A matéria de Capa dessa semana tem um sabor muito especial.
Eu, Flávia Viana, junto com a minha colega Ana Claudia Paixão, crítica de cinema, apaixonada por musicais e também colunista do Correio B+, entrevistamos em São Paulo uma das principais atrizes e protagonistas de musicais especialmente da Broadway no Brasil, Kiara Sasso.
O cenário da entrevista, o fantástico mundo de Barnum “O Rei do Show” em cartaz no Teatro Opus na capital paulista.
Nossa primeira parada foi nos bastidores de onde começa o “show”, literalmente, e no ensaio de todo o elenco que apreciamos com exclusividade antes de encontramos a Kiara.
A gente confessa! Estávamos com um frio na barriga não só pela entrevista, mas porque seria o nosso primeiro espetáculo pós pandemia e porque estávamos cheias de expectativas com essa montagem da Broadway aqui no Brasil.
Para quem não conhece a história, a figura de P.T. Barnum é associada ao entretenimento, ao diferente e ao circo, em uma constante aposta de magia e festa para agradar ao público.
Ele dizia que sua profissão era ser “showman”, e nada melhor do que, no ano dos 150 anos de sua morte, homenageá-lo nos palcos com a remontagem do musical Barnum.
O musical não é o mesmo do filme “O Rei do Show”, de 2019, mas sim da produção da Broadway de 1980, “Barnum”, estrelada originalmente por Jim Daly, Glenn Close e Terrence Mann.
(Em Londres o elenco foi liderado por Michael Crawford, que deixaria “Barnum” para criar “O Fantasma da Ópera”).
No Brasil, “Barnum – O Rei do Show” ia estrear antes da pandemia, mas só conseguiu abrir as cortinas agora, em uma curta temporada em São Paulo, com o ator Murilo Rosa no papel de Barnum e Kiara Sasso como sua mulher Charity.
A ideia após essa primeira temporada é rodar o país com o espetáculo.
“Barnum – O Rei do Show” é uma linda produção que estreia no Brasil na versão de Claudio Botelho. A história retrata os anos em que Barnum criou o circo, proporcionando não apenas uma atmosfera lúcida, mas a inclusão também.
Ser a esposa de uma pessoa com a personalidade de Barnum não era fácil e interpretar Charity é um desafio.
Foi o papel de estreia de Glenn Close na Broadway, pelo qual foi indicada ao Grammy e ao Tony Awards, virando uma estrela. Para Kiara interpretar essa personagem é uma honra e não poderia ter vindo em um momento melhor de sua vida e carreira.
“Essa personagem veio em um momento muito bacana, porque eu já tenho mais de 40 anos, tenho uma filha, o peso que a gente tem enquanto mulher muda muito depois que você vira mãe. Então essa personagem tem esse pé enraizado no chão, ela é a grande propulsora do sucesso do Barnum e que ele vem a ter”, explica.
Kiara retorna aos grandes musicais de São Paulo com sua 16ª protagonista e sua 24ª produção, celebrando em 2022, 35 anos de carreira.
“Como dizem, ‘O Bom filho à casa torna’ (risos). Estou muito feliz em voltar! Ao mesmo tempo que é muito bom fazer as próprias coisas e produzir, estar em um trabalho somente como atriz e cantora, é muito bom, pois posso focar somente nisso, sem precisar ficar me preocupando com outros aspectos do espetáculo e da produção. Eu consigo realmente empenhar toda a minha atenção e a minha energia no meu trabalho de atriz e de cantora, que é um lugar muito conhecido para mim, e isso é sempre muito gostoso, eu gosto muito”, celebra.
Não há quem não se lembre de Kiara como a Bela de ‘A Bela e a Fera’, espetáculo que a apresentou para o grande público do teatro musical brasileiro.
A produção foi o pontapé inicial para uma sequência de outros papéis emblemáticos como Christine de ‘O Fantasma da Ópera’, Maria de ‘A Noviça Rebelde’, Donna de ‘Mamma Mia’, Emma de ‘Jekyll & Hyde – O Médico e o Monstro’ e Eva de ‘A Madrinha Embriagada’, que lhe rendeu um Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Atriz Coadjuvante, em 2014.
