A crônica é a reportagem da vida cotidiana ou o jornalismo em seu momento mais literário? O ensaísta Antonio Candido afirma que os cronistas são os cães farejadores do cotidiano.
Para o escritor e cronista de mão cheia Luis Fernando Verissimo, a maior inspiração para escrevê-la é o prazo, já que o ritmo comum nas redações jornalísticas entre a apuração e a publicação dos fatos é quase sempre de corre-corre para o fechamento da edição.
E foi lá nas redações que a crônica ganhou um jeito bem brasileiro de ser, essa forma híbrida entre a notícia e o devaneio, às vezes com uma pitada de indignação e às vezes só com ternura e informalidade mesmo.
A crônica brasileira permanece um encanto desde o século 19. E dos folhetins imperiais aos portais da internet, uma lista com os nomes de seus praticantes ilustres mostra que a forma de literatura mais consumida no País arrebatou o coração e a pena de vários dos escritores mais reconhecidos da literatura brasileira.
Quer ver? Machado de Assis, Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto, Rachel de Queiroz, Antônio Maria, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Stanislaw Ponte Preta, Paulo Mendes Campos, Zuenir Ventura, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio Loyola Brandão, Marcelo Rubens Paiva, Fernanda Young, Xico Sá e Antonio Prata.
ANTÔNIO MARIA
Todos eles encontraram no formato da crônica um espaço bastante promissor para dar o seu recado e magnetizar os leitores.
O pernambucano Antônio Maria (1921 – 1964), que fez fama nas redações do Rio de Janeiro e na boêmia carioca, era um craque tanto nos afagos quanto na resistência.
Levou os leitores às lágrimas mais de uma vez com suas crônicas, em forma de carta, para a cantora e amiga Maysa, na tentativa de dissuadi-la do suicídio.
E não se furtou a peitar a turma – playboys ou militares, não se sabe – que covardemente lhe quebrou os dedos.
No dia seguinte à sova que tomou, Maria, com a ajuda de um colega de redação, malhou assim em sua coluna: “Idiotas! Pensam que jornalistas escrevem com as mãos!”.
FÓRMULA INFALÍVEL
Não tão longas, às vezes com duas ou três páginas, às vezes menos que uma, a crônica se faz na estratégia de uma literatura sob pressão, com a consciência, para quem escreve, de que seu criador deve ser rápido no gatilho, não temer a linguagem coloquial e, como em um documentário, absorver, tanto quanto possível, o jeito do povo falar e pensar.
Verissimo defende que, em suas linhas, mesmo quando o objetivo é dizer algo mais profundo, nunca se deve abrir mão do humor. O escritor gaúcho certamente sabe muito bem o que está dizendo, dado o enorme sucesso, de público e crítica, de suas crônicas.
CLARICE
Mas o que dizer da produção de Clarice Lispector (1920 – 1977)? Mais conhecida como romancista e contista, a escritora brasileira de origem ucraniana legou belas páginas no formato, ao alargar o estilo padrão da crônica em digressões de um intimismo singular e profundidade existencialista.
E, como ressalta Ignácio Loyola Brandão, Clarice era capaz de fazer isso em uma única frase: “Sou tão misteriosa que não me entendo”.
Mesmo assim, conta-se que foi demitida do Jornal do Brasil sob alegação de que suas crônicas não tinham qualidade.
Procure um exemplar de “A Descoberta do Mundo”, um dos seus raros volumes dedicados à modalidade, e veja se quem cometeu tal façanha tinha alguma razão.
RUBEM BRAGA
Considerado o maior cronista brasileiro de todos os tempos, justamente por reunir, como ninguém, todos os atributos do gênero listados até aqui, Rubem Braga (1913 – 1990) é um nome a ser recuperado pelas novas gerações.
O escritor nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (ES), terra natal de Roberto Carlos e Nara Leão. Hoje bem menos conhecido do que os dois grandes artistas da música popular, Braga sempre foi um mestre em qualquer tema, tom ou extensão de suas crônicas.
Sem jamais ter se dedicado a outra modalidade literária, fosse tratando do Carnaval, da beleza feminina, da vida política ou de um pé de milho de sua infância, seus textos arrancam aplausos desde “O Conde e o Passarinho” (1936), seu primeiro volume lançado.
De sua autoria, qualquer título é um voo seguro e prazeroso no céu estrelado da crônica brasileira. A principal característica dos textos de Braga: a simplicidade, segundo apontam os especialistas.
