conseguindo manter uma alimentação balanceada e a prática de exercícios físicos necessários para a perda calórica.
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Neste percurso, alguns medicamentos já aprovados no Brasil podem ser prescritos para auxiliar na diminuição do apetite e no aumento da saciedade, aquela sensação de satisfação após a alimentação.
“Alguns medicamentos injetáveis [conhecidos pelos nomes comerciais de Victoza, Saxenda, Trulicity e Ozempic] estão sendo utilizados aqui no Brasil para emagrecimento. Eles são da classe de medicações chamada Análogos do GLP-1”, explica a médica endocrinologista Renata Antonialli.
Segundo Renata, no Brasil, apenas a Liraglutida, conhecida pelo nome comercial de Saxenda, está aprovada em bula para o tratamento da obesidade.
“As demais estão aprovadas em bula para tratamento de diabetes, porém, são utilizadas por alguns médicos para emagrecimento [o que chamamos de uso ‘off label’, fora da bula]”, complementa.
O GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo corpo por meio das células do intestino e que age sobre a glicose e sobre a saciedade de diferentes formas.
“Essas medicações imitam a ação desse hormônio, funcionando de várias maneiras no nosso corpo”, pontua.
As medicações agem no centro da fome, localizado no hipotálamo, sinalizando a sensação de saciedade e diminuindo o esvaziamento gástrico, mecanismos esses que auxiliam na perda de peso.
Eles também aumentam a secreção de insulina quando nos alimentamos, reduzem a secreção de glucagon e inibem a produção de glicose pelo fígado, que auxiliam no controle da glicose no sangue.
“Por causa dessas ações, os medicamentos são usados tanto no tratamento da diabetes quanto no tratamento da obesidade”, frisa Renata.
Segundo a médica, as canetas se popularizaram nos últimos meses em virtude do resultado.
“Elas têm uma eficácia bem interessante na perda de peso quando comparadas com outros medicamentos disponíveis no Brasil, e principalmente pelo perfil de segurança que essas medicações possuem, particularmente do ponto de vista cardiovascular”, pontua.
Uso
O tratamento só é indicado para a perda de peso e para pessoas com índice de massa corporal (IMC) de 30 kg/m² ou maior (obesidade) ou de 27 kg/m² ou maior (sobrepeso), associados a problemas de saúde relacionados ao peso.
Problemas de saúde relacionados ao peso podem ser diabetes, pressão arterial elevada, níveis anormais de gorduras no sangue, problemas respiratórios durante o sono chamado de apneia obstrutiva do sono.
“A Liraglutida [Saxenda], que é a única aprovada em bula [até o presente momento] dessa classe de medicamentos para o tratamento de obesidade no Brasil, é aplicada via subcutânea, uma vez ao dia”, pontua Renata.
Ou seja, a pessoa precisa aplicar a medicação com uma agulha na camada adiposa, que fica por baixo da pele, na gordura subcutânea e, normalmente, na região abdominal.
Porém, outras medicações, como o Ozempic e o Trulicity (ambas aprovadas para tratamento da diabetes), são aplicadas 1 vez por semana.
“No entanto, a Semaglutida [Ozempic], que atualmente é aprovada em bula para tratamento de diabetes, foi aprovada recentemente para tratamento de obesidade nos Estados Unidos com o nome de Wegovy. Ela é aplicada via subcutânea uma vez por semana e acredita-se que em breve teremos também essa aprovação aqui no Brasil”, ressalta.
Efeitos colaterais
Como qualquer medicamento, as canetas também podem apresentar efeitos colaterais.
“Os mais frequentes que podem acontecer são náuseas, vômito, diarreia e constipação. Estes sintomas normalmente tendem a desaparecer após alguns dias ou semanas de uso da medicação”, frisa.
De acordo com Renata, o tempo de uso depende de cada paciente.
“A resposta ao tratamento vai depender de inúmeros fatores individuais, mas quando bem indicados costumam ter uma eficácia interessante. O tempo de uso desses medicamentos vai ser determinado pelo médico que está acompanhando esse paciente”.
Além disso, uma alimentação saudável e a prática de atividade física são imprescindíveis.
“Todo o tratamento para a perda de peso deve incluir principalmente uma dieta hipocalórica e a prática de exercício físico. Além disso, um bom funcionamento do intestino, um sono de qualidade e o controle do estresse também auxiliam no emagrecimento e na qualidade de vida desse indivíduo”, indica.
Outro alerta é que eles só devem ser utilizados com acompanhamento médico.
“Qualquer medicamento deve ser indicado, prescrito e acompanhado por um médico, pois existem contraindicações, possíveis efeitos colaterais, além da questão do ajuste de dosagem da medicação conforme avaliação. Nenhum medicamento deve ser usado por contra própria, pois esses não são isentos de riscos à saúde”, acredita.
Medo e preconceito
De acordo com a médica, atualmente, temos três substâncias aprovadas para o tratamento de obesidade no Brasil, sendo elas Liraglutida, Sibutramina e Orlistate.
A segunda ficou muito famosa no País há alguns anos, mas acabou sendo alvo de medo e desconfiança da população.
“Em relação à Sibutramina, há um preconceito principalmente porque ela foi mal utilizada no passado. Ela é uma medicação da classe dos inibidores seletivos da receptação de serotonina e noradrenalina, que atua causando saciedade no corpo do paciente", frisa Renata.
Assim como qualquer medicamento para o tratamento de obesidade, existem as contraindicações ao uso da sibutramina e, infelizmente, muitas vezes essas contraindicações não eram respeitadas, aumentando principalmente o risco cardiovascular quando mal utilizada”, acrescenta.
Porém, segundo a médica, se prescrita adequadamente, a medicação é eficaz.
“Quando é escolhido o perfil de paciente adequado, sem contraindicação, ela é uma droga extremamente segura e eficaz. Por isso é importante a avaliação de um especialista, no caso, o endocrinologista, para indicar o tratamento de obesidade. Não é porque o tratamento é para emagrecer que ele serve para qualquer paciente”, ressalta.
Outro temor de quem faz uso de medicamentos para emagrecer é o efeito sanfona, caracterizado pelo retorno do peso anterior após a finalização do tratamento.
“A primeira coisa importante para ressaltar nesse caso do término do tratamento é que a obesidade é uma doença crônica, assim como diabetes e hipertensão, e deve ser tratada por toda a vida. Pode ser que em um primeiro momento o paciente utilize uma determinada medicação para auxiliar na perda de peso. Depois que aquele paciente perder peso, vai entrar em uma fase de manutenção, quando a medicação pode ser mantida ou trocada, ou ainda seja indicado outro tipo de tratamento”, afirma.
Porém, o que ocorre é que alguns pacientes interrompem o tratamento por conta própria quando atingem o peso desejado ou ainda voltam a ter os mesmos hábitos anteriores à medicação, sem uma alimentação saudável ou prática de atividades físicas.
“Grande parte desses pacientes depois que alcança o peso desejado interrompe a medicação por conta própria, para o acompanhamento médico e volta aos hábitos antigos. Com isso, o ganho de peso retorna, algo tão temido pelos pacientes”, acredita.