Quem passou pelo cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua José Antônio Pereira, ontem pela manhã, viu um movimento diferente no obelisco em homenagem a Pereira, fundador de Campo Grande. Dividindo o espaço com os pássaros e com outros pequenos animais que circulam por ali estavam quatro operários, sob a supervisão da arquiteta Tathyane Sangalli.
A missão da equipe, desde sexta-feira, é concretizar a revitalização do monumento, que foi inaugurado em 26 de agosto de 1933, fazendo história, uma vez que foi erguido no local como marco divisor entre a parte urbana e o rocio (zona rural) de Campo Grande.
Obra maturada
A intervenção promete ser profunda e cuidadosa, já que trata-se da primeira vez que o monumento passa, de fato, por um restauro. Em outras oportunidades, ao longo de décadas, apenas reformas ou pequenos reparos foram realizados.
Desta vez, o processo assemelha-se à restauração de uma antiga obra de arte ou de um imóvel de valor histórico e deve se estender por cinco meses, segundo a arquiteta. “Todo restauro tem seu tempo, não adianta fazer em 30 dias, por conta dos processos dos materiais”, afirma Tathyane Sangalli.
“A argamassa de cal, por exemplo, precisa de 60 dias para maturar”, acrescenta.
O relógio gira em um ritmo diferente se compararmos com uma reforma comum, por mais que os atrasos façam parte da história de qualquer obra de construção civil. A suposta lentidão, portanto, faz parte da técnica nesse caso.
“Nosso trabalho também é preservar essa forma de erguer e de construir”, justifica. Trata-se de uma edificação antiga, com uma técnica antiga e com materiais antigos, explica a supervisora. O monumento tem, aproximadamente, 80 metros quadrados de área construída e 20 metros de altura até o topo do obelisco.
“Na prospecção pictórica, identificamos 13 camadas de tinta”, informa Sangalli. “Temos que analisar para ver se são tintas compatíveis; às vezes o tipo de pintura danifica a argamassa, então é um trabalho de microscopia mesmo antes do lixamento para a remoção de todas as camadas”, detalha.
Inicialmente, foi feita uma análise das pinturas e da argamassa para verificação da compatibilidade dos materiais empregados ao longo dos anos.
Depois, na atual etapa do restauro, a equipe põe, literalmente, a mão na massa para a execução dos procedimentos: remoção das 13 camadas de tinta, substituição das argamassas incompatíveis, consolidação das rachaduras (calafetagem) e repintura com tintas adequadas.
A intervenção prevê ainda obras no sistema de drenagem, de iluminação, de impermeabilização e de sanitização, além de paisagismo na faixa de gramado que circunda o monumento e de uma possível estrutura de acessibilidade.
HISTÓRIA E PRESERVAÇÃO
O obelisco data da gestão do então prefeito Ytrio Corrêa da Costa e foi erguido a partir do projeto assinado pelo engenheiro Newton Cavalcanti, comandante da Circunscrição Militar na época.
Além dessas informações em alto-relevo, o monumento apresenta uma efígie de José Antônio Pereira (1825-1900). “Não tem sequer uma viga de concreto, é uma alvenaria portante, ela própria se sustenta toda no tijolo, no centro de uma cidade. Por isso, tem que preservar”, defende Sangalli.
“Para mim, é um superorgulho voltar a mexer com essa parte histórica, gostaria de fazer um canteiro aberto para receber estudantes e outras pessoas interessadas durante nosso trabalho; assim, vendo o que é feito, a população percebe a importância e passa a cuidar. Temos bons exemplos anteriores de quando chamamos as pessoas para participar”, afirma.
Pacote
Max Freitas, titular da Secretaria de Cultura e Turismo de Campo Grande (Sectur), afirma que é importante aliar cultura e turismo. “Além disso, são pontos turísticos, precisamos manter e preservar todos esses monumentos históricos. A proposta deste ano não é somente o obelisco”, diz o secretário.
“Lançamos um pacote de revitalização dos monumentos. O primeiro foi O Aprendiz, na saída para São Paulo, já entregue após revitalização; iniciamos o restauro dos pioneiros, mais conhecidos como os desbravadores, que pretendemos entregar no mês que vem; realizamos a entrega da escultura do beijo no Lago do Amor; iniciamos o obelisco e ainda vamos fazer o ninhal na Afonso Pena”, completa.
Os custos da intervenção no obelisco são de aproximadamente R$ 100 mil. De acordo com a Sectur, o processo de revitalização foi viabilizado por meio de um Termo de Acordo entre o Ministério Público e a Prefeitura Municipal, relacionado à demolição do imóvel localizado na Rua Barão do Rio Branco nº 1.406, inserido na Zona Especial de Interesse Cultural – ZEIC, nos termos da Lei Complementar nº 161/2010.