Correio B

FORMAÇÃO

Samba de Corumbá será ensinado em outras cidades

Oficinas gratuitas em Campo Grande, em Bonito e em Corumbá desvendam os segredos de instrumentos percussivos e propagam a arte do Carnaval para estudantes

Um conhecido pagode do carioca Arlindo Cruz, logo no primeiro verso, repete a máxima que está no título de um curta-metragem baiano dos anos 1970: 

“Samba não se aprende no colégio”. Mas, cá entre a gente, você sabe o que é um reco-reco? Ou a diferença entre um pandeiro e um tamborim? E como dançar um samba-enredo da forma mais correta, tecnicamente falando? Aliás, existe mesmo uma técnica que permita a alguém sambar de um jeito mais adequado?  

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Para dominar – ou ao menos ter uma iniciação – esses conteúdos, estudantes, apaixonados pelo samba, foliões do Carnaval ou simplesmente interessados em aprender a tocar um instrumento percussivo estão tendo a oportunidade de frequentar oficinas gratuitas em Campo Grande, em Bonito e em Corumbá.

Por meio de diferentes rubricas, duas iniciativas que contam com recursos da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul transformaram esse animado universo de sons, de cores e de movimentos bem brasileiros em assunto de sala de aula. 

O projeto MS Meu Samba, depois de três meses de atividades de formação promovidas por escolas de samba adultas e mirins da Capital, começou os trabalhos em Corumbá no início deste mês. 

Nove oficinas serão oferecidas até o mês de dezembro, sempre das 18h às 21h, de quarta a sexta-feira, nas agremiações carnavalescas da cidade, sob a coordenação geral da Liga das Escolas de Samba de Corumbá (Liesco).

De 3 a 5 de novembro, a Mocidade Independente Marquês de Sapucaí realizou a oficina de bateria. De quarta a sexta-feira da semana passada, três escolas ofereceram aulas: molde para fantasia de Carnaval na Estação Primeira do Pantanal; direção de Carnaval na Unidos da Major Gama; e “samba no pé” na Acadêmicos do Pantanal. 

De 24 a 26 de novembro, mais duas: a escola de samba A Pesada, fundada em 1970, sedia a oficina para formação de mestre-sala e de porta-bandeira; e a Mocidade Independente da Nova Corumbá terá aulas de harmonia e de evolução.

De 1º a 3 de dezembro, mais três entidades finalizam o mergulho de capacitação para a folia do Rei Momo. A Imperatriz Corumbaense vai ministrar oficina de confecção de adereços para Carnaval. 

A Vila Mamona, fundada em 1980, de costura para indumentárias carnavalescas. E a Império do Morro, fundada em 1958, de comissão de frente. Cada escola teve autonomia na escolha dos instrutores responsáveis por ministrar os cursos.

Auxílio e contrapartida

Victor Raphael de Almeida, presidente da Liesco, afirma que o retorno das primeiras oficinas tem sido bom. 

“Corumbá é uma cidade com uma tradição de Carnaval muito forte, então a gente está tendo uma boa aceitação do público com relação a essas oficinas. Ao fim, as pessoas vão receber certificado de participação”, diz o carnavalesco. “Elas podem fazer quantas oficinas quiserem, e foram delimitadas no mínimo 10 pessoas por curso”, completa.

O MS Meu Samba foi criado como um auxílio emergencial para atender artistas e entidades culturais ante as dificuldades ocasionadas pela pandemia. 

Por meio do projeto, a Fundação de Cultura mobilizou R$ 100 mil a serem repassados para as escolas de samba implantarem a iniciativa em Corumbá. O projeto repassou, para as escolas da Capital, um montante de R$ 250 mil.  

Somente nos quadros das oito agremiações que integram a Liga das Escolas de Samba de Campo Grande (Lienca), o segmento carnavalesco envolve mais de três mil profissionais, de uma faixa etária bem variada, entre os quais instrumentistas musicais, aderecistas, figurinistas, costureiros, mestres de bateria e brincantes.

