Que diferença três minutos podem fazer na vida? Para a diretora Mariana Marques significa, por exemplo, entrar para a elite do cinema de animação.
Foi o que aconteceu ao término do Festival Saci – Semana de Animação e Cinema Infantil, realizado em Curitiba no período de 03 a 14 de novembro.
Mariana assina a direção de “Cinzas no Pantanal”, que foi considerado o melhor curta-metragem animado pelo júri da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), que integra as premiações do Saci, além de ter recebido uma menção honrosa do júri oficial da mostra competitiva.
Com um filme de proposta simples, os incêndios que diariamente põem em risco a saúde do Pantanal, e, por extensão, de todo o planeta, a cineasta, de fato, articula com êxito sua breve narrativa de alerta, de resistência, mas também de dor e de esperança quanto ao futuro do importante bioma.
Combinando a sutileza e a expressividade dos origamis de Elder Alves com a comovente trilha musical de Marcos Assunção, que cobre o curta de ponta a ponta, Mariana forja uma plástica delicada que, sem perder a leveza, preenche os olhos, os ouvidos e os corações de qualquer idade.
PLÁSTICA E COESÃO
Ao primeiro toque da viola caipira, surgem as imagens – de fauna e de flora – que figuram no Pantanal e sempre mexem com o imaginário dos sul-mato-grossenses ou, de modo geral, de todos que se sintam atraídos pelas belezas naturais do Estado.
Na verdade, mesmo para quem não conhece, o filme mobiliza o interesse pela região ao fisgar o espectador de modo singelo, sem firulas, encaixando um discurso assertivo, de progressão linear, que aposta, uma vez mais, na simplicidade e na força do tema para dizer o que deve ser dito.
Detalhe: não há diálogos no curta-metragem.
É um mérito e tanto conferir vigor criativo, digno de prêmios e de reconhecimento, para um assunto que, embora de extrema importância, assalta os sentidos do espectador a todo momento na pauta midiática.
Tal domínio narrativo impressiona ainda mais se levarmos em conta que a diretora, de 39 anos, publicitária de formação e de ofício, mergulhou na produção audiovisual – pelo menos no que diz respeito a um exercício de autoria – há pouco tempo.
Seu primeiro curta-metragem, “Alegria das Células” (2020), também realizado na técnica do cinema de animação, foi produzido já em pleno período de pandemia e de isolamento.
FELICIDADE E CORRERIA
“Estou muito feliz com o resultado do Saci e com a repercussão do filme”, celebra Mariana.
“Na correria com o trabalho, mal tenho conseguido fazer uma divulgação melhor do ‘Cinzas’. A minha reação foi de muita, mas muita alegria ao saber do resultado.
Feliz não só pelo reconhecimento do júri do festival e pelas belas palavras escritas sobre o projeto, mas em especial de saber que o projeto tocou essas pessoas.
E que meu filme vai alcançar cada vez mais o público em geral, além dos amantes do gênero da animação”, comenta a diretora.
ALERTA BELÍSSIMO
O Saci realmente caprichou no elogio: “Desde que recebemos a inscrição de ‘Cinzas no Pantanal’, ele se tornou um dos ‘top cutes’ da produção.
A temática sempre relevante do meio ambiente, apresentada com personagens feitos de dobraduras de papel, não só diverte, mas traz para o imaginário das crianças a beleza do Pantanal, contraposta ao impacto destrutivo das queimadas que frequentemente ocorrem na região.
A utilização de dobraduras de papel para representar os personagens e os cenários encanta e demonstra a fragilidade desse bioma tão bonito e frágil. Parabéns Mariana Marques.
Além de belíssimo, o seu filme deixa o alerta ligado na cabecinha das novas gerações”.
O júri oficial da mostra competitiva, que concedeu a menção honrosa para “Cinzas no Pantanal”, foi formado por Isabela Silveira, produtora cultural; Célia Catunda (SP), diretora de séries como “Peixonautas”; e o encenador teatral Beto Andreetta.
A designer e professora Adriana Pinto, o cineasta Neil Armstrong e a atriz e produtora Renata Roberta formaram o júri da Associação Brasileira de Cinema de Animação, que outorgou o prêmio ABCA de melhor curta-metragem.
FILMANDO NA PANDEMIA
Segundo trabalho de Mariana Marques na condição de diretora, “Cinzas no Pantanal” pode ser considerado, sem duplo sentido, uma prova de fogo.
“Tive uma dificuldade maior na realização por conta dos cuidados com a biossegurança. Tivemos encontros presenciais da equipe, a produção de cenários e de personagens foi maior do que no meu primeiro curta."
"Muita coisa foi produzida individualmente por integrantes da equipe, mas fazíamos encontros para unir as peças. Grande parte do cenário e dos objetos precisaram ser construídos em grupo”, declarou a cineasta ao Correio do Estado há seis meses, quando ainda tentava posicionar o curta no circuito de festivais.
“Concentrei a área de produção em uma varanda bem aberta, e procurava não só manter distância entre a equipe como também priorizar a higienização de tudo."
"Sabíamos que havia risco e procuramos reduzi-lo. Mas confesso que foi gratificante e até um alívio poder realizar um filme em um período tão difícil e incerto”, revela Mariana.
No Saci, que contou com a participação de 42 filmes, “Cinzas no Pantanal” concorreu com produções de vários outros estados brasileiros e de outros países, como Lituânia – terra de origem de “Mathilda and The Spare Head”, vencedor do prêmio do júri oficial –, Estados Unidos, Chile e Espanha.
FESTIVAIS E PROJETOS
Os outros premiados no festival de Curitiba, que é considerada um dos polos nacionais da arte da animação no cinema, foram os curtas brasileiros:
“Napo”, de Gustavo Ribeiro, que levou o prêmio do público e uma menção honrosa do júri; “No Caminho da Escola”, de Rosaria Moreira, com menção honrosa do júri; e “Sobre a Gente”, de Ana Lúcia Godoi, com menção honrosa da ABCA.
Além do Saci, “Cinzas no Pantanal” tem circulado em outros eventos internacionais, a exemplo do Animae Caribe International Animation & Digital Media Festival – que ainda está com o filme disponível em sua plataforma – e do Biophilia International Film Festival, no México, encerrado no dia 28/11.
A partir do dia 18, o filme conecta-se mais uma vez com as plateias internacionais em outro festival, o Hsin-Yi Children’s Animation Awards, a ser realizado em Taiwan, na costa da China.
Aliás, quando circula lá fora, o curta atende pelo título em inglês – “Pantanal Ashes”.
Mas emoção não precisa de tradução e, nesse sentido, Mariana Marques consegue demonstrar com o seu curta que o cinema é, e deve ser sempre, uma linguagem universal.
O público não perde por esperar. “No momento, estou trabalhando no desenvolvimento de dois outros curtas-metragens. E em paralelo produzindo projetos para publicidade”, conclui a diretora.