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Município aproveita fim de ano para restaurar monumentos

São últimas ações da Prefeitura de Campo Grande para a área cultural em 2021, com investimentos de contrapartida do setor privado

Nélida Navarro

28/12/2021 - 10h30

O pasto e o Pantanal. O primeiro, feito de metal e granito há mais de 25 anos na Praça Nelly Martins, acaba de ser recuperado.

O segundo, que começou a ser produzido para valer ontem (27/12), no viaduto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), está sendo representado pelas plumagens das araras pantaneiras que colorem Campo Grande e que vão ganhar vida por meio da linguagem do grafite. 

Duas técnicas para dois murais em que são retratados dois ícones do imaginário da Capital: o mito colonizador, associado à figura de José Antônio Pereira (1825-1900), e o vigor do ecossistema, que as belas aves anunciam a céu aberto o tempo inteiro.

Por trás dos murais, o modelo encampado para as iniciativas que garantem a repaginada na arte pública de importantes pontos da cidade segue os termos de cooperação das parcerias público-privadas, entre a Prefeitura Municipal e qualquer empresa interessada em investir de olho no retorno de imagem, as chamadas PPPs.

As ações de revitalização, como a realizada no Monumento aos Desbravadores, incluem obras em outros monumentos que já foram recuperados ou estão com as intervenções em andamento. 

A exemplo da escultura “O Beijo” (Lago do Amor), do monumento “O Aprendiz” (rotatória da Interlagos) e do Obelisco (Avenida Afonso Pena com a Rua José Antônio Pereira) – e ainda os projetos que sairão do papel somente em 2022 – como os reparos do Ninhal (Parque dos Poderes), que devem ser iniciados antes do Carnaval, e da Praça do Papa.

CARRO DE BOI

Criadora do mural “Carro de Boi”, a artista Neide Ono, que mora em São Paulo, diz que é gratificante ver seu trabalho restaurado. 

E faz um apelo: “Gostaria de pedir a todos para que cuidem do patrimônio público, pois esse dinheiro poderia atender à população de outra maneira. 

O monumento é para ser respeitado, é com o nosso dinheiro que a obra foi refeita”, alerta Neide, que criou o mural em parceria com Marisa Oshiro. Massao Minata foi quem cuidou da fundição dos metais empregados e de outros detalhes da execução do restauro.

“Carro de Boi” destaca-se no conjunto do Monumento aos Desbravadores, ao lado do Horto Florestal. 

Com seus 50 metros quadrados de superfície para uma composição original de peças fundidas em alumínio e metal dourado sobre o fundo de granito preto, o painel foi instalado na área de confluência dos córregos Prosa e Segredo em 1995. 

Na versão restaurada da obra, Minata substituiu as aplicações originalmente em alumínio por aço inoxidável para tentar reduzir a depredação do monumento.

VANDALISMO E TRADIÇÃO

Até o prefeito Marcos Trad se queixou do vandalismo durante a reinauguração da obra de arte pública na semana passada. 

Nem a vegetação que forra o entorno do mural e envolve espécies vegetais espinhosas justamente para barrar delinquentes costuma ser poupada.  

A imagem estampada na peça evoca o início da ocupação urbana de Campo Grande, por volta de 1872. 

Além do veículo rudimentar de tração animal, dois tropeiros e quatro cabeças de gado, tendo acima quatro aves e o céu, aparecem na cena.

A imagem remete à segunda chegada de José Antônio Pereira a Campo Grande, já com os seus familiares e prepostos para dar início à ocupação, na região então conhecida como Mato Cortado, que entrou para a história oficial como o marco zero da futura capital. 

A roda do painel teve como referência a da carroça original que conduziu o desbravador e integra o acervo do museu que leva o seu nome.

“Esse projeto de revitalização de monumentos foi pensado para incentivar os campo-grandenses a respeitarem o nosso patrimônio cultural e sentirem-se pertencentes à cultura e história da Capital”, afirma o secretário municipal de Cultura e Turismo, Max Freitas, por ocasião da reinauguração do monumento, na quarta-feira passada (22/12).  

