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Conheça a Cia de Teatro do interior de MS que brilhou neste ano

Remando contra a maré, Cia. Sou O Que Sou retoma atividades e mostra que é possível fazer uma montagem teatral com vigor criativo em Aparecida do Taboado

Nélida Navarro

29/12/2021 - 10h30

Em uma retrospectiva das artes cênicas em Campo Grande durante este ano, a noite de 4 de novembro certamente merece um lugar especial. 

Foi quando a Cia. Sou O Que Sou, de Aparecida do Taboado, transformou a Sala de Música do Sesc Cultura em ribalta de sua mais recente montagem teatral, “A Cartista”, como parte da programação da mostra Campo Grande em Cena. 

Produzida entre fevereiro e setembro de 2019, com a pandemia ainda fora do radar global, a peça é um monólogo sobre a perda e as facetas que se descortinam na busca da reinvenção pessoal de alguém depois de um episódio traumático.

O modo como se articula, em cena, o texto inédito de Wadna Salles, sob a direção de Moysés Chama, é capaz de surpreender quem duvida da força dramatúrgica de uma trupe que vem do interior. 

Ao longo de 40 minutos, a atriz Conceição Mendonça ocupa, sozinha, os olhares no papel de uma mulher, a cartista do título. 

Ao manifestar seu ritual particular de dores, a personagem ativa na plateia um princípio de catarse iminente que, concretizando-se ou não, vai deixando fagulhas, tornando a sua presença algo cada vez mais íntimo e incontornável.

LABORATÓRIO

A cartista, na verdade, parece não estar só. Ela vem com a soma das ausências que se acumulam ali, no laboratório quase perverso de sentimentos ressentidos que vai se erguendo em cena aberta, conforme a dama enlutada, algo desvairada, circula e performa pelo cenário. 

São as memórias, promessas, cobranças, arrependimentos e revelações que, uma vez transpostos na escrita, abrem caminho para a personagem percorrer intensos estados emocionais advindos da falta e do pesar.

Dada a imediata identificação que os desencantos expostos despertam, o espectador vai com ela até se desgarrar de uma terapêutica da dor mais imediata, que o enredo apresenta, e partir em viagem própria, dando lugar, quem sabe, a um acerto de contas mais pessoal. 

E mesmo para quem o espelho não vira, o espetáculo não deixa de ser agradável como história contada. Os episódios narrados ganham a urgência vertiginosa das coisas trágicas na dicção voraz e febril de Conceição.

A atriz projeta a (bela) expressão facial como ninguém, palmilhando o relato de sua cartista, escrevinhadora de extremos, com arroubos de mãos e braços, em uma ação que se movimenta por variados quadrantes da geografia cênica, ambientes, uma vez mais, carregados de subjetividade, simbologia e densidade. 

Mergulho nas profundezas do indivíduo, decantado em uma montagem que transcorre transparente e linear sem medo de ser simples e segura de sua precisão. 

E melhor: sem o peso que o tema ameaça ganhar. A aposta no básico, como uma simples marcação de luz, pode transformar um véu ou mesmo as fartas madeixas da intérprete em potente elemento cênico.

Todos os espaços expressivos de que o teatro precisa são visitados e devidamente preenchidos pela carga criativa da produção, que se tornou realidade com um orçamento baixíssimo – para cenário, figurino, objetos de cena e divulgação – a partir de uma vaquinha dos integrantes do grupo. 

Nenhum profissional da equipe – dramaturga, diretor, atriz e compositora musical – recebeu cachê. 

A Cia. Sou O Que Sou não inventa nenhuma roda, mas, com garra comovente, mantém acesa a chama de uma arte milenar cujo caráter de resistência assume dimensões heróicas em um lugar como Aparecida do Taboado.

CULTURA AGRO

A cidade de 26 mil habitantes se localiza na região oeste do Estado, a 440 quilômetros de Campo Grande, às margens do Rio Paraná, na fronteira com São Paulo. 

Em vez de ter a capital de Mato Grosso do Sul como referência principal, a agenda de Aparecida do Taboado gravita mais em torno de São José do Rio Preto, no lado paulista. 

Lá e cá, grassam dominantes as expressões da cultura agro, alavancada pela música sertaneja, a febre dos rodeios e o lastro do discurso oficial.

Aparecida do Taboado integra o circuito nacional das competições com os touros indomáveis desde os anos 1960. Sua economia gira em torno do polo industrial de produção diversificada e, principalmente, dos grandes frigoríficos, que se expandem. 

De certa maneira, a cidade permanece arraigada ao fato de um dia ter sido a fonte de inspiração para o chamamé “60 Dias Apaixonado”, composição de Constantino Mendes e Darci Rossi que rendeu, em 1979, o primeiro disco de ouro da dupla Chitãozinho & Xororó. 

É raro o teatro prosperar em um lugar assim.

