“Tudo vai dar certo, tenho confiança de que meus projetos vão se concretizar e a vida vai melhorar”. “Sei não, do jeito que a coisa está, acho que só vai piorar mesmo e não sei o que fazer”.
É assim, manifestando bem-estar ou aflição, que a maioria das pessoas reage à expectativa para um novo ano que vai chegando com as últimas páginas do calendário.
Quase ninguém permanece indiferente à ideia de futuro quando o ano vindouro se aproxima. Mesmo que uns sonhem em viver presos no passado – como o escritor Gil, personagem de Owen Wilson no filme “Meia-Noite em Paris” (2011), de Woody Allen.
E outros precisem ser catapultados para décadas à frente do tempo em que se encontram – a exemplo de Marty McFly (Michael J. Fox) na trilogia “De Volta para o Futuro” (1985-1990).
Para o ano novo vingar, os supersticiosos recorrem a práticas exóticas, prosaicas ou até esdrúxulas, a maioria delas no limiar do cronômetro, restando apenas poucos grãos de areia na parte de cima da ampulheta.
Pular sete ondas no mar, vestir-se de branco por fora e amarelo nas roupas íntimas, comer sete sementes de romã, doze uvas e lentilha, evitar pratos com aves que ciscam para trás e brindar com espumante.
Ou seja, nas últimas horas, às vezes, instantes, da noite de 31 de dezembro, vale tudo para ele melhorar.
CURTIR OU CUIDAR?
Mas ano novo, afinal, quem é você? “O ano novo é o fechamento e o início de um ciclo, o ano que se inicia é o período em que as pessoas param para pensar.
São hábitos e crenças que fazem parte da vida”, afirma a psicóloga Sandra Armoa. “Mudou o ano, tempo de reflexão. Avaliação sobre o que passou, velhos e novos desejos começam a surgir como expectativas.
O ano que findou talvez tenha sido de algumas experiências não tão prazerosas, talvez a vida não tenha sido justa, [com] eventos tais como doenças, perdas, relacionamentos desfeitos, desemprego, entre outros”, diz a psicóloga.
“Desfrutar o momento ou cuidar do amanhã?”, questiona Sandra, propondo uma reflexão que, para além das crendices, pode conduzir o leitor a um comportamento mais equilibrado durante esse período."
"Será? “Qualquer data comemorativa desperta inúmeros sentimentos e afetos, isso porque na nossa história, por inúmeros fatores, tais como os culturais, os econômicos e os familiares, essas datas são sempre inseridas no nosso cotidiano."
"A maneira com que cada um lida também difere em virtude do ambiente em que cresceu e teve contato com essas comemorações”, pondera Cleberson da Silva Alves, colega de profissão de Sandra.
Psicólogo social e clínico, o profissional lembra que famílias carregam tradições e histórias.
“Se eu cresci em um ambiente em que essas datas já tinham um impacto negativo, a maneira como lidarei tende a ser sempre na negatividade. Assim como ambientes saudáveis e de felicidade fazem com que, independentemente do cenário, possa se construir uma festividade pautada na alegria."
"Tivemos duas passagens de ano com bastantes perdas em razão da pandemia, contudo, vimos inúmeras famílias que conseguiram encontrar um lugar para confraternizar e celebrar de algum modo aqueles que estão vivos”, afirma Cleberson.
ESPERANÇA INFINITA
“A palavra esperança é usada infinitamente para esse novo tempo”, retoma Sandra. A psicóloga coordena grupos de pesquisa e o curso de formação na área da Unigran."
"Ela explica como a psicologia positiva aborda esse sentimento que se opõe ao pessimismo. “Segundo a teoria da esperança de Snyder [1994], o conceito de esperança envolve a percepção de que podemos conquistar metas ou resultados desejados."
"A contribuição é salientar o aspecto cognitivo, ou seja, o foco no processo de crenças e pensamentos envolvidos na esperança”, diz a educadora.
“No dicionário, é o sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja, confiança em coisa boa, fé ‘de uma vida melhor’."
"Para a religião, confiança é a segunda das três virtudes teologais, ao lado da fé e da caridade. A psicologia positiva reconhece a importância do tema para o bem-estar e a felicidade, pois o aspecto emocional é contemplado paralelamente."
"A esperança contribui naturalmente para o fluxo de emoções positivas”, afirma ela.
“Fato também que o consumismo gerado pelo capitalismo faz com que a população sofra se não consegue a melhor festa, a melhor roupa ou o melhor presente."
"Vale a reflexão: quais vínculos afetivos necessitamos para continuar?”, questiona Cleberson Alves. Ele mesmo responde: “É o afeto gerado pelas vivências que proporciona ao ser humano continuar sua caminhada”."
"Se alguém se sente muito infeliz a ponto de um sofrimento psíquico muito intenso, alerta o psicólogo, é importante procurar ajuda profissional adequada para que possa entender melhor o que está acontecendo.
“A esperança nos permite encontrar possibilidades e oportunidades e não nos entregarmos ao desespero e ao pessimismo, mesmo quando as coisas não saem como planejamos, mesmo quando a vida não é justa”, insiste Sandra Armoa.
“É um estado emocional positivo que pode ser cultivado por cada um de nós todos os dias e em todas as situações da vida, porém, nossas crenças se apoderam desse conceito quando fechamos um ano revendo nossos planos e expectativas, por isso a palavra tem força nesse tempo”.
A CIGARRA E A FORMIGA
Segundo a especialista em comportamento humano, nosso cérebro busca a gratificação imediata (sistema límbico) e a atração pelo prazer do momento ou de sentir-se preso ao passado.
“Porém, a esperança ata-nos ao presente e aos cuidados com o amanhã imaginado. Isso eleva-nos ao futuro”, aposta a psicóloga.
“No sempre renovado início de ano, há o embate entre a cigarra límbica – aquela que vive o prazer – e o calculismo prudente da formiga – racional – do conto ‘A Cigarra e a Formiga’ [adaptado da obra de La Fontaine]."
"O resultado está na esperança e não nos é dado de antemão nas situações de vida prática, nas quais valores do passado, do presente e do futuro medem forças em nossas escolhas e ações”, finaliza a pesquisadora.