Segundo informações da Sectur, as ações de revitalização dos monumentos públicos sob a gestão da prefeitura giram em torno de R$ 300 mil na temporada 2021/2022. 

O novo paisagismo da Praça Nelly Martins, onde se situa o monumento, foi bancado pela 067 Vinhos, por meio de uma PPP.

PLUMAS DE SPRAY

Nascido em São Paulo, o muralista Matheus do Carmo tem apenas 25 anos de idade e metade desse tempo de dedicação ao grafite urbano. 

Suas criações, alimentadas pela sensibilidade contemporânea da cultura de rua, começam a se multiplicar em casas, empresas e instituições de Sidrolândia e de Campo Grande, incluindo um mural no aeroporto da Capital Morena.  

O artista deslanchou ontem a confecção de um novo painel de grande escala no viaduto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), que vai retratar as araras típicas da paisagem da cidade, também conhecida como Capital das Araras. 

Será o segundo viaduto da cidade a receber intervenção artística no contexto do projeto Cores e Vias, da Sectur.  

Um ato simbólico, realizado no local na manhã da quinta-feira passada (23/12), marcou o início oficial da obra e contou, uma vez mais, com a presença do secretário Max Freitas e do prefeito Marcos Trad. 

O grafiteiro Tom Barbosa assina o primeiro mural da série, no viaduto da Avenida Afonso Pena, que foi entregue à população no mês de julho.

PPP

Assim como Barbosa, Matheus do Carmo vai desenvolver seu trabalho sob a inspiração das araras. 

A revitalização viabiliza-se a partir de uma PPP com o Grupo Pereira, que detém o controle das redes varejistas Fort Atacadista e Supermercados Comper. 

Matheus celebra a implantação e a “imponência” da obra. “Está sendo muito gratificante realizar esse projeto, e será um dos maiores trabalhos que já realizei. Com certeza ficará eternizado”, diz o artista.

A previsão é de que o grafiteiro e seus dois assistentes gastem três semanas para a conclusão do painel, que se estende por 40 metros, de um lado a outro do viaduto da UFMS. 

As paredes laterais às margens da pista, na parte inferior do pontilhão, também serão forradas pela arte de Matheus do Carmo.

“Queremos gerar a sensação de pertencimento ao campo-grandense, para que ele possa querer cuidar da cidade e ensinar as crianças a preservar o ambiente em que vivem”, afirma o secretário Max Freitas, que, além de promover a arte do grafite, espera, com a iniciativa, fomentar o turismo, a educação ambiental e o gosto pelo patrimônio cultural.

Pé de barro

Cada vez mais receptiva à arte urbana e à cultura de rua, Campo Grande havia recebido novos painéis de arte urbana recentemente, durante o festival Campão Cultural, iniciativa do governo do Estado que promoveu, entre outras atividades, a confecção de murais em escala monumental na Rua 14 de Julho, na Casa do Artesão e em outros pontos da cidade.

Enquanto isso, o monumento em bronze dedicado ao poeta Manoel de Barros (1916-2014), instalado desde dezembro de 2017 no cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Rua Rui Barbosa, segue há mais de oito meses sem o pé esquerdo do maior nome das letras sul-mato-grossenses.

A imagem do escritor amanheceu “manca” em uma segunda-feira – 19 de abril – e, no mês de junho, após uma visita ao local, o artista Ique Woitschach e o diretor-presidente da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), Gustavo de Arruda Castelo, iniciaram as discussões para definir “a melhor forma” de recuperar a estátua, que mostra o poeta em tamanho real sentado em um sofá.

Embora o monumento a Manoel de Barros tenha sido realizado pelo governo do Estado, a área envolve atribuições sob a responsabilidade da prefeitura. 

A Sectur aguarda o encaminhamento de uma proposta da Secretaria Estadual de Cidadania e Cultura (Secic), à qual se vincula a FCMS, para entrar em ação. 

“Não vai ser somente um restauro do pé”, adianta Max Freitas. “Vamos cuidar de outras demandas, o paisagismo, a instalação de câmeras, a iluminação”.

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