MS
Em Mato Grosso do Sul, a crônica é um gênero que cala fundo entre os literatos locais.
Fundador da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL), Ulisses Serra (1906 – 1972) lançou a proposta de criação da entidade durante os embalos que marcaram a celebração do seu “Camalotes e Guavirais” (1971), coletânea de crônicas assinadas pelo escritor corumbaense.
Uma oficina sobre a modalidade realizada no mês de novembro, em Campo Grande, reuniu talentos jovens e de alta quilometragem, como Febraro e Samuel Medeiros.
Opinião
Três escritores da cidade – um jornalista veterano, uma pesquisadora e uma poeta que se declara intuitiva – dizem o que pensam sobre o gênero crônica, que diz mais dos brasileiros do que muita gente imagina.
A crônica é um gênero do jornalismo, um viés do texto jornalístico que narra fatos do cotidiano da vida social.
Eu definiria como um relato perspicaz das situações cotidianas. Creio que o traço mais marcante é a percepção de transformar um determinado tema ou fato em uma história que pode ser real ou fictícia, mas contada de uma maneira instigante e prazerosa de ler.
Não creio que seja um gênero jornalístico menor. Como é uma narrativa mais detalhada, a crônica foi perdendo espaço para a rapidez imposta pela divulgação cada vez mais acelerada das notícias veiculadas pelos meios de comunicação.
Gosto de textos de Drummond, Fernando Sabino, García Márquez, Luis Fernando Verissimo e Humberto de Campos. Acredito que há espaço para a crônica na internet.
Marcelo Câncio, jornalista veterano e professor da UFMS
A expressão “crônica” está diretamente ligada à palavra grega Cronos, que é o pai de Zeus e de outros deuses da mitologia. Ele não personifica, mas manipula o tempo.
De uma certa maneira, a crônica está ligada ao tempo, e, mais que isso, ao seu tempo e à dinâmica do seu tempo.
Tínhamos os cronicões da Idade Média na literatura portuguesa. Eram relatos das histórias de reis e rainhas e seu envolvimento com os nobres, os acontecimentos heroicos ou não, a relação com a igreja católica.
Davam conta de questões relacionadas ao transcurso da história.
Se pensarmos, no caso brasileiro, na crônica ligada aos jornais impressos desde a década de 1920 até hoje, embora em menor número, está ligada a essa dinâmica do jornal com os acontecimentos, costumes e com o espírito do seu tempo.
É um gênero textual narrativo, cuja principal ligação direta é com relações ideológicas, políticas e culturais desse tempo, as mentalidades em vigor.
Tenho dúvidas de que seja um gênero literário. Tem uma certa ligação com o conto, mas está muito ligada com o cotidiano, com o que se passa no dia a dia das pessoas, o que necessariamente não é a tônica do conto.
Em alguns momentos, enxergo aspectos de literariedade na crônica, em outros, não.
Vejo aspectos parecidos com reflexões filosóficas e artísticas ou aspectos ensaísticos. Ela estaria como um gênero híbrido que acaba congregando elementos de outros gêneros não necessariamente literários.
Gosto muito ainda de Rubem Braga, Otto Lara Resende, Paulo Mendes, Fernando Sabino e também de alguns escritores que não são necessariamente cronistas, mas que a praticam, como Luis Fernando Verissimo, Clarice Lispector, Milton Hatoum. E Lya Luft, Danuza Leão e Mônica Martelli.
Como gênero literário, não faz parte da literatura indígena brasileira. Nesse caso, ela é ocasional e tem uma relação com o veículo no qual escritores como Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Eliane Potiguara e Márcia Capemba fazem a divulgação de seu trabalho.
Rosana Zanelatto, pesquisadora de Literatura e professora da UFMS
Escrevo muitas crônicas de diversas formas, narrando e descrevendo fatos reais ou ideias. Acredito que nenhum poeta se abstém desse predicado.
Um gênero menor? Não acredito nisso! A crônica é e sempre foi um grandioso recurso literário.
Aquela forma narrativa é o seu traço mais marcante. Tanto o jornalismo quanto a crônica narram fatos, mas na crônica eles nem sempre são reais e há a utilização de uma linguagem poética.
A internet é evolução, e a crônica se insere nesse contexto das mídias móveis com um excelente encaixe. Gosto de Cecilia Meireles, Luis Fernando Verissimo, Clarice Lispector, Paulo Henrique Amorim e muitos outros.
Narinha Lee, poeta intuitiva, performer e produtora cultural