O presidente da Lienca, Alan Catharinelli, endossa a realização de oficinas como uma forma de retribuição ao auxílio emergencial para os trabalhadores que fazem a festa mais popular do Brasil em Campo Grande. 

“Nos comprometemos a dar uma contrapartida, uma prestação de contas aos recursos recebidos, com o oferecimento de cursos e de oficinas culturais ao longo do ano. Ficamos muito tristes com o cancelamento do desfile [de 2020], mas sabíamos que era necessário para preservar a saúde da população”.  

Oito oficinas foram realizadas na Capital em agosto, em setembro e em outubro: Harmonia; Baianas e Baianinhas; Bateria; A Importância da Direção de Carnaval e do Quesito Harmonia no Desfile da Escola de Samba; Enredo; Passista (duas turmas); e Samba de Enredo: do Enredo ao Samba.

Batuque-se

Nascido e criado na zona oeste de São Paulo, que concentra uma parte expressiva da boemia musical da cidade, o músico Chico Simão está em Campo Grande há 20 anos. 

Simão é o criador do projeto Batuque-se, que desde outubro leva oficinas de percussão a alunos de ONGs e de escolas estaduais de Campo Grande e que chegará a Bonito no fim deste mês. 

Viabilizado com recursos do Fundo de Investimento Culturais (FIC-MS), o projeto volta a atenção para estudantes que estejam entre o nono ano do Ensino Fundamental e o primeiro ano do Ensino Médio.

Utilizando instrumentos de percussão brasileiros e africanos, a exemplo da alfaia (tocada com baquetas para ritmos como o maracatu, o côco e a ciranda, muito comuns em Pernambuco), o agogô (composto por um ou mais sinos pequenos ou médios, normalmente em metal de fina espessura, tocados com apenas uma baqueta), e o djembê (tambor do Guiné, na África Ocidental, com o corpo em forma de cálice, tocado com a palma das mãos), a prática ocorre de forma coletiva e oferece tanto a chance de aprendizagem da técnica instrumental quanto uma percepção musical mais ampla.

Ao mesmo tempo, as oficinas abrem espaço para uma mediação cultural, com a abordagem de temáticas importantes para essa etapa da vida dos alunos. 

“As oficinas de música têm como foco o jovem e seu desenvolvimento”, explica Chico Simão, que estudou na Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim e na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMS).  

“Por meio das aulas de percussão, valores como respeito, paciência, espírito de grupo, liderança, motivação e superação são vivenciados de maneira ordenada através da experiência com a prática musical, com os tambores e com os demais instrumentos de percussão. Além da própria música em si, com aprendizados de ritmos brasileiros em diversos instrumentos”.

Baterista da banda Sarravulho, que já lançou três álbuns, Chico Simão atua com uma série de atividades de formação musical, como a organização de cursos, de workshops, de oficinas e de intercâmbios, trazendo a Campo Grande artistas de outras capitais e de outros países. 

Sua oficina Percussão Vivência Rítmica envolve percussão corporal e a prática coletiva com instrumentos percussivos.

Neste mês, as atividades estão ocorrendo na Escola Estadual Joaquim Murtinho, às segundas e quartas-feiras, a partir das 13h45min. No dia 27 de novembro, Simão promove a oficina em duas escolas estaduais de Bonito – Bonifácio Camargo Gomes e Luiz da Costa Falcão. Mais informações: (67) 98408-4279.

  • Saiba

O MS Meu Samba foi criado como um auxílio emergencial para atender artistas e entidades culturais ante as dificuldades ocasionadas pela pandemia, em Campo Grande e em Corumbá.

O projeto Batuque-se foi viabilizado com recursos do Fundo de Investimento Culturais (FIC-MS), para alunos de Campo Grande e de Bonito.

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