A atriz e cantora, conhecida também por marcantes trabalhos na dublagem e pela novela ‘As Aventuras de Poliana’, do SBT, se reconecta com seu público e resgata a sensação de voltar ao cartaz em uma produção da Broadway.
Confira a entrevista exclusiva que o Correio B+ fez com essa belíssima atriz que dividiu com a gente um pouco de sua carreira, personagens marcantes e a sua volta aos palcos.
CE – Como foi todo esse processo da vinda do Barnum para o Brasil?
KS – Eu ouvi dizer que teria a montagem no Brasil, mas ai veio a pandemia... Depois fui fazer os testes, não conhecia o produtor e nem o diretor, vim a conhecer dessa maneira. Passei nos testes e fiquei muito feliz!
O espetáculo que está em cartaz desde o mês de outubro está muito bonito, ele é muito bonito na verdade. Eu não conhecia a obra antes de fazer o teste, mas pelo que eu vi das obras lá de fora o nosso é ainda mais bonito (risos).
CE – Como está sendo todo o processo pra você que conheceu a obra recentemente?
KS – Olha, é um espetáculo lindo e que chegou em um momento muito bom!
Ele é alegre, pra cima, contagiante, colorido, tem o circo, então depois de tudo que passamos é um espetáculo muito propício pra essa época, não é um dramalhão, nada disso...
É algo para restaurar a esperança no bonito, na cor, na fantasia, é um mundo encantado, então ele realmente veio em um momento muito bom!
CE – E a sua personagem, a Charity? Fala pra gente como está sendo interpretar, compor e dar vida a ela nos palcos?
KS – A referência que eu tinha era do filme, então, é muito diferente o filme da peça. Mas quando eu soube que quem tinha dado vida a Charity na Broadway era a Glenn Close, então eu pensei: “Hum ela deve ser muito legal na peça” (risos).
E não é como a personagem no filme, que ela faz uma aparição muito rápida, ela não participa tanto da história no filme.
E essa personagem veio em um momento muito bacana, porque eu já tenho mais de 40 anos, tenho uma filha, o peso que a gente tem enquanto mulher muda muito depois que você vira mãe. Então essa personagem tem esse pé enraizado no chão, ela é a grande propulsora do sucesso do Barnum e que ele vem a ter.
Ela literalmente arregaça as mangas e faz com que o museu exista, além dela ser feminista em uma época que nem existia isso, ela tinha uma relação de igual para igual com o Barnum, então é muito bacana eu ter essa oportunidade de agora, nesse momento da minha vida fazer a Charity, eu estou adorando!
CE – As pessoas estão relacionando o espetáculo ao filme?
KS – Na história é a mesma pessoa, que no Brasil não é muito conhecido, apesar que nos EUA aprendemos sobre o Barnum nos livros de história de tão importante que ele é para o entretenimento americano e mundial, ele é o criador do circo, ele era um visionário.
E na peça é mais aprofundado, na vida dele, diferente do filme, que é muito bonito, mas ele não é tão profundo como o espetáculo.
As pessoas que assistem ao espetáculo têm adorado sem comparações ao filme e gostando até mais da peça. Então isso está sendo muito bacana porque a gente tinha um pouco esse medo, dessa comparação, mas até agora não aconteceu.
CE – Como é trabalhar com o ator Murilo Rosa?
KS – Eu conheço o Murilo desde que eu tinha 15 anos de idade.
Eu conheci ele muito nova desde um dos primeiros trabalhos no RJ. Então, a gente se conhece há um tempão aí precisou passar 27 anos para trabalharmos juntos.
Ele é um colega muito divertido, generoso, ele veste a camisa, quer fazer o melhor, ele é um grande ator, um grande colega.
Aliás, o nosso elenco é muito bacana, só energia boa, coeso e muito gostoso de trabalhar.
CE – Como que foi a volta com a plateia?
KS – Não sei nem descrever isso gente... Sério!
Palco é uma coisa que vicia, eu faço dublagem, faço televisão, faço cinema, mas nada pra mim chega aos pés da troca imediata que o teatro proporciona, então eu estou viciada nessa troca. Eu quero falar algo e ouvir ali a pessoa rir, é uma troca de energia muito legal.
Tanto que nenhum espetáculo é igual ao outro, porque a plateia é sempre diferente, as reações são diferentes, o teatro é muito vivo, e muito gostoso.
