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MODA

Projeto faz sucesso com roupas inclusivas feitas sob medida

Após ficar no cabide durante a pandemia, projeto Bocaiuva brilha em 2021 com roupas inclusivas, ganha o reforço de mais uma integrante e anuncia coleção

Um detalhe, às vezes, pode mudar tudo. Se você tem uma deficiência física, movimentos ou mobilidade reduzida, qualquer detalhe sempre muda tudo, a começar pelo figurino que utiliza no dia a dia. 

Foi esse pensamento simples, mas bastante definidor para o bem-estar dos corpos fora dos padrões vigentes, que levou um trio de jovens designers de Campo Grande a ganhar a passarela do São Paulo Fashion Week no mês de novembro. 

De lá para cá, tudo vem acontecendo tão rapidamente que Eduardo Alves, Luana Sales e Julia Delphino precisam se desdobrar para conversar com o repórter.

Os três fashionistas são as mentes, e mãos, por trás da Bocaiuva Moda Inclusiva, que surgiu em 2019 com o propósito de estimular o pensamento e a prática de um vestuário capaz de atender às necessidades e ao gosto de quem se move e pensa fora dos cânones que alimentam as regras e os holofotes da grande indústria da moda, desde a alta-costura até as lojas de departamento. 

O projeto é uma combinação de grife, escola e consultoria totalmente voltada para a causa que vem mobilizando os bastidores e as vitrines da moda global na última década e que movimenta em torno de US$ 400 bilhões por ano.

Camisas de comprimento e barra mais curta, para um melhor ajuste na cadeira de rodas; botões magnéticos, que permitem um fechamento mais ágil para que tem dificuldade motora; casacos reforçados, que resistem melhor às estocadas involuntárias das muletas; calças com elástico na parte traseira da cintura, para um melhor ajuste quando se usa calça plástica. 

Esses são alguns dos exemplos que materializam um verdadeiro show de criatividade em forma de técnica e afeto que serve de combustível para o trio da Bocaiuva.

SP FASHION WEEK

Após a participação em uma mentoria do São Paulo Fashion Week, no segundo semestre do ano passado, a coisa deslanchou. 

Eles participaram, em rodadas on-line, de uma imersão de dois meses com profissionais de gabarito que injetaram estímulo e experiência na busca de soluções e de prospecção de novos caminhos na criação e no desenvolvimento das peças. 

Acabaram se tornando um dos destaques do módulo Regeneração do evento, o mais importante do mundo da moda verde e amarela.

Com o reforço da técnica em vestuário e terapeuta Marina Wakuta, o agora quarteto arremata os detalhes da coleção que será lançada em março e anuncia, finalmente, para o mês de setembro o lançamento do tão sonhado Prêmio Bocaiuva, que deu origem a tudo antes da pandemia grassar geral. 

“A moda inclusiva é uma moda que tem como foco a diversidade humana, ou seja, são roupas democráticas que são pensadas para facilitar o ato de vestir e, consequentemente, o cotidiano das pessoas”, afirma Luane, designer de moda e, desde 2013, instrutora de vestuário da Faculdade Senai.

“Nosso foco maior são as pessoas com deficiência, mas a moda inclusiva também atende idosos, grávidas, o público plus size e até mesmo pessoas com mobilidade reduzida temporariamente”, diz a designer de 28 anos. 

Ela e, especialmente, Eduardo são figuras tarimbadas, e premiadas, em eventos de peso do segmento que rima responsabilidade social e apuro fashion, entre outros itens, a exemplo do Concurso Internacional de Moda Inclusiva, em São Paulo, e da Olimpíada do Conhecimento, em Brasília.

“O projeto surgiu enquanto escrevemos o evento Prêmio Bocaiuva, que traz capacitações e um concurso de moda inclusiva. Porém, com o início da pandemia, não conseguimos dar prosseguimento. Foi quando criamos a nossa marca, que produz roupas adaptadas. Com a mentoria do SPFW Regeneração + Fluxonomia 4D, conseguimos dar novos e melhores caminhos tanto ao projeto, que visa a educação em torno da moda inclusiva, quanto à marca e, consequentemente, ao evento, que terá sua primeira edição em 2022”, conta Luane.

MODELOS

Mais de 50 modelos foram criados desde então. “Estamos lançando nossa primeira coleção, que conta com 21 peças com uma grade de tamanhos que varia do P ao EGG”, especifica Eduardo, que está com 30 anos e toca a Escola Alinhavo e o Ateliê AEstilista com Luane no mesmo espaço colaborativo onde funciona o projeto Bocaiuva (Rua dos Barbosas, nº 828, Amambaí, Campo Grande).  

“Estamos viabilizando a iniciativa com recursos próprios, consultorias, venda das peças da marca e das etiquetas em braile. O que mais nos motiva é fazer moda com propósito, pois o ganho das pessoas com uma peça de roupa adaptada vai muito além da beleza. É independência, pertencimento, autoestima”, diz Eduardo.

As peças trazem adaptações como aberturas estratégicas que facilitam o ato de vestir ou velcros substituindo botões convencionais, além de aberturas laterais em calças, que facilitam a troca de próteses, e bolsos internos, para pessoas que façam o uso de bolsas coletoras. 

“Também contam com modelagens ergonômicas, facilitando a movimentação. Importante frisar que é tudo muito bem pensado para que as peças não percam design e informação de moda e que sejam para pessoas com ou sem deficiência, pois procuramos incluir e não segregar”, define Luane.

NAPOLEÃO

Eduardo conta que a inclusão orienta o vestuário, pelo menos, desde os tempos de Napoleão. 

“A manga raglan foi a primeira peça inclusiva e foi criada pelo produtor de casacos Aquascutum para Lord Raglan, para permitir-lhe espaço para usar sua espada após ter perdido seu braço na batalha de Waterloo. Essa manga proporciona maior movimento ao usuário”, exemplifica o designer.

“A origem do nome e as características do fruto remetem a muito de nossa identidade. Bocaiuva tem origem tupi, que significa fruto difícil de quebrar. Uma fruta doce que faz parte da infância de cada um de nós, muito comum em alguns estados do País, mas principalmente aqui em Mato Grosso do Sul, e que a natureza fornece com riqueza de nutrientes”, recupera Julia Delphino, de 26 anos. É ela a dona do AEstilista e expert em bordados, consertos e ajustes.

REVOLUCIONÁRIO

“É uma honra participar desse projeto com pessoas que conheci há seis anos, muito jovens e sem pessoas na família com alguma deficiência, quando não se falava muito nesse tema. Logo que soube, já quis colaborar, pois acredito que a vivência como cuidadora de pessoa com deficiência há quase 18 anos vai colaborar de alguma forma com o propósito da equipe e veio de encontro com o que acredito como trabalho de realização de uma missão maior”, diz Marina Wakuta, de 41 anos.

“Como mãe de pessoa com deficiência, vi no Bocaiuva uma forma de avanço e promoção do tema da inclusão e da acessibilidade, além disso uma empatia com os cuidadores, pois um dos objetivos do projeto é ensinar gratuitamente pessoas com deficiência e seus cuidadores sobre o vestuário adaptado. É um projeto revolucionário em uma época em que as pessoas estão cada vez mais necessitadas de acolhimento”, resume a terapeuta integrativa.

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