Que tal um arroz selvagem para animar o paladar? Oryza rufipogon griff (o antigo Oryza latifolia desv) e Oryza glumaepatula steud são os nomes científicos das duas espécies de arroz nativas do Pantanal, também conhecidas como arroz-do-brejo, arroz-do-campo ou simplesmente arroz selvagem, que os índios Guató costumavam chamar de “machacho”.
Das mais de 100 espécies vegetais nativas do Pantanal sul-mato-grossense – seriam mais de 300 em todo o Estado – que apresentam potencial alimentício, o arroz selvagem ganha destaque por se encontrar entre as que caíram em desuso na dieta dos povos indígenas que habitam a região da várzea do Rio Paraguai.
De brotação natural, sem necessidade de cultivo quando as cheias do Paraguai ainda eram bem mais que uma miragem, esse tipo de arroz costumava ser item obrigatório no cardápio das aldeias.
Os Guató faziam a coleta dentro das canoas. A descrição feita por pesquisadores como Isamara Carvalho Ferreira e Sandro Menezes Silva, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), tem cheirinho de poesia: conta-se que, na época de produção dos frutos, durante o mês de junho, bastava colher os ramos férteis e bater dentro das canoas para enchê-las de grãos em pouco tempo.
Com a quase extinção da etnia, apesar da criação de uma reserva indígena em 1996, na fronteira com a Bolívia, o consumo do arroz nativo do Pantanal virou passado. Ou quase.
A partir de 2016, uma força-tarefa envolvendo o Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado (Ceppec) e outras instituições como a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e a Associação de Pescadores Artesanais de Iscas Vivas de Miranda (Apaim) busca engajar populações não indígenas para a identificação das espécies, o acompanhamento da maturação e a colheita.
Barra do São Lourenço, Porto Amolar, São Francisco e Porto Índio são algumas das comunidades pantaneiras que acolheram a experiência. Mas a pecuária e os incêndios ambientais, mais do que uma ameaça, provocam a devastação que não sai das manchetes diárias, e que os longos períodos de seca só ajudam a aumentar.
A produção, assim, não decolou. As comunidades de Barra do São Lourenço e do Castelo, por exemplo, produzem apenas 200 quilos por ano.
É uma pena. Nas palavras dos pesquisadores da UFGD, o arroz do Pantanal tem “sabor agradável, sendo uma excelente opção para risotos e saladas, com teor proteico e vitamínico maior do que as variedades de arroz integral encontradas no mercado.
Pratos tradicionais da culinária pantaneira, como o carreteiro e a galinhada, podem ser elaborados usando o arroz nativo, adequando o tempo de cozimento em função do maior teor de fibra dos grãos. A coloração vermelha dos grãos dessa espécie ainda pode ser empregada como pigmento natural em corantes alimentícios”.
Reviva essa tradição com uma receita de arroz pantaneiro, você não vai se arrepender. Em Campo Grande, é possível encontrar a iguaria em empórios de slow-food ou mesmo em supermercados, mas somente de outras procedências, como Santa Catarina.
Dica: experimente uma variação da receita misturando com um pouco de arroz branco. E não se esqueça: leva em média 40 minutos para atingir o ponto de cozimento.
Arroz Pantaneiro
Ingredientes
- 2 copos de arroz selvagem;
- 3 colheres (sopa) de óleo de milho, de girassol ou de soja;
- 1 cebola roxa picada;
- 1 colher (chá) de alho picado;
- 250 gramas de linguiça ou calabresa fatiada em rodelas;
- Sal a gosto.
Modo de preparo
Em uma panela, coloque o óleo, a cebola, o alho e refogue bem. Em seguida, coloque o arroz, mexendo um pouco para dar uma leve torradinha. Coloque água para cobri-lo e sal. Quando estiver quase cozido, adicione a linguiça para que cozinhe junto. Se necessário, vá acrescentando água até chegar ao ponto. Para enriquecer o prato, sirva com castanhas.
Rendimento: Quatro porções
Fonte consultada: Portal Sabores do Cerrado e Pantanal (sabores.ufms.br)