MILAGRE

“Fazer teatro em Aparecida do Taboado é quase um milagre porque nem faz parte da cultura nem é algo que as pessoas consomem”, constata Conceição Mendonça. 

Formada em Letras, a protagonista do monólogo também trabalha como professora e artesã. “Atuo como educadora de artes circenses e dança. Faço apresentações artísticas em eventos e colaborações com outros artistas." 

"Atuo na Cia. Sou O Que Sou e estou neste movimento para reativar o teatro na cidade. Ah! E possuo uma empresa de costura criativa, na qual produzo brinquedos e decoração voltados ao universo da infância. Como vê, me viro nos 30”, enumera a atriz, de 34 anos, que nasceu na cidade.

“Passamos por processos difíceis, pois não há uma política de sustentação dos movimentos artísticos e, quando acontece, a burocratização é muito grande." 

"A falta de entendimento das políticas públicas e a sensibilização do setor jurídico e financeiro do Poder Executivo municipal são o que mais atrapalham no avanço de algumas cidades do interior." 

"Mas o trabalho dos profissionais da arte continua, buscando de forma autônoma formar público, driblar a falta de estruturas físicas e descentralizando através dos editais estaduais e federais”, afirma o diretor Moysés Chama, que atua, em paralelo, como artista visual.

“A gente está lutando para tornar isso algo palatável e que as pessoas aprendam a consumir. Mas a gente não produz pensando necessariamente na cidade, porque a gente sabe que não daria para viver de espetáculos aqui." 

"Nosso foco é tentar trazer para cá isso e, ao mesmo tempo, circular e buscar outros espaços para levar o nosso trabalho”, diz Conceição, que trilhou uma formação variada em artes cênicas desde criança, por meio de cursos livres, e já morou na Grande São Paulo. 

“Atualmente estudo mímica clássica, mímica contemporânea e teatro físico com o mestre Luis Louis”, conta a atriz.

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HISTÓRICO

A companhia teatral Sou o Que Sou foi criada em 2003. Antes de “A Cartista”, quatro espetáculos foram montados pelo grupo: “Frenétic”, “A Vila de Capimbeba”, “Amor de Cinema” e “Uma Moça da Cidade” . “A Vila…” e “Uma Moça…” são marcados pela parceria com o encenador Anderson Bosh. Até a retomada, em 2018, o grupo permaneceu desativado por mais de uma década.

“A Cia já chegou a 20 integrantes, hoje com ‘A Cartista’ somos em quatro, contratando para equipe técnica outros profissionais quando há necessidade”, conta Moysés. Nascido em Três Lagoas, o diretor, de 45 anos, cursou o ensino médio em São José do Rio Preto, morou em Campo Grande e, embora viva circulando por onde os projetos o chamarem, tem Aparecida, terra natal dos pais, como base.

O TEXTO

“A peça ficou pronta um mês após o convite de Moysés e Conceição”, diz Wadna Salles, de 43 anos. Natural de Aparecida, a escritora conta que, ao receber a encomenda, além da pesquisa sobre temas existenciais da filosofia, psicanálise e a obra de Shakespeare, dedicou-se a observar ao seu redor e se fez uma pergunta que considera central para o surgimento do enredo da peça: “o que seria a coisa mais triste que poderia me acontecer e que desolaria a minha alma?”

Aforismos de autores consagrados destacam-se no cenário e consolidam a unidade do espetáculo. Estão lá, por exemplo, Clarice Lispector - “Saudade é um pouco como a fome, só passa quando se come a presença” - e Rubem Alves - “Saudade é a nossa alma dizendo para onde quer ela quer voltar”.

A TRILHA

Priscilla Cardoso, a quarta integrante da companhia, conta que não precisou de muito tempo para criar a canção-tema “Meu Amor”. É a própria compositora que faz a voz e o violão durante o espetáculo. “Durante 20 dias, baseada na sinopse da Wadna, tentei escrever em vão a letra da música. Numa noite de domingo, assim que a peça ficou pronta, ela leu para mim. A emoção foi muito forte, chorei e depois fui dormir. Na segunda pela manhã, liguei o gravador, comecei a dedilhar uma melodia e em cinco minutos a música estava concluída”, diz Priscilla, de 38 anos, nascida em Goiânia (GO).

PRÓXIMOS PASSOS

“A Cartista” foi pouquíssima apreciada e merece ser vista e revista mais vezes. Antes da apresentação em Campo Grande, no mês passado, o espetáculo havia sido encenado apenas uma única vez na cidade de origem da trupe, além de uma versão virtual que foi gravada com recursos da Lei Aldir Blanc. “Nosso intuito é circular com a peça e continuar o processo de refinamento do trabalho”, planeja Moysés. “Precisamos de mais atores e atrizes a fim de fortalecer a Cia e poder montar espetáculos variados. Temos muito trabalho pela frente. ‘A Cartista foi o nosso primeiro passo em direção a este futuro”. Bravo!

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