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Uma grande chance de revisar a trajetória dos Beatles em duas séries novas e complementares

Por Ana Claudia Paixão – Crítica de Cinema

Nélida Navarro

03/12/2021 - 06h00

Se eu falar que nunca fui fã dos Beatles eu sei que não convenço ninguém. Mas fui fã tardia porque aprendi a ouvir música com meu pai, que não curtia tanto a banda (e eles são contemporâneos). 

Por essa influência, primeiro apreciei George Harrison, depois Paul McCartney e por último Ringo Starr e John Lennon. Juntos, para mim, eram lendas.

Como sou curiosa, gosto de ouvir os artistas que influenciaram os músicos que eu amo e 10 entre 10, fossem roqueiros, pop ou punks, eram loucos pelos Beatles. É porque também, para muitas gerações, a separação dos The Beatles foi quase traumática.  

Uma febre mundial, a banda inglesa estava ainda no auge quando os quatro amigos de infância se separaram. Nunca mais voltaram a tocar juntos (separadamente em duplas, sim). 

Havia a esperança de uma grande reunião, mas o assassinato de John Lennon, em 1980, acabou com o sonho dos fãs. Ficou para sempre uma dúvida do que poderia ter sido.

Ao longo dos anos, vários documentários mostraram a curta carreira da banda, e muitos dedos foram apontados para todos os lados tentando justificar o fim. Quase todos apontavam para Yoko Ono, esposa de John, especialmente pela relação simbiótica que estabeleceram, como uma unidade. 

Houve também críticas à Paul McCartney, workaholic e perfeccionista, sempre pressionando os amigos por mais e melhor. Houve quem dissesse que foi um conflito de egos, com George Harrison querendo mais espaço. 

Talvez o único poupado de alguma especulação tenha sido Ringo Starr, mas isso porque o foco estava no rompimento da dupla Lennon-McCartney, autores de muitos de clássicos imortais do rock e da música pop.

As alfinetadas mútuas entre os músicos na década que se seguiu à separação contribuíram para as lendas de brigas nos bastidores, animosidade e preconceitos.

Há um rico material de entrevistas, fotos e filmes que os Beatles alimentavam. Até hoje, nenhum que “explicasse” ou “esclarecesse” as questões mais obvias. 

Os amigos de adolescência, que começaram a tocar juntos com 15 anos, viveram uma pressão de público e vendas mundial jamais vista desde Elvis Presley, chegaram perto dos 30 anos cansados. 

De si mesmos, do que estavam fazendo, da máquina de negócios que a união deles passou a significar. Já tinham tentado drogas, meditação, arte, filmes, documentários… aonde mais poderiam inovar? 

Pois, mais de 50 anos depois de sua separação, testemunhamos como a mágica nos bastidores acontecia, como a separação aconteceu e mais do que tudo, como os quatro se gostavam.


Peter Jackson, responsável pela trilogia O Senhor dos Anéis, assina o importante documentário “The Beatles: Get Back”, na plataforma da Disney, que registrou a gravação do que viria a ser o último álbum do grupo, “Let It Be”. 

Quase um reality (na época, cinema verité), observamos como a dinâmica criativa funcionava. Não havia animosidade entre Paul McCartney e Yoko Ono ou Paul e John Lennon. Havia risos, troca de olhares e muita cumplicidade. 

Um ambiente familiar onde se respeitavam, se completavam e se divertiam. E onde já estavam se preparando para começar outra fase em suas vidas pessoais. John embarcando no segundo casamento, Paul e Ringo formando famílias, George já se relacionando com Patty Boyd.

São seis horas tiravas de mais de 60 disponíveis, mas com uma narrativa que desmente muitas das “verdades” que foram ditas por meio século. É de tirar o fôlego quando ouvimos as primeiras notas de um clássico nascendo. 

E, acima de tudo, é a doce e amarga (bittersweet) conclusão de que não havia como ficarem juntos. A vida estava acontecendo com eles, a separação era inerente, como eles mesmos falam com naturalidade entre eles. 

Sim, há também a sensação de que poderiam ter seguido em frente (afinal, os Rolling Stones estão tocando até hoje!), mas dificilmente a história teria uma conclusão diferente. É triste, é emocionante. 

E é obrigatório para entender a genialidade e testemunhar os trabalhos de quatro jovens que mudaram a cultura mundial. Na Disney Plus. 

E, de quebra, na Starplus tem a série imperdível série “McCartney 3, 2, 1”. Não é (apenas) sobre os Beatles, embora tenha algumas histórias que Paul McCartney compartilhe que coloque o documentário de Peter Jackson com ainda maior relevância. É uma série para os amantes de música.

É incrível que o compositor chegue aos 80 anos com a mesma empolgação não apenas pelo que já criou, mas sobretudo o que ainda está criando ou quer criar. 

A positividade de Paul McCartney é quase irritante, mas é constante e (aparentemente) genuína. Aqui, ele senta para conversar com o produtor Rick Rubin sobre música.

São seis episódios de apenas 30 minutos, lindamente filmado e gravado. Paul viaja desde sua juventude, passando pelos Beatles, Wings e carreira solo. 

Lembra de como testemunhou Roy Orbinson compondo Pretty Woman, como Sargent Pepper – o nome – surgiu de um malentendido, como foi a primeira conversa com George Harrison, e por aí vai.

Falam de música, inspiração, criatividade, influências, emoções e composição. É fascinante justamente pela paixão que Paul McCartney mantém sobre seu trabalho. Isso sim, é um grande exemplo.
Para os fãs de John Lennon, “Above Us There’s Only Sky” está na Netflix, e, na HBO, tem que buscar o documentário assinado por Martin Scorsese sobre George Harrison, “Living in a Material World”.  

A combinação desses filmes e séries nos dão uma noção do significado dos Beatles para a cultura moderna. Uma excelente pedida para encerrar 2021!

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