Assim fica claro que o teatro nunca vai morrer, nunca mais. Pode ter internet, celular, mas o teatro sempre vai existir porque essa troca de energia é única, e hoje em dia mais ainda que as pessoas estão sedentas dessa coisa real.
Só de fazer a coletiva de imprensa com algumas pessoas ali na plateia já deu aquela sensação e aquele barato das pessoas estarem ali.
E no primeiro dia de espetáculo com a plateia, eu faço minhas orações e pedidos e quando eu comecei a falar comecei a chorar de um jeito copioso, porque a emoção foi assim e me pegou de um jeito e ali eu vi o quanto isso é importante para o artista, o quanto é importante para a plateia também.
E um vício mutuo dessa troca... Está sendo muito gostoso voltar!
CE – Antes desse retorno, quanto tempo estava longe dos palcos?
KS – Além do tempo da pandemia, eu tinha tido a minha filha quatro meses antes da pandemia, então eu também tive o tempo da gravidez, então foram quase três anos. Inclusive a última vez que eu me apresentei eu estava grávida de quase quatro meses e foi a última vez e agora eu voltei, foi um bom tempo...
CE – São 35 anos de carreira?
KS – Vixi! Sim... Foram 16 protagonistas, seis antagonistas e 24 papéis em grandes de musicais.
CE – Tem favorita?
KS – Tem! Mamma Mia. Essa era uma pergunta difícil, até eu fazer Mamma Mia (risos). Bom, em primeiro lugar ABBA. Em segundo lugar, a personagem da Dona era muito desconstruída e ela foi o avesso de tudo que eu tinha feito até então, ela era o meu cabelo, chinelo e um macacão jeans...
E ela me dava possibilidades muito legais que as outras não me davam, uma liberdade muito grande, a maneira que a gente foi dirigida também foi demais. Foi a equipe mais incrível que eu tive até hoje e que eu já trabalhei. Apesar de ser uma franquia, fiquei muito livre para criar. Eu fiz a minha Dona...
E eu fiz isso por um ano e um mês e por mim eu estava fazendo Mamma Mia até hoje (risos).
CE – Qual o espetáculo que você mais ficou em cartaz?
KS – Foi o Fantasma da Ópera, fiquei por dois anos.
Mas eu alternava com outra atriz, eu não fazia todos os espetáculos da semana, nem tem como, é muito puxado. Mas fiquei dois anos em cartaz.
Depois veio A Bela e a Fera que ficou um ano e meio e um ano e meio de A Noviça Rebelde.
CE – E como é ficar tanto tempo em cartaz?
KS – Olha, é muito bom!
Eu gosto, porque diferentes de alguns artistas que estreia e congela, eu gosto de ficar eternamente buscando e descobrindo coisas e nuances que eu não tinha percebido antes e eu acho que assim a gente mantém o frescor do espetáculo, porque todo o público tem o direito de assistir um grande espetáculo.
Estamos ali para mudar a vida das pessoas, assim como a minha mudou quando eu fui assistir O
Fantasma da ópera com 11 anos, então eu acho que a gente tem uma responsabilidade muito grande quando a gente pisa no palco.
CE – Qual a personagem que você ainda sonha?
KS – Ah! É uma lista... São muitos...
CE – E os musicais no cinema? Está vindo aos poucos, o que você acha?
KS – Está vindo bastante e eu estou adorando. Vocês viram Cinderela?
É muito bacana... Eeles estão vindo com uma linguagem tão moderna, rápida, sagaz, dinâmica... As câmeras, tudo tão bacana, estão modernizando a linguagem para poder pegar as novas gerações.
CE – O momento mais especial do espetáculo barnum pra você?
KS – Eu gosto de muitos momentos, mas o que eu mais gosto é o dueto que eu faço com o Murilo, eu gosto muito mesmo, ele é o ápice romântico do espetáculo, mas ao mesmo tempo ele brinca, porque ela está sempre dando bronca nele, mas ai tem os elementos do circo, os bailarinos, ele é muito bonito porque não é um dueto melado, ele é uma valsa e uma melodia gostosa com humor e interpretação e tem os elementos do circo é muito bonito.
CE – É mais fácil cantar em inglês do que em português?
KS – Sim, é! (risos).
O inglês encaixa bem e as vezes em português não fica